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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

28
Jun13

Prisões

Maria do Rosário Pedreira

Está-se preso por muitas razões – e a ideia básica de que os reclusos são todos gente iletrada e desinteressada dos livros não corresponde à verdade. Basta pensarmos que Jean Genet ou Oscar Wilde estiveram presos para arrumarmos o preconceito num canto que fique a ganhar pó até que alguém o limpe e faça desaparecer de vez. Miguel Horta, pintor e animador cultural, a convite da Casa de Camilo e com o apoio da organização da «Guimarães, Capital da Cultura», criou um programa na biblioteca do Estabelecimento Prisional de Guimarães baseado n’As Memórias do Cárcere, de Camilo Castelo Branco. A obra serviu basicamente de pretexto para um número de reclusos criarem as suas próprias memórias, relacionando biografia e literatura. O projecto inclui a edição de um livro, a realização de um documentário e ainda uma curta-metragem. Miguel Horta tem experiência nestas coisas, pois há dez anos que trabalha em prisões em colaboração com o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, mas, citado num artigo de Andreia Brites na revista Blimunda da Fundação José Saramago, confessou que a experiência de Guimarães foi muito além do que é costume, em número de horas e nos resultados (entre outras coisas, descobriu um jovem recluso que tinha o 12.º ano que considera um grande poeta). Excepcionalmente, os detidos tiveram licença para visitar a Casa de Camilo e ouviram a história do escritor; um deles, que tivera ordem de libertação nesse dia, adiou a saída só para poder fazer a visita. Agora ficamos à espera destas Novas Memórias do Cárcere com muita curiosidade.

27
Jun13

Telepatia

Maria do Rosário Pedreira

É francamente louvável o trabalho dos humoristas que, na rádio, nos jornais ou na televisão, têm de construir diariamente um texto com graça e substância – uma tarefa seguramente muito difícil, mesmo que a criação se traduza apenas em meia dúzia de linhas ou quatro vinhetas com balõezinhos. Obriga decerto a uma grande atenção à actualidade, a muito tempo a ler jornais de todo o mundo, implica espírito crítico e capacidade para a sátira, enfim, não é para qualquer um. Presumo que os humoristas tenham todos traços comuns, sejam afins em muita coisa, e que o mesmo clique os desperte quando ouvem uma história. E confirmei-o no sábado passado quando lia os jornais do dia e me apercebi de que, em dois diários diferentes, os cartoons não só se referiam ao mesmo assunto, como o abordavam exactamente da mesma forma. Aparentemente, um estudo recente mostrou que a maioria dos europeus acredita que o dinheiro vai desaparecer e ser substituído por outras formas de pagamento. Pois no Diário de Notícias José Bandeira, o criador de Cravo & Ferradura, afiançava que, quanto a isso, os Portugueses estavam muito à frente dos outros europeus, já que em Portugal «o dinheiro simplesmente não aparece e pronto»; no Público, Luís Afonso, o pai dessa tira deliciosa que é Bartoon, avançava que, efectivamente, «os Portugueses […] acreditam que o dinheiro já desapareceu». Parecia, em suma, que tinha havido uma espécie de telepatia.

