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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

30
Abr13

Partidas e chegadas

Maria do Rosário Pedreira

Logo mais à tardinha, na Fnac do Chiado, faremos lançamento do romance Enquanto Lisboa Arde, o Rio de Janeiro Pega Fogo, de Hugo Gonçalves, de que já aqui falei um dia destes – as aventuras e desventuras de um jovem português na Cidade Maravilhosa, onde se cruza com um editor, um ex-agente da PIDE, muitos estrangeiros de várias idades e proveniências, um amigo problemático e popular e, claro, muitas garotas, uma delas igualmente portuguesa e bastante especial. Este é um livro cheio de ritmo, humor, ternura e muita saudade, porque os portugueses deixam o seu cantinho, mas nunca se esquecem dele, mesmo quando as memórias do pequeno rectângulo são tristes e, como é o caso, ameaçadoras. Se quiser, apareça. António-Pedro Vasconcelos apresenta a obra.

 

 

29
Abr13

Correr mundo

Maria do Rosário Pedreira

Agora podemos dar a volta ao mundo num livro só e, ao mesmo tempo, tomar contacto com a mão e a verve de muitos escritores contemporâneos, portugueses e não só. A recentemente criada Parsifal teve a bela ideia de juntar num volume contos dedicados às cidades capitais e chamou-lhe, muito apropriadamente, Contos Capitais. «A beleza e a alma de uma cidade ultrapassam as fotografias dos locais que aparecem nos postais ilustrados, onde se aglomeram turistas ocasionais. Uma cidade constrói a sua singularidade sobretudo nas vielas e nos becos, nos sentimentos dos seus habitantes ou nos rituais da sua vida quotidiana», diz-nos o editor, que pediu a trinta autores muito variados (pronto, pronto, a mim também) que construíssem uma pequena ficção à roda de uma das suas capitais favoritas. Do veterano Baptista-Bastos ao recém-chegado João Ricardo Pedro (com um memorável conto em Montevideu), há aqui histórias para todos os gostos – e, ainda por cima, ilustradas com fotografias muito bonitas de cada cidade. A não perder.

26
Abr13

Comer e chorar por mais

Maria do Rosário Pedreira

And now for something completely different… Pois, sendo eu uma péssima cozinheira, é estranho vir aqui falar de um livro de receitas – mas não resisti porque este é o livro de receitas ideal para quem detesta ou não sabe cozinhar. E porquê? Porque a sua base são as conservas. O autor, Henrique Vaz Pato, é o proprietário de um restaurante na zona do Cais do Sodré chamado Sol & Pesca, muito badalado em guias e artigos sobre Lisboa por esse mundo fora, no qual, para variar, o menu é exclusivamente composto de conservas: de sardinha, de atum, de ovas, de cavala… Com marcas óptimas que não se encontram facilmente num supermercado (a menos que seja gourmet), oferece-nos uma refeição muito original acompanhada apenas de pão e do que se quiser beber. O livro, igualmente intitulado Sol & Pesca, vira, porém, as conservas do avesso e cria com elas pratos que exigem alguma confecção mas farão de certeza a delícia de todos, além de serem extremamente fáceis de preparar. Eu, que sou aselha com os tachos, aplaudo.

24
Abr13

Poesia e redes sociais

Maria do Rosário Pedreira

Tendemos a tornar nossos amigos nas redes sociais aqueles que conhecemos directa ou indirectamente, mas que cremos estarem interessados no que publicamos ou darem-nos material de leitura agradável. E, depois, há também um sem-número de entidades colectivas às quais nos associamos em virtude das afinidades que sentimos (é, pelo menos, o meu caso). Há já muito tempo fiz-me «amiga» de um grupo no Facebook que dá pelo nome de Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen, grupo esse com numerosos membros que, já se sabe, gostam da poesia de Sophia e da de outros poetas portugueses, que divulgam de forma militante. Não pensava que iria um dia conhecer os responsáveis por essa página, mas eles apareceram há uns meses no lançamento da minha Poesia Reunida e apresentaram-se. De algum tempo a esta parte, organizam uma sessão mensal com um poeta na Livraria Férin, em Lisboa, e convidaram-me para estar presente hoje às 18h30 (sucedo a Maria Teresa Horta, pas mal). Como recusar uma conversa com quem gosta de poesia?

