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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Mai13

Obra colectiva

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há uns meses, a LeYa Brasil, assinalando o Ano de Portugal no Brasil, decidiu publicar uma colecção de romances de novos autores portugueses, iniciando-a com cinco títulos muito diferentes, da autoria de Patrícia Reis, Patrícia Portela, Nuno Camarneiro, Sandro William Junqueira e João Ricardo Pedro (outros cinco virão à luz ainda este ano). Os autores da primeira leva encontraram-se então para uma acção de promoção dos seus romances no Rio de Janeiro e aconteceu uma coisa rara, sobretudo quando se trata de artistas da mesma geração: adoraram conhecer-se e ficaram todos amigos desde então. Quando Nuno Camarneiro soube, mais tarde, que ganhara o Prémio LeYa, resolveu então chamar estes quatro amigos (entre eles, o premiado da edição anterior) para apresentarem o seu romance Debaixo de Algum Céu quando chegasse a hora de fazer a respectiva apresentação pública. Por causa das datas, Patrícia Portela e Sandro William Junqueira, que moram longe, não puderam vir, mas, com dois apresentadores, o lançamento vai ser na mesma uma espécie de obra colectiva. É hoje, às 18h30, na Livraria Buchholz, ao Marquês de Pombal. Se quiser aparecer, está convidado.

 

16
Mai13

Poemas portugueses para inglês ver

Maria do Rosário Pedreira

Ana Hudson (de solteira, Melo) vive em Londres e decidiu criar uma página dedicada à poesia portuguesa do presente século. Roubou (e bem) o nome a um livro de Elizabeth Barret Browning (Sonnets from the Portuguese), uma poetisa inglesa que se diz ter sido grande admiradora de Camões e a quem o marido (outro grande poeta britânico, Robert Browning) chamava «my little Portuguese». A página chama-se Poems from the Portuguese e apresenta uma lista muito vasta de autores portugueses de poesia (alguns que só começaram depois de 2001, mas muitos que, tendo-se estreado ainda no século passado, continuam hoje a escrever e a publicar), cujos nomes aparecem numa barra do lado esquerdo. De cada um, é oferecida uma pequena nota biográfica seguida de um texto breve sobre a sua obra (tudo em inglês – é bom de ver). E, mais importante, está disponível um número representativo de poemas traduzidos em inglês, que podem ser uma espécie de porta para leitores curiosos se atirarem à descoberta mais aprofundada de alguns poetas. Neste mundo em que é tão difícil arranjar, no espaço anglo-saxónico (e não só), quem traduza a belíssima poesia portuguesa, é uma felicidade e um privilégio contar com o trabalho de Ana Hudson. Obrigada. O link vai abaixo.

 

http://www.poemsfromtheportuguese.org/

15
Mai13

Boas ideias

Maria do Rosário Pedreira

Bruno Vieira Amaral, que tem trabalhado como assessor de comunicação da editora Quetzal e também como crítico literário (nomeadamente, na revista Ler), publica agora um interessante trabalho que dá pano para mangas. Chama-se Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa e, inspirado numa obra de que aqui já tive o prazer de falar – o Dicionário dos Lugares Imaginários, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi (que se debruça sobre lugares inventados como, por exemplo, a Macondo de Cem Anos de Solidão) –, resolveu pegar em cinquenta personagens da literatura portuguesa e dedicar a cada uma delas uma apresentação que não se pretende exaustiva e, acima de tudo, suscita a curiosidade de a descobrir. É certo que constam da sua lista os emblemáticos João da Ega de Os Maias ou mesmo a Joaninha dos olhos verdes de Viagens na Minha Terra, mas o conjunto está longe de ser óbvio ou esperável. Bruno Vieira Amaral oferece-nos boas surpresas como Mizé (do romance homónimo de Ricardo Adolfo) ou o mais recente Mário (de O Retorno, de Dulce Maria Cardoso), preocupando-se mais com o facto de todos os seus «retratados» serem grandes personagens do que com a época, a reputação dos autores que as criaram e até os livros de que foram retiradas (às vezes, não tão grandes como elas). Uma obra muito curiosa que põe em curso uma bela ideia que, ainda por cima, pode ser multiplicada e continuada pela vida fora, enquanto houver livros e Bruno Amaral tiver tempo para ler.

