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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

15
Abr13

Maturidade

Maria do Rosário Pedreira

Sempre quis ler Mario Benedetti, um escritor uruguaio nascido em 1920 e tido pelos seus contemporâneos (e não só) como um dos melhores ficcionistas latino-americanos. Como acontece com muitos outros autores que quero ler antes de morrer, não tinha ainda calhado, mas valeu-me um dia destes uma colega editora – a Rosário Alçada Araújo – para que a ocasião se apresentasse e já não fosse possível fugir-lhe. O livro, A Trégua, foi então emprestado e lido de um fôlego. Com mais de cem edições e de um milhão e meio de exemplares vendidos só em língua espanhola, o romance conta a história de um viúvo à beira da reforma que sonha e teme o ócio em doses iguais, depois de ter criado sozinho três filhos que conhece (e o conhecem) bastante mal. Mas eis que, a seis meses de se refastelar num dolce far nienti, aparece no escritório onde trabalha uma rapariga de vinte e quatro anos, Avellaneda, que vai mudar a sua vida e dar um novo alento a uma existência que antes era apenas rotineira e modorrenta. Escrito como um diário, este é um relato de um homem maduro que descobre que ainda tem direito à felicidade e que ganha uma opinião distinta de si próprio à medida que o seu relacionamento amoroso evolui. E, se a narrativa parece mais ou menos linear, a verdade é que o leitor há-de levar às tantas uma estalada na cara, para a qual não houve avisos nem sinais, revelando a mestria de Benedetti num surpreendente volte-face. A única estranheza do romance é que o protagonista tem apenas quarenta e nove anos e é sempre descrito como alguém à beira da velhice – e eu, que já tenho cinquenta e três, enfim, não me sinto tão acabada. O romance é, porém, de 1960 e, pensando bem, nesse tempo em que eu era criança talvez achasse a minha mãe, como dizem os miúdos, uma cota.

12
Abr13

Pagar para ver

Maria do Rosário Pedreira

Todos os portugueses sabem que, no Porto, existe uma das mais lindas livrarias do mundo. Chama-se Lello e ninguém ficará indiferente se a visitar. O problema das coisas bonitas é todos quererem vê-las – e, se já só podem entrar x pessoas de cada vez na Basílica de S. Marcos, em Veneza, pois parece que a nossa Lello, de tantos lá meterem o nariz, está também a desgastar-se. A palavra «desgaste» vem, aliás, de quem a gere e foi recentemente acusado de cobrar entradas de dois euros aos que ali querem entrar. Estranho, diria eu, não se tratando de monumento nacional nem me parecendo que um estabelecimento comercial possa fazer dinheiro como os museus vendendo bilhetes. Garante, porém, o responsável que há duas mil pessoas que entram diariamente na Livraria Lello e que esse dinheiro é para atender ao forçoso «desgaste» (sim, mas como prová-lo?); e diz que só cobra entradas a grupos de turistas organizados, o que, segundo testemunhos de clientes, é falso, pois um casal português com uma criança – e, ao que parece, visitantes e compradores regulares na Lello – foi surpreendido com a obrigatoriedade de pagar os ditos dois euros. Será que, a comprar livros, a quantia é descontada no total das compras? Ou a livraria está apenas a tentar colmatar a falta de livros vendidos (a crise é grande) com este estratagema? Nas redes sociais, a polémica instalou-se – e não são raros os comentários pouco abonatórios sobre a má-educação dos funcionários e a oferta reduzida e desinteressante da livraria…

11
Abr13

Rumo a Leiria

Maria do Rosário Pedreira

E lá vamos nós, uma vez mais, a Leiria. A Livraria Arquivo, não me canso de dizer, é um dos lugares que melhor recebe editores e escritores por esse país fora e faz especial caso dos que começaram há pouco tempo, querendo apresentá-los aos seus leitores. Leitores que, como a livreira, Paula Carvalho, são também implicados e aparecem ao fim da tarde para saber o que se anda a escrever e fazer perguntas interessantes, quando não oferecer desenhos e uma boa conversa no momento dos autógrafos. Desta feita, vão comigo João Tordo, para falar de O Ano Sabático, e Cristina Drios, que há dois dias lançou o seu romance de estreia, Os Olhos de Tirésias. Lá mesmo, encontrar-nos-emos com Nuno Camarneiro, que se debruçará naturalmente sobre o livro que ainda ontem aqui referi, Debaixo de Algum Céu. Acho que é a primeira vez que me acompanha uma escritora, o que é um excelente sinal (e não vai ser a única, aposto). Tenho a certeza de que correrá muito bem e espero rever os amigos de sempre – e, claro, conhecer muitos mais. Se estiver por perto, apareça.