26
Jun13

Ídolos

Maria do Rosário Pedreira

Na semana passada, na crónica diária que escreve para o Público, Miguel Esteves Cardoso dizia estar arrependido de não ter conhecido pessoalmente um dos seus ídolos – Samuel Beckett – com quem trocara correspondência e que se oferecera numa dessas cartas para um encontro ao vivo. Não teve coragem, mas, quando soube da morte do dramaturgo, teve uma pena imensa de não ter conversado com ele – e, por isso, incentivava os leitores a não cometerem o mesmo erro se tivessem oportunidade de estar com os respectivos ídolos. Para mim, infelizmente, já não vai dar – porque o escritor que mais admiro, aquele de quem amo cada verso (William Buttler Yeats, poeta irlandês que ganhou o Nobel nos anos 1930), já não está vivo há muito tempo, na verdade morreu muito antes de eu ter sequer nascido. Mesmo assim, sei, por experiência própria, que o convite de Miguel Esteves Cardoso não é isento de riscos, tanto mais que, como editora, tive oportunidade de conhecer pessoalmente muitos autores portugueses e estrangeiros em festivais literários e, em certos casos, quase teria preferido ter-me ficado pela leitura dos seus livros, tão antipáticos eram. Em todo o caso, conheço a excitação que pode provocar estar ao lado de um «grande», seja de que área for, e nunca me conseguirei esquecer da estranha sensação que foi viajar numa carruagem de metro em Londres com Paul McCartney – toda a gente a sussurrar, a apontar, a sorrir, e eu feita parva, a jurar a pés juntos que não, não podia ele. Tenho um amigo que viajou de avião ao longo de sete horas ao lado de uma grande actriz norte-americana e cometeu o mesmo erro; quando se levantou no fim da viagem, arranjou coragem para lhe dizer que ela era mesmo parecida com… Pois, com ela própria! Quando percebeu a oportunidade que perdeu, nunca mais se refez.

25
Jun13

Matéria-prima

Maria do Rosário Pedreira

Ouvi uma vez um crítico dizer que a ficção espanhola era muito mais rica do que a portuguesa porque os portugueses em geral tinham vidas demasiado pacatas – casa-trabalho, trabalho-casa –, conversavam pouco, estavam pouco com outras pessoas, ouviam poucas histórias. Não sei se é verdade, mas é lógico que uma vida cheia (e se for de problemas, ainda melhor) pode oferecer matéria-prima inestimável para a construção de ficções várias. Estive recentemente no Instituto Cervantes para assistir a um clube de leitura sobre um livro da chilena Andrea Jeftanovic, descendente de jugoslavos (quando os avós emigraram ainda havia e haveria Jugoslávia), e, ao ouvi-la, convenci-me de que a sua família era um programa completo de ficção. Em primeiro lugar, ela contou que havia judeus, católicos e ortodoxos convivendo na mesma casa, razão pela qual tão depressa festejavam o Natal cristão como a Páscoa judaica – e isto sem nenhuns problemas. Depois, quando houve a guerra dos Balcãs, aqueles jugoslavos todos que estavam há décadas no Chile passaram, de repente, a ser uns sérvios e outros croatas e, apesar da distância a que se encontravam do cenário de guerra, zangaram-se uns com os outros e alguns, inclusivamente, deixaram de se falar. Por fim, ela, que nascera já em Santiago mas de cabelos louros e olhos azuis, era sempre vista como uma espécie de estrangeira mas também não sentia pertencer a esse país europeu desmembrado aonde nunca tinha estado. Há vidas que, efectivamente, parecem histórias…

24
Jun13

Uma ponte nunca vista

Maria do Rosário Pedreira

Mathias Énard costuma ser um escritor difícil, mas desta vez presenteou-nos com um curto romance extraordinariamente acessível que até deve ser oferecido a adolescentes, pois dele retirarão um imenso prazer. Chama-se Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes e tem como protagonista o grande escultor Miguel Ângelo, que anda zangado com o papa Júlio II por este não lhe ter pago o que lhe devia e, um pouco enraivecido com a situação, resolve aceitar um convite do sultão de Constantinopla para desenhar uma ponte sobre o Bósforo. Temente a Deus, o argumento que o convence a partir (e, mesmo assim, às escondidas) é o facto de Leonardo da Vinci ter respondido anteriormente ao mesmo convite, mas, pelos vistos, se ter saído mal, realizando o projecto de uma ponte inexequível. Já na estrondosa Istambul, o seco Miguel Ângelo conhecerá um poeta de Pristina que será o seu companheiro mais constante (e com o qual terá uma relação que, para mim, é o melhor desta novela) e uma personagem obscura (homem ou mulher, logo veremos) que foi expulsa de Granada e faz parte dos refugiados desse reino perdido. Com capítulos curtos e extrema musicalidade, o livro de Énard é uma obra de rara beleza sobre a arte, a amizade, o amor (ou a incapacidade de amar) e ainda uma ponte que ninguém chegou a ver (mas o desenho subsiste) e os pormenores que o grande escultor de Florença trouxe na memória dessa viagem e usou, aqui e ali, nas obras enormes que conhecemos. Prodigioso.

