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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

31
Out13

A fome e a vontade de comer

Maria do Rosário Pedreira

Aprendi em variadíssimos livros que fui lendo ao longo da vida – entre outros, para não ser exaustiva, A Música da Fome, de Le Clézio, Tudo O Que Eu Tenho Trago Comigo, de Herta Müller, Se Isto É Um Homem, de Primo Levi, ou o que ando agora a ler e de que amanhã falarei – que situações de fome ou extrema carência tornam as pessoas agressivas, insensíveis, capazes de actos de maldade que não cometeriam se se encontrassem confortáveis e bem alimentadas. (No livro de Herta Müller que citei, a forma como os «normais» roubam descaradamente o pão de uma deficiente no campo de trabalho onde estão internados é um bom exemplo deste horror.) E falo do assunto porque tenho observado recentemente um crescendo de ódio, insultos, ataques e garras afiadas nos jornais e nas redes sociais, sendo normalmente as vítimas dessa agressividade os que têm conseguido sobressair da massa anónima e, em suma, obter algum sucesso. Já me disseram muitas vezes que a inveja é uma característica dos Portugueses, mas pergunto-me se não será também a extrema carência em que vivem hoje tantos nossos compatriotas, com trabalho precário ou sem ele, com uma ausência completa de estímulos e de dinheiro, que os leva a fazer publicamente afirmações tão incrivelmente despudoradas como uma que li no Facebook há tempos, em que um crítico que dizia bem de certo livro era acusado de estar a tentar ter sexo com o autor da obra. Um amigo com quem comentei a situação disse-me que há por aí muita gente que deixou de poder pagar as sessões de psicoterapia – e que a automedicação nunca dá grandes resultados. Gostaria de acreditar que, se quem manda neste país tratasse melhor as suas pessoas, não haveria tanta maldade disseminada por aí. Mas também já estive mais longe de perder a fé nas pessoas que juntam à fome a vontade de comer.

30
Out13

Palavras feias

Maria do Rosário Pedreira

Os espanhóis usam e abusam do calão no dia-a-dia e tornaram-se bastante desbocados. Também os norte-americanos largam um «fuck» a propósito de tudo e de nada sem que isso escandalize já ninguém. Os jovens portugueses tem constantemente um «Fogo!» a arder na boca – e sabemos que é um eufemismo, que o que têm na cabeça é a tradução do fuck que se diz do lado de lá do Atlântico. E, mesmo assim, um dia destes, um crítico literário mostrava-se chocado com o número de palavrões que encontrou num romance e já há uns anos me contaram que um dos jurados de um prémio literário não conseguiu avançar na leitura de uma das obras finalistas por causa do calão do primeiro capítulo; presumo que seria jornalista, crítico, académico ou escritor (quem mais é jurado de um prémio literário?) – e, nessa medida, atrevo-me a dizer que Philip Roth e as suas muitas – perdoem-me – «punhetas» não lhe agradariam (o que é grave, porque não se deixa de ler um livro só por causa das palavras feias). Na minha adolescência, a minha mãe estava sempre a dizer que as raparigas não deviam dizer «gajo», que era uma palavra considerada então exclusivamente para uso masculino. E, no entanto, a verdade é que, quando penso nesta maltosa que nos governa, «homens» ou «tipos» me parecem palavras demasiado brandas. «Gajos» fica-lhes decididamente melhor. Há palavras feias, na vida e nos livros, que têm de ser ditas.

29
Out13

Prémios para todos

Maria do Rosário Pedreira

Recentemente, li um muito bem pensado artigo de Hélder Macedo no Jornal de Letras a propósito de prémios literários. Dizia o romancista e professor no King’s College de Londres que se tornou banal a prática do «toma lá, dá cá» e que estatísticas com cerca de dois anos mostravam que certo autor integrara cerca de 80 júris e recebera uns vinte prémios, o que possivelmente queria dizer que nos anos em que não fora jurado fora premiado. Esta sede de ganhar, segundo o autor do artigo, prendia-se também com o facto de em Portugal o mercado ser pequeno e não se poder viver apenas da escrita, procurando-se uma fonte de receitas suplementar nestes concursos literários (o que também explica porque alguns poetas têm livros novos todos os anos – os direitos de autor das edições de poesia são manifestamente reduzidos, mas o valor de um prémio, e há muitos, pode compensar essa pequena quantia). No entanto, Hélder Macedo propõe que os prémios literários sirvam sobretudo de incentivo aos escritores mais jovens – e, a este respeito, refere que os finalistas do Booker Prize deste ano incluíam apenas um escritor conhecido entre seis. A prática não é realmente muito comum em Portugal, onde durante dezenas de anos ganharam quase sempre os mesmos escritores; mas, olhando para listas de finalistas de há um ano a esta parte, nas quais figuram nomes como os de Afonso Cruz ou Ana Cristina Silva, acredito que as coisas estejam a mudar. E não me parece que esses autores tenham feito, eles próprios, parte de nenhum «toma lá-dá cá».