 

10
Abr13

Os inquilinos do mundo

Maria do Rosário Pedreira

Está desde segunda-feira passada oficialmente à venda Debaixo de Algum Céu, de Nuno Camarneiro, o romance que venceu a última edição do Prémio LeYa e usa um prédio numa cidade de província e os seus inquilinos para, afinal, falar da sociedade contemporânea e de muitas questões controversas dos nossos tempos, como a morte assistida, o casamento dos padres, a substituição de funcionários de carne e osso por empregados virtuais, a solidão dos velhos, a concorrência e o carreirismo nas empresas. Por vários andares, dividem-se pessoas fundamentalmente sós nos seus desejos que um factor inesperado pode juntar; o apagão provocado por uma tempestade porá, efectivamente, em contacto alguns destes vizinhos desavindos com a vida e, a partir desse momento, já nada será igual. O mais não se pode contar, sob o risco de desmanchar o prazer da leitura e levantar demasiado o véu (ou o céu) sobre as existências destes homens e mulheres que podíamos ser nós ou os que vivem ao nosso lado. Belíssimo.

 

09
Abr13

Aniversário

Maria do Rosário Pedreira

A extraordinária Ana Bernardo ficará hoje certamente contente por lhe anunciarmos um lançamento que não calha a uma quinta-feira. É verdade: logo mais à tarde apresentaremos publicamente o romance Os Olhos de Tirésias, de Cristina Drios, na Livraria Leya na Buchholz (ao Marquês de Pombal). E a data não podia ser mais adequada: é que a obra relata a vida extraordinária de um soldado português na Primeira Guerra Mundial – e a batalha de La Lys, onde tantos portugueses combateram, iniciou-se precisamente no dia 9 de Abril. Com uma escrita bela e segura, Cristina Drios tomou uma fotografia do avô da sua narradora (uma escritora com o casamento por um fio) – o corpulento Mateus Mateus – como ponto de partida para uma narrativa que começa na aldeia natal do soldado (que foi maqueiro e coveiro antes de ser feito prisioneiro pelos alemães) e termina exactamente no dia da batalha de La Lys, a 9 de Abril de 1918, em França. Do que aconteceu a Mateus Mateus e ao casamento da escritora, pois bem, só a leitura o poderá dizer. João Tordo apresenta a obra e ainda teremos o bónus da grande guitarrista Luísa Amaro, que ao longo de anos acompanhou Carlos Paredes, e nos vai tocar duas composições. Não falte.

 

08
Abr13

Envelhecer

Maria do Rosário Pedreira

Nos últimos anos, tenho assistido a um notável desenvolvimento daquilo a que vulgarmente se chama romance gráfico, embora em muitos casos (como o que hoje me interessa) a expressão seja um pouco redutora. Provavelmente, Rugas, de Paco Roca, não é sequer um romance (embora seja uma narrativa) e pode ser gráfico, por ter desenhos, mas aqui as palavras talvez contem mais do que as ilustrações. É, em todo o caso, uma obra francamente interessante sobre o envelhecimento e os lares de terceira-idade para onde são empurrados os que já não são autónomos e dos quais os filhos não podem ou não querem tratar. É isso mesmo que acontece a Emilio, o protagonista de Rugas, quando, aos setenta e picos, dá os primeiros sinais de uma confusão que vem a saber-se ser Alzheimer. Internado numa instituição, primorosa e humoristicamente retratada como uma sequência de salas onde dormitam velhos, com ou sem televisão, o objectivo de Emilio será manter-se no piso de baixo, onde ainda lhe resta alguma dignidade, como lhe aconselha logo à chegada o cínico Miguel, que aproveita as fraquezas alheias para surripiar carteiras e outros bens pessoais e para chamar os bois pelos nomes desapiedadamente. Não é tão insensível como, à primeira vista, possa parecer; mas para isso e para saber o que acontecerá a Emilio será preciso ler este livro muito premiado até ao fim. O que, naturalmente, sugiro.