 

23
Abr13

Criação e criatura

Maria do Rosário Pedreira

Antes que me esqueça – até porque devemos sentir-nos gratos pelo seu bom trabalho –, a tradução do livro que hoje me ocupa é de Francisco Agarez (ou, melhor, do extraordinário Francisco Agarez). A obra, absolutamente genial, é assinada por Philip Roth, o decano dos romancistas norte-americanos. Chama-se Engano e tem letras gordas e páginas arejadas, pelo que parece de leitura relativamente rápida; mas não nos iludamos: a sua aparente acessibilidade tem os minutos contados, tratando-se de um livro bastante complexo que só podia ter sido escrito por um craque. Falar dele é perigoso, porque tudo o que se diga ajuda ou desajuda o leitor (e ele tem mesmo de partir sozinho nesta aventura). Por isso, referirei apenas que é um romance sobre a criação literária (não por acaso, uma das principais personagens é um escritor norte-americano chamado Philip) e as criaturas (ficcionais, bem entendido, embora não haja nada tão real como elas – ou talvez eu me ou vos engane dizendo isto, mas faz parte do jogo do autor). Dois amantes (um homem e uma mulher, ela inglesa) encontram-se num estúdio em Londres onde não há sequer espaço para uma cama – razão talvez para que o orgasmo seja provocado não pelo sexo, mas pelas conversas, que são inteligentes, algo angustiantes, desarmantes e, como não podia deixar de ser em Roth, também sobre os judeus e o preconceito que existe em relação a eles. Este é um daqueles livros que se podem ler e reler toda a vida e que têm essa rara virtude de constantemente nos enganar, como os dois protagonistas enganam os respectivos cônjuges (ou talvez não). Só lendo. E deve ser lido.

 

22
Abr13

Ler sem roupa

Maria do Rosário Pedreira

Há um quadro de Edward Hopper de que gosto muito (para falar verdade, gosto de quase todos, mas este interessa-se particularmente). Representa uma rapariga que lê em trajes menores sentada na cama feita de lavado de um quarto pequeno, no qual há ainda bagagem por abrir, um sapato derrubado e um chapéu pousado à pressa sobre a cómoda. Chama-se Hotel Room e sempre vi nele a urgência de, chegando a um lugar estranho, alguém terminar um capítulo de um livro que começou no avião (ou reler uma das epígrafes para a usar numa conferência que fará nessa mesma tarde) antes mesmo de desfazer as malas. A água estará a correr para a banheira nesse momento, preparando um banho de sais relaxante. Provavelmente, não é nada disso, mas a pintura de Hopper leva-me frequentemente a devaneios ficcionais, até porque a realidade anda bastante desagradável e há, aliás, coisas tontas a acontecer todos os dias. Uma delas (para não falar só do nosso país) tem que ver com a Amazon que, na altura em que se iniciou, era apenas uma livraria, mas, de repente, passou a loja virtual de basicamente tudo o que não seja perecível (e a ver vamos). Um dia destes, porque precisava de uma informação sobre uma edição específica de um livro, fui ao site americano e só me saltavam à vista vestidos e acessórios, não aparecendo um único livro na página de abertura. Talvez se pense que quem compra livros compra também roupa (e assinada por estilistas norte-americanos algo reputados) e que isso levará alguns leitores a, em vez de comprarem um romance, vestirem-se on line. Porém, no quadro de Hopper, está especialmente concentrada na leitura uma mulher quase nua. Para quê a roupa?

19
Abr13

Chapas

Maria do Rosário Pedreira

Quando falamos em impressão de livros, ainda nos referimos vulgarmente às «chapas» que, na verdade, eram fotografias tiradas a páginas e depois «reveladas» em papel nas impressoras. A ligação do livro à fotografia pode, porém, ser bem mais criativa, e a Fundação José Saramago lança anualmente um concurso que tem por título «Retratar um livro», propondo, à vez, uma das obras de Saramago como motor de arranque. Este ano, o livro era O Ano da Morte de Ricardo Reis e o júri, composto por António Mega Ferreira, Jorge Vaz de Carvalho e João Francisco Vilhena (este último responsável por dezenas de belíssimos retratos de escritores), deliberou premiar a «chapa» de Maria de Lourdes Poças (poderá vê-la no site da Fundação Saramago). O segundo lugar, curiosamente, coube a Pedro Teixeira Neves, que venceu o concurso no ano passado e foi o autor das imagens projectadas durante o espectáculo que as Quintas de Leitura me dedicaram recentemente no Teatro do Campo Alegre (um fotógrafo e jornalista que sempre se dedicou às duas artes). Parabéns a ambos e à Fundação por esta ideia de promover o livro através da fotografia.