21
Jun13

Escritores no Porto

Maria do Rosário Pedreira

Como se sabe, este ano não se realizará a Feira do Livro do Porto pela primeira vez em várias décadas. O argumento de Rui Rio de que não tem porque ajudar os editores cai por terra imediatamente se pensarmos que os ajudou desde que ocupa as funções que ocupa – a menos que esteja a assumir a sua incompetência nos anos anteriores, mas não creio. De qualquer modo, os escritores existem para lá da Feira do Livro do Porto e sabem que devem à Invicta a sua participação. Assim, sob a liderança de Luís Miguel Rocha e com a especial colaboração de Manuel Jorge Marmelo, valter hugo mãe e Miguel Miranda, decidiram juntar-se e oferecer na Praça da Liberdade leituras, tertúlias e sessões várias para não frustrar o público leitor da segunda cidade do País. O grupo Não há feira, mas há escritores conta com o contributo de muitos nomes da literatura nacional, nem todos oriundos do Porto, seja de forma presencial, seja através de textos escritos para o efeito. As sessões decorrem a partir das 17h00 dos sábados 22 e 29 de Junho. E ainda existe um blogue onde os que não podem ir, mas se sentem naturalmente indignados com o vazio, escrevem o que pensam sobre a matéria. Custe o que custar ao senhor Rio, vai haver escritores no local onde se costuma realizar a feira – e estão de parabéns sobretudo os que se lembraram da iniciativa. Para eles, o meu extraordinário abraço.

20
Jun13

Professores de Tróia

Maria do Rosário Pedreira

Como os professores estão nas parangonas nos jornais, é deles que hoje falarei. Na última Feira do Livro de Lisboa, veio ter comigo uma professora de Língua Portuguesa que se apresentou, entre outras coisas, como leitora deste blogue. Disse-me que sabia que eu não tinha simpatia pelo presente Acordo Ortográfico (AO) e entregou-me meia folha A4 com um texto em que se explicava sumariamente que as escolas vivem hoje um autêntico caos linguístico, coexistindo no ensino da língua portuguesa três grafias: a do português pré-AO, a do AO e ainda outra, que é uma mistela de ambas e em que tudo parece ser permitido. Os maiores prejudicados por esta situação serão, muito naturalmente, os alunos, que aprendem uma coisa num ano e outra noutro, vêem os pais escrever de forma distinta daquela em que estão a ser ensinados e são penalizados nas notas pelos erros que muitos pais e professores não acham sequer que sejam erros. Diz ainda a nota que os professores são os Cavalos de Tróia desta operação com a qual frequentemente não concordam, vendo-se obrigados a ir contra a sua consciência. Em suma, pelo futuro dos alunos, criaram o grupo Professores contra o AO no Facebook e pedem a quem os apoie que adira em http://www.facebook.com/groups/178207905663865/ ou siga o blogue Português de Facto (http://portuguesdefacto.wordpress.com/). Se quiserem dar a vossa opinião, os professores em causa (ou pela causa), agradecem.

19
Jun13

A portuguesa

Maria do Rosário Pedreira

Falei aqui dela antes de existir e temo mesmo que tenha deixado de existir temporariamente agora, que volto a dedicar-lhe um post. Falo da Granta, essa revista que é um livro assinado por muita gente e tem já edições em várias línguas e vários países. Mais especificamente da portuguesa, dirigida por Carlos Vaz Marques e publicada com a chancela da Tinta-da-China. O número de estreia, lançado no início da Feira do Livro de Lisboa, tem o Eu como tema central e é sobre ele que discorrem muitos autores portugueses e estrangeiros. O eu, segundo o director da revista, é o ponto de partida literário por excelência. E excelente é também o primeiro texto desta revista literária, da autoria de Dulce Maria Cardoso, que se joga entre a ficção e as memórias e anda muito rente à filosofia. A fazerem-lhe companhia nas páginas que se seguem Saul Bellow, o Nobel turco Ohran Pamuk, Valter Hugo Mãe ou Hélia Correia, a par de nomes menos sonantes, como os de Valério Romão ou Ricardo Dias Felner. Há ainda outros, claro, mas a revista está aí para ser descoberta por quem gosta de ler e também das fotografias de Daniel Blaufuks, cujo «eu» se reflecte curiosamente quase sempre em coisas alheias. Dizem-me que esgotou – mas, se for verdade, espero que a reeditem em breve.