28
Out13

Gigantes em xeque

Maria do Rosário Pedreira

A Feira Internacional do Livro de Frankfurt é o mais importante certame do mundo em torno do livro e da edição (e um dos mais antigos também). Neste ano, o discurso inaugural do director da feira, Juergen Boos, e as declarações do presidente da Associação de Editores e Livreiros da Alemanha, Gottfried Honnefelde, revelaram grande preocupação com o que circula actualmente na rede, dizendo que os que a governam não se interessam minimamente pelo rigor e pela qualidade dos conteúdos; puseram o dedo na ferida da Apple, da Amazon e da Google, chamando-lhes «mágicos da logística», mas não editores, e considerando inclusivamente «reaccionário» que mostrem aos leitores aquilo de que eles gostam, recomendando-lhes livros a partir das pesquisas e das compras anteriores e retirando-lhes capacidade de escolha e reflexão individual. E alertaram para o facto de empresas como a Amazon e a Google quase terem acabado com a concorrência, sublinhando a importância de novas empresas que apresentam formas originais e dignas de atrair leitores – as start-ups – a que esta feira é especialmente dedicada. Claro que todos sabemos que a leitura está a mudar e que as novas tecnologias contribuem largamente para um novo paradigma que ainda não sabemos bem o que será. Mas nos últimos tempos descobrimos muitos dos livros que publicámos pirateados e à venda na Google Books em versão integral quando a edição em papel mal acabara de ser distribuída. O nosso advogado tratou do assunto, bem entendido, mas já aconteceu retirarem o livro da página e ele reaparecer mais tarde como se nada fosse. Enfim, pôr em xeque os gigantes no maior acontecimento anual à roda do livro pode ser que produza algum efeito nesta e noutras matérias.

25
Out13

A alegria de estudar

Maria do Rosário Pedreira

Muitas crianças adoram a escola, o primeiro lugar onde estão oficialmente para aprender e estudar, mas onde, evidentemente, também brincam e arranjam amigos. Entre os adolescentes, já há muitos que vêem a escola como uma verdadeira seca e uma obrigação a que gostariam de furtar-se. Podem agora estes últimos reflectir melhor no assunto e tomar como exemplo a pequena paquistanesa Malala Yousafzai, que levou não menos de dois tiros na cabeça dos talibãs por confessar sem medo, alto e bom som, que queria estudar num país onde não é suposto as raparigas irem à escola. Os dois tiros, porém, não chegaram para a matar e, tratada num hospital em Inglaterra, sobreviveu à calamidade e recuperou com vigor. A sua coragem valeu-lhe o Prémio Anna Politskovaya e o Prémio Sakharov do Parlamento Europeu – e houve muita gente que estava convencida de que o Nobel da Paz lhe seria igualmente entregue. Não foi, mas Malala recebeu o prémio que mais ambicionava: voltou à escola. Uma história terrível que acabou bem, quiçá para contar a meninos que fazem fitas para ir à escola.

24
Out13

Aprender a ser feliz

Maria do Rosário Pedreira

Publiquei em finais de Agosto o terceiro romance de David Machado, com o sugestivo título Índice Médio de Felicidade. É um livro sobre um homem em crise, Daniel, que, de um momento para o outro, se vê desempregado e longe da família, impossibilitado de pagar a prestação da casa e de cumprir um plano que traçou desde sempre para a sua vida. Mas é também um romance sobre a crise que assola Portugal, a Europa e o mundo e que tem atirado tanta gente para situações insustentáveis. Daniel não quer, porém, acreditar que, mesmo diante de tantas contrariedades, a sua felicidade e a daqueles que ama não pode ser alcançada e luta desenfreadamente por ela, levando o leitor a reflectir melhor sobre os factores que realmente contribuem para a construção de uma vida feliz. Hoje, pelas 18h00, na FNAC do Chiado, quem quiser terá oportunidade de trocar impressões com o autor a propósito deste romance que tem sido aplaudido unanimemente pela crítica. E ter o seu autógrafo, claro. A jornalista Paula Moura Pinheiro junta-se a nós para dizer também de sua justiça. Estamos à sua espera para tornar mais viva a discussão.