18
Abr13

So many books, so little time…

Maria do Rosário Pedreira

Este mês de Abril é especialmente dedicado ao livro – é no dia 23 que se comemora o Dia Mundial do Livro (creio que por ser a data de nascimento de Cervantes) e, ao longo de todo o mês, haverá acções coordenadas por editores, livreiros e autores em várias cidades do País para celebrar este objecto mágico que muda quem o sabe desfrutar. Na capital, sob a denominação «Ler em todo o lado», a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros organiza também um programa bem amplo, contando com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa e a Rede de Bibliotecas Públicas. Se quiser, poderá consultá-lo no primeiro link que coloco após o post. A revista Time Out associa-se à iniciativa e disponibiliza um mapa de todas as livrarias de Lisboa, até porque se propõe aos leitores que votem na sua livraria preferida (ver o segundo link). Enfim, não faltam sessões à volta dos livros, falta é tempo para ler e ir a tanta coisa…

 

http://leremtodolado.wix.com/abril

 

http://www.apel.pt/pageview.aspx?pageid=819&langid=1

 

17
Abr13

Sempre a pedalar

Maria do Rosário Pedreira

Normalmente, a palavra «oportunista» tem uma carga negativa, mas no caso do livro que hoje me traz, gostaria de a virar para o outro lado. Enquanto Lisboa Arde, o Rio de Janeiro Pega Fogo, de Hugo Gonçalves – uma narrativa sobre um português imigrado na Cidade Maravilhosa e escrita com um ritmo que combina na perfeição com o protagonista que se farta de pedalar –, é mais do que oportuno, é oportunista no bom sentido! Não só fala de um português desempregado que se viu obrigado a viajar para fora da pátria (mas com a pátria continuamente dentro de si), como o introduz numa intriga altamente imaginativa, que inclui o manuscrito de uma mulher entretanto morta e a busca do seu antigo amante, um agente da PIDE que, depois do 25 de Abril, se exilou no Rio e andou a tentar passar despercebido. É esse manuscrito que o português leva consigo no avião, aceitando um trabalho no Brasil de um editor que outrora amou a autora do livro (mas, já se sabe, foi preterido) e cruzando-se com figuras esquivas e por vezes desaconselháveis, gente dos dois sexos e várias nacionalidades. Pelo meio, uma história de amor profunda e muito ternurenta, reflexão bastante sobre assuntos sérios e, claro, saudades de Portugal.

 

16
Abr13

Cobrir e mostrar

Maria do Rosário Pedreira

Li um interessante artigo que me enviaram pelo Facebook sobre as razões por que em França as capas dos livros são sempre tão sóbrias, ao contrário do que se passa no resto do mundo (e Portugal não é excepção). Defende Charlotte Pudiowski, a autora da peça, que a França tem uma relação com a literatura que se inscreve numa lógica de sacralização que remonta ao século XVIII e que os escritores se tornaram uma espécie de santos e heróis desse país laico no século XIX. É, pois, para os franceses, o texto que conta – as imagens tornam o leitor menos livre para imaginar o que quiser ao longo da leitura – e esse tem de ser auto-suficiente, motivo pelo qual as colecções de ficção das principais editoras francesas têm apenas uma cor de fundo e letras simples e elegantes para o título e o nome do autor – são conhecidas apenas como a blanche (da Gallimard), a jaune (da Grasset) ou a bleue (da Stock) e associam a sobriedade a uma literatura elitista e de grande qualidade. As primeiras capas ilustradas que apareceram em França foram, não por acaso, as das edições de bolso, que se queriam obviamente mais populares para atraírem outro tipo de leitores, e parece que, mesmo assim, o debate foi imenso no seio da intelligentsia editorial... Diz-nos ainda o artigo que, em França, são as livrarias quem vende mais livros, ao contrário de países onde estas foram claramente ultrapassadas pelos supermercados, nos quais o livro é apenas um dos muitos produtos à venda – e, requerendo atenção, tem de se cobrir de cor e imagem para ser visto e adquirido. Domaine intellectuel vs Loisir, acrescenta uma editora ali citada. Hum... Precisávamos de um bocadinho mais de tradição francesa no nosso sistema editorial, ou não?

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