14
Mai13

Admiração pelo inimigo

Maria do Rosário Pedreira

Há muitos anos, na Temas e Debates, publiquei um livro de entrevistas de Maria João Avillez a Álvaro Cunhal – e era notória a admiração da jornalista pelo entrevistado, embora pertencessem a quadrantes completamente distintos, sobretudo quando contava que levara a Cunhal todos os seus romances (os de Manuel Tiago, evidentemente) pedindo-lhe que lhos assinasse e que, de todas as vezes, regressara da entrevista sem o tão almejado autógrafo (senti que nem toda a gente teria coragem de se confessar tão absolutamente ignorado e desprezado sem um tom minimamente acusatório). Contaram-me também recentemente que Salazar era um grande leitor de Aquilino Ribeiro – e que o facto de o querer preso nada tinha que ver com a admiração que nutria pelo escritor (já pela pessoa, não se pode dizer o mesmo). Os intelectuais têm sido respeitados ao longo do tempo mesmo pelos seus maiores inimigos ou rivais, mas vivemos um tempo de viragem absurdo, em que, usando uma expressão de Ortega Y Gasset, os «ocupados» (os políticos) ignoram simplesmente os «preocupados» (os intelectuais) e não têm por eles o menor respeito, desprezando o que pensam ou dizem e não pedindo para nada o seu parecer. Ah, triste arrogância dos ignorantes que nos governam, que não só não devem ler uma linha (excepto num quadro em Excel, e mesmo aí...) como ainda por cima acham que quem lê, escreve, pinta, compõe – pensa e cria, em suma – não é gente a quem se deva dar atenção. Tristes os tempos que atravessamos, em que o Presidente da República omite deliberadamente o nome de Saramago numa Feira do Livro na Colômbia dedicada a Portugal só porque eram de quadrantes distintos...

13
Mai13

Opostos ou nem tanto

Maria do Rosário Pedreira

Estará a partir de hoje disponível no mercado um maravilhoso romance que foi finalista da última edição do Prémio LeYa. Escrito por Ana Margarida de Carvalho, jornalista da revista Visão que já recebeu variados prémios, entre eles o cobiçado Gazeta, Que Importa a Fúria do Mar traz-nos duas personagens, duas gerações, dois tempos, dois Portugais distintos. Temos Joaquim, um dos últimos sobreviventes da primeira leva de ocupantes do campo do Tarrafal e, do outro lado (ou talvez do mesmo), Eugénia, uma jornalista ainda jovem que é chamada a entrevistá-lo e se interessa pelas suas histórias (a política e a pessoal) muito para além da curiosidade profissional. Estas duas figuras aparentemente antagónicas partilharão, porém, muita coisa juntas – memórias de infância, histórias de amores impossíveis, a fúria do mar e até um gato que, às tantas, deixa de ser de um deles para ser do outro. Cruel e lírico a um tempo, Que Importa a Fúria do Mar é uma estreia belíssima e invulgar na ficção portuguesa que nos faz desejar que a sua autora não fique por aqui e continue a temperar o jornalismo com a escrita literária.

 

10
Mai13

Auto-retrato

Maria do Rosário Pedreira

Conhecia o autor e até publiquei em Portugal As Partículas Elementares, que não é o seu primeiro romance, mas foi o primeiro a sair em tradução portuguesa. E, no entanto, O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq, vencedor do Prémio Goncourt, é um livro inteiramente diferente e, em certa medida, nem sequer parece de um autor francês contemporâneo. Fala-nos de um artista, Jed Martin, que pede a Houellebecq (uma das principais personagens) que lhe escreva o texto de abertura do catálogo da sua primeira grande exposição (na anterior, colectiva, havia exposto uma fotografia de um mapa Michelin que o tornou um artista de sucesso) – e este acaba por concordar, criando-se entre os dois uma relação não exactamente amistosa ou íntima, mas em todo o caso empática e digna de nota. Jed decide então retratar o escritor e oferecer-lhe esse quadro – e o mais interessante é que a personagem do pintor serve ao próprio autor para se retratar na terceira pessoa sem cinismos desnecessários como o homem estranho e misantropo que todos sabem que é. Na sequência da viagem que Jed faz para entregar o quadro (finda a exposição), o livro muda completamente de rumo, e uma morte inesperada em condições horripilantes (cabeças degoladas e corpos desfeitos) levar-nos-á até ao culpado do crime pela mão de um comissário da Polícia (ou não exactamente). Cheio de movimento e animado aqui e ali com descrições pormenorizadas de questões laterais ao enredo, O Mapa e o Território é, entre outras coisas, um excelente romance sobre os artistas de várias naturezas e as suas vidas públicas e privadas. A tradução é de Pedro Tamen.