18
Jun13

Servidões

Maria do Rosário Pedreira

De cada vez que sai um novo livro de Herberto, é como se fosse o último. Quando foi publicado aqui há uns anos A Faca não Corta o Fogo, dizia-se que não haveria mais nenhum depois desse e correram muitas lágrimas, porque a edição foi pequena demais para o número de leitores interessados. Mas Herberto Helder não se esgotou, e Servidões, recentemente posto à venda, é para já o último. Para não repetirem o desgosto que sentiram nessa altura, muitos leitores amputados do livro anterior, assim que ouviram dizer que Servidões ia sair, correram às livrarias a reservar o seu exemplar. No dia em que começou a ser vendido no pavilhão da Feira do Livro de Lisboa da Assírio & Alvim, as pessoas queriam levar aos cinco e aos seis de cada vez, provavelmente satisfazendo encomendas de amigos e familiares. E tudo porque Herberto não quer fazer reedições dos seus livros e, ainda por cima, impõe uma tiragem relativamente pequena (e o editor não tem como não cumprir esta servidão). Quem arranja arranja, quem não chega a tempo, paciência. Talvez esta restrição faça, efectivamente, com que os livros desapareçam mais rapidamente das lojas e dos armazéns e não fiquem para aí a aboborar e a criar bolor desnecessariamente – uma boa ideia, portanto. Mas não será igualmente um pouco estranho que um poeta assim amado e admirado por tanta gente não queira ter mais do que x leitores, ou seja, não chegue provavelmente àquele jovem que só agora começou a gostar de poesia mas não podia fazer ideia da urgência com que tinha de comprar o livro do grande mestre ou a um leitor fiel que, por mero acaso ou falta de emprego, emigrou há pouco e vai ficar sem ele? Há também quem diga que tudo isto é uma operação de marketing e que, se o livro não estivesse condenado a uma única edição, provavelmente não desaparecia do mercado num ápice, como tem acontecido sempre. Conheço pelo menos uma pessoa que nunca leu Herberto na vida e que agora foi a correr adquirir a raridade, quiçá para a entalar numa estante. Pode ser tudo e mais alguma coisa, evidentemente. O que se me oferece dizer, apesar de tudo, é que quem conseguiu um exemplar o deve ler. Mesmo que não seja o último.

17
Jun13

Contar a várias mãos

Maria do Rosário Pedreira

Há já vários anos que o editor Carlos da Veiga Ferreira – actualmente da Teodolito, mas ao leme da Teorema durante muitos anos – faz uma joint venture com a FNAC para a edição anual de um pequeno livro de contos (que este ano assinalou o 15.º aniversário da FNAC em Portugal), vendido ao preço simbólico de 4 € e cujas receitas revertem integralmente para a AMI. O Prazer da Leitura, assim se chama a pequena colectânea, é um livro quadrado de capa dura lançado quase sempre por ocasião do Dia Mundial do Livro, e pelas suas páginas já passaram muitos nomes de escritores. Mas há sempre autores que o editor descobre que ainda não convidou e, desta feita, salta à vista na capa o grande J. Rentes de Carvalho (que é, de resto, um talentoso contista) ao lado de três respeitáveis jornalistas – o também poeta Pedro Mexia, o também romancista Francisco Duarte Mangas e a também crítica literária Dóris Graça Dias – e ainda do ficcionista Sandro William Junqueira, de que aqui já falei a propósito do livro Um Piano para Cavalos Altos. A proposta é bastante variada e promete leituras para todos os gostos. E sempre se ajuda uma boa causa.

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