Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

03
Jul13

Balzac para totós

Maria do Rosário Pedreira

Uma noite destas apanhei, num canal qualquer, completamente por acaso, uma adaptação cinematográfica de Os Miseráveis, com Uma Thurman, Liam Neeson e Geoffrey Rush, que fiquei a ver (e era bastante mazinha, por sinal). Mas isso lembrou-me um livro genial que foi publicado em Portugal há muitos anos, Balzac e a Costureirinha Chinesa, de Dai Sijie (um chinês residente em França que escreve em francês), que deve ser muito difícil de encontrar nos tempos que correm mas que merecia seriamente ser republicado. Conta os destinos de dois adolescentes chineses durante a Revolução Cultural (tempos de Mao – e maus, portanto) que são «castigados» pelas suas origens intelectuais (filhos de médicos e engenheiros) e enviados para o interior da China para trabalharem no campo. Aí conhecem, porém, uma jovem costureirinha de alfaiate muito atraente mas quase analfabeta que resolvem ensinar a ler. E como? Nada mais, nada menos do que com a ajuda de um monte de livros de Honoré de Balzac que descobrem por acaso (e nunca o revelam a ninguém) numa velha arca de uma casa abandonada. Os dois rapazes cultos apaixonam-se pela discípula e hão-de disputá-la com o chamariz da literatura. Ignoram, porém, que, no momento em que ela se tornar igualmente ilustrada, decidirá pela sua própria cabeça… Parece que fizeram um filme deste livro delicioso, mas não o vi, embora ele tenha sido mostrado no Instituto Franco-Português há uns dois anos. Tomara que não seja tão mau com a adaptação d’Os Miseráveis que vi a semana passada…

02
Jul13

Ilustradores portugueses em alta

Maria do Rosário Pedreira

No ano passado, como sabem, foi publicado um livro infantil na Dom Quixote para o qual escrevi o texto. Tratava-se de A Minha Primeira Amália, uma biografia sumária da grande fadista portuguesa, figura de proa nacional. Na altura em que o convite para escrever o livro me foi feito, pediram-me uma sugestão para o autor das ilustrações e, com a imagem da capa do primeiro CD dos Deolinda na cabeça, propus que o livrinho fosse ilustrado por João Fazenda, cujo trabalho admiro há muito. Pois bem: e não é que acertei na mouche? As ilustrações desta introdução à vida de Amália para crianças foram muito justamente premiadas com a medalha de bronze pela revista norte-americana 3 x 3, considerada a mais importante publicação internacional dedicada à ilustração contemporânea. João Fazenda ganhou a medalha na categoria Livro, mas não foi o único português distinguido. Na categoria Animação, André da Loba ganhou a medalha de ouro e houve ainda cinco distinções para André Carrilho, que é um génio na caricatura e recebeu prémios nas categorias de Animação, Cartoon/BD, Editorial e Retratos. A ilustração portuguesa está de parabéns!

01
Jul13

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Já não sei se foi García Márquez se Vargas Llosa quem disse que Juan Carlos Onetti foi prejudicado por ter nascido no Uruguai, um país a que se prestava pouca atenção, sobretudo em termos culturais. Segundo um desses dois autores, Onetti foi um dos maiores da literatura latino-americana e teria merecido ser mais conhecido, aplaudido e premiado internacionalmente, sobretudo enquanto foi vivo. Um dos livros que comprei este ano na Feira do Livro de Lisboa foi justamente Os Adeuses, de Onetti, e acabei-o ontem. A história é a de um ex-jogador de basquetebol famoso que chega a uma terra de bons ares para se curar de uma tuberculose. O seu estatuto (ou a sua recusa em admitir a doença) permite-lhe ficar ao longo de meses num hotel – e não no sanatório – e alugar até uma pequena casa (a casita das portuguesas, curiosamente) e deslocar-se pela cidade de fato elegante, visitando frequentemente a venda (cujo proprietário é o narrador), onde recolhe a sua correspondência: cartas com letra azul e desenhada da suposta mulher, cartas dactilografadas em envelopes pardos da suposta amante. Estas duas mulheres visitá-lo-ão na sua convalescença, a mais velha permanecendo no hotel, a mais nova na casa alugada. As más-línguas terão, pois, com que se entreter – e é especialmente pela voz de um enfermeiro do hospital e de uma criada do hotel que o narrador toma conhecimento das andanças e do estado de saúde do protagonista, embora o seu sentido de observação seja já bastante apurado e não precise de grande ajuda. E, no entanto, apesar dos cuidados que o jogador parece pôr naquelas visitas femininas alternadas, não é impossível que elas coincidam e, claro, tudo pode acontecer. Uma escrita sublime, um enredo fascinante, uma espécie de tristeza que subjaz a cada frase, fazem desta novela uma das melhores que li nos últimos tempos. A tradução é de Hélia Correia.

Pág. 3/3