05
Abr13

Generation gap

Maria do Rosário Pedreira

Quando olho para os meus sobrinhos mais novos (de 2 e 4 anos) de roda de um telemóvel ou de um tablet, fico estarrecida com a rapidez com que compreendem a lógica do aparelho e o põem a funcionar, como se já tivessem nascido com um chip que os predispusesse para as novas tecnologias. Confesso que não tenho grande talento para as máquinas (fotocopiadoras, então, nem se fala) e o que retiro delas é apenas o que se me afigura mesmo indispensável, não perdendo (ou ganhando) tempo a explorar as suas potencialidades e, regra geral, agindo com uma desconfiança antipática, que me leva a guardar demasiadas cópias de ficheiros no disco de vários computadores e ainda em pens e CD. Nasci quando as máquinas de escrever eram mecânicas e, nos meus sonhos de futuro, o máximo dos máximos era alguém tocar à campainha do prédio e, dentro da nossa casa, termos hipótese de ver quem era (um sonho perfeitamente exequível, como se viu, mas que, à época, parecia uma coisa do Além). Enfim, acho que ainda pertenço à geração dos que não trazem o tal chip, embora não chegue obviamente aos calcanhares do senhor do vídeo cujo link vos deixo, para quem um iPad é… Só vendo.

 

 http://www.youtube.com/watch?v=Y4_96f0Ooqg

04
Abr13

A invenção do circo

Maria do Rosário Pedreira

Quando o meu pai era vivo, fomos uma vez ao Coliseu ver um espectáculo de Leo Ferré e, assim que ele entrou na sala, disse-me que aquilo ainda lhe cheirava a leão… Este ano, o espectáculo de António Zambujo nessa mesma sala tinha o público estranhamente disposto em círculo à roda de um palco, pois eram férias de Natal para as crianças e época de circo. Sobre o circo escreveu André Gago e ilustrou Marina Palácio um livrinho infantil que já vai em 6.ª edição e ganhou o Prémio da APE de obra infantil e do Festival de BD da Amadora de ilustração. Uma história muito bonita de gente que põe mãos à obra para trazer de volta a Lua que se afastou da Terra e, nas suas várias tentativas de a resgatar, descobre o funambulismo, as acrobacias, o malabarismo e muitas outras actividades que viriam a dar origem ao circo. Simples e belo, este livro foi seleccionado pelo PNL para as crianças.

 

03
Abr13

Escritores na Madeira

Maria do Rosário Pedreira

Ontem iniciou-se mais uma edição do Festival Literário da Madeira – e amanhã parto para participar numa conversa cruzada sobre o tema «A Arte de Pagar as Suas Dívidas», que tem Balzac como inspiração. Este ano o mote para as mesas-redondas é um manifesto pela Arte e, partindo de frases de escritores, esperam-se debates interessantes sobre religião, igualdade de género, diáspora, guerra e economia. Os participantes são muitos, portugueses e estrangeiros – e, além das idas a escolas previstas para alguns deles, o encontro alarga-se à universidade, onde decorrerão sessões de diálogo com os estudantes. Na rubrica «Conversas à Mesa», Rui Tavares conversará com Naomi Wolf e José Rodrigues dos Santos com Zygmunt Bauman. Sérgio Godinho fará um concerto numa das noites e a poesia estará muito bem representada (Ana Luísa Amaral, Pedro Mexia, João Luís Barreto Guimarães, Filipa Leal, Inês Fonseca Santos e, naturalmente, esta vossa criada). Prometem-se igualmente momentos de humor e intervenção política, sobretudo pela mão de Rui Zink. Veremos se desta feita se canta a Grândola (na Madeira nunca se sabe).

02
Abr13

Argumento ecológico

Maria do Rosário Pedreira

Uma das coisas boas em ter um blogue é que os leitores (neste caso, os leitores extraordinários), quando vêem alguma coisa que pode divertir-nos e interessar-nos, enviam-na para nós. Neste caso, o extraordinário Joaquim Almeida pôs os olhos num vídeo que achou que fazia as minhas delícias, na medida em que me afirmo como defensora de livro em papel (não necessariamente contra o digital, mas a favor da manutenção do modelo de sempre). Ora, os defensores do digital usam habitualmente o argumento do corte de árvores para citar os malefícios da edição em papel, mas há realmente momentos em que nada mais substitui o velhíssimo papel, muito menos os novos gadgets! Obrigada, Joaquim, adorei a sua atenção e o vídeo. Divirtam-se todos com ele:

 

http://vimeo.com/61275290