09
Mai13

Músico das letras

Maria do Rosário Pedreira

Muitos dos extraordinários leitores deste blogue já ouviram certamente falar de Alain Oulman, um judeu de origem francesa nascido em Portugal que virou do avesso a vida artística de Amália Rodrigues, compondo para ela fados completamente distintos dos que cantava até então e ajudando-a a encontrar poetas, como David Mourão-Ferreira, que lhe fariam letras inesquecíveis, contribuindo para que o fado passasse de uma canção popularucha para um nível muitíssimo mais sofisticado. O que talvez não saibam é que Alain Oulman, depois de ter sido preso pela PIDE, ficou muito zangado com Portugal e foi para França trabalhar com um tio, que tinha uma conceituada editora, tornando-se um editor de excepção. Num documentário exibido há algumas semanas na RTP2 e realizado por um dos seus filhos, conhecemos melhor esta faceta de Oulman através de editores que trabalharam ao seu lado e bem assim autores de renome, como Amos Oz, cujo testemunho da sensibilidade de Oulman para a música do texto era um verdadeiro enaltecimento da figura. Para que conste, esse homem que fez músicas belíssimas para a nossa fadista, tinha o cuidado de ler ao telefone as traduções francesas de certas passagens a alguns dos seus autores (e de lhes pedir que as dissessem na sua própria língua) para ter a certeza de que a música era a mesma no resultado final. Se conseguirem ver este documentário – uma peça interessantíssima sobre um homem ainda mais interessante – não percam.

08
Mai13

O céu é o limite

Maria do Rosário Pedreira
 

Hoje realizar-se-á a entrega do Prémio LeYa a Nuno Camarneiro pelo seu romance Debaixo de Algum Céu, publicado em início de Abril. Estas coisas levam o seu tempo, pois requerem a presença de entidades oficiais e as agendas destes senhores são sempre complicadas. Chegou, porém, a hora de o autor receber o galardão e de nos presentear publicamente com algumas palavras ditas (as escritas estão no livro, disponíveis para todos os que o queiram ler). Manuel Alegre, como presidente do júri, falará do romance e certamente das razões que levaram os jurados a escolher este entre sete. Tenho a certeza de que, ao concorrerem, todos os autores que enviam os livros têm a convicção de que podem ganhar (senão, para que o fariam?) e que o céu é o limite. No entanto, Nuno Camarneiro contou em entrevistas que, quando ouviu a voz de Manuel Alegre ao telefone, grave como sempre, foi como se ouvisse Deus. Estava, enfim, debaixo de um bom céu... Parabéns ao premiado e também aos restantes finalistas. Aquilo de que precisamos é que haja sempre bons livros.

 

07
Mai13

Ler a norte

Maria do Rosário Pedreira

No Dia Mundial do Livro houve um sem-número de actividades levadas a cabo por várias entidades ligadas à cultura. Fez-se muito, mas a verdade é que os comentários muitas vezes referiam que não se saiu de Lisboa e que o resto do País também merecia. Com toda a razão. Mais ainda quando se sabe que este ano não haverá Feira do Livro na cidade do Porto, quebrando-se uma tradição de anos e anos, como se a norte as pessoas não gostassem de ler... É verdade que os custos eram altíssimos para quem participava e que, entre inscrições, transporte dos pavilhões e da mercadoria e pagamento ao pessoal, quando não se ficava em casa, acabava por se perder dinheiro. Era para isso que se contava com o apoio da Câmara Municipal da Invicta, que oferecia o espaço e ajudava com uma verba o certame. Sabemos, porém, que os municípios estão de tanga e – pior – que, mesmo de tanga, preferem apoiar os aviõezinhos com fumos às cores a fazerem acrobacias sobre as pontes e outros eventos que enchem o olho mas em nada contribuem para os portuenses ficarem mais cultos. Porque será? Eu cá diria que a quem está no poder dá sempre jeito ter uma carneirada que não pensa. Muito mais, evidentemente, do que uma população que ponha as suas decisões em causa e se revolte. É o que temos...

06
Mai13

Aniversário

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes as Horas Extraordinárias fizeram três anos. Três anos!? Como é possível já ter passado tanto tempo e quase não se dar por isso? Alguma vez eu pensava que seria capaz de alimentar diariamente (quer dizer, pelo menos, nos dias úteis) um blogue e – o que é ainda mais surpreendente – ter leitores e comentadores que já considero da casa? A verdade é que não. Embora tenha começado esta aventura com bastante ânimo, calculei que, ao fim de um tempo, os visitantes se passassem para outras paragens e se cansassem de um espaço igual a si próprio. Mas não. E um dia destes tive uma bela surpresa: coloquei um comentário em resposta a um outro da extraordinária Anabela F., informando os leitores que estaria a distribuir livros no Metro – e não é que o também extraordinário Rui Antunes, que nem sequer é dos que mais comenta, apareceu lá com um livro meu para que lhe desse um autógrafo? Pois é, se não fossem os que aí vêm todos os dias e participam, estão contra, dão as suas opiniões, acho que já teria desistido. Agradeço, pois, a todos: aos que habitualmente comentam (contra e a favor) e também àqueles que ficam em silêncio, mas estão lá, todos os dias, a ler-me. Muito obrigada. E voltem sempre.