 

23
Out13

Abstenção

Maria do Rosário Pedreira

Rui Zink publicou recentemente um artigo de opinião no jornal Público sobre a falta de crença de muitos jovens na democracia, jovens que, por isso, não iam às urnas (e que ele, como bom democrata, aconselhava logicamente a mudar de atitude). Não creio, mesmo assim, que a falta de fé na democracia seja a única causa da abstenção entre os jovens. Um dia destes, na FNAC do Chiado, estávamos em vésperas de eleições autárquicas, o Manel ouviu uma conversa entre dois rapazes que reproduzo aqui:

– Ó pá, tu amanhã vais votar?

– Eu? Não, não tenho pachorra. E tu?

– Eu tenho de ir, a minha mãe obriga-me.

– Obriga-te como?

– Ela é funcionária pública e quer que eu vá votar num tipo qualquer que é bom para ela.

– Ah, mas então porque é que não votas por SMS?

– Acho que não se pode.

– Hum... Que seca, pá.

Não vejo bem, em primeiro lugar, como é que um voto nas autárquicas interfere com decisões sobre leis que possam beneficiar ou defender funcionários públicos, mas nem é isso que está em causa. O ir votar para estes jovens tem peso de coisa chata – e o pior é que estão num espaço cultural, pelo que era de esperar que tivessem um pouco mais de informação e, sobretudo, de sentido crítico e vontade de mudança. Enfim, quantos casos destes haverá que vão fazer crescer eternamente os números da abstenção?

22
Out13

História de uma traição

Maria do Rosário Pedreira

Hoje ao fim da tarde realizar-se-á o lançamento público de A Segunda Morte de Anna Karénina, de Ana Cristina Silva, autora que foi recentemente brindada com o Prémio Urbano Tavares Rodrigues, para professores-escritores, pelo romance anterior, O Rei do Monte Brasil, publicado na mesma colecção. O novo livro reflecte sobre três questões interessantes – o preconceito em relação aos homossexuais na época da Primeira Guerra Mundial; a traição no casamento, que acaba por gerar uma vingança precipitada ao jeito do que acontece no último filme de Woody Allen (ou seja, com custos muito altos tanto para o traidor como para a traída); e, por fim, a impossibilidade de destrinçar a verdade nas palavras de um actor – pois este amor vivido até aos limites tem por protagonista um casal de actores de grande sucesso nos palcos dos teatros portugueses do princípio do século XX. É, aliás, por ter esta vertente que foi escolhida para apresentar o romance a actriz Maria João Luís – e vamos lá ver o que vai ela dizer a propósito de tudo isto. Se quiser, apareça para o saber em primeira mão.

 

21
Out13

Estranhezas

Maria do Rosário Pedreira

Um fim-de-semana destes, o caderno «Actual» do Expresso dedicava várias páginas aos escritores portugueses que, segundo determinados críticos e jornalistas que ali escrevem regularmente, estavam subvalorizados e sobrevalorizados. Não discuto a ideia, tão boa ou má como outra qualquer mas perfeitamente legítima num país livre, embora eu não creia que os leitores deixem de ler os apontados como sobrevalorizados se já gostarem deles nem comecem a ler os subvalorizados só por alguém dizer que lhes deviam prestar mais atenção (sobretudo se não encontrarem os seus livros à venda, o que tenho a certeza acontece no caso de Alexandre Andrade). O que é, de algum modo, um pouco estranho é que se considere sobrevalorizado e com «livros intragáveis» (assim mesmo) um autor a quem o próprio Expresso dedicou três páginas inteirinhas numa edição anterior (Valter Hugo Mãe); e que se considere sobrevalorizado Fernando Pessoa (pois foi), que é justamente o patrono do prémio que o jornal Expresso atribui todos os anos a alguém que considera excepcional numa qualquer área de conhecimento. E, quanto ao facto de um dos críticos dizer que a revista Ler faz lobby, não pude deixar de notar que nela escrevem dois dos outros críticos chamados a dar opinião umas linhas acima. Estranhezas à parte, não sei se devemos subvalorizar ou sobrevalorizar o dito artigo. Mas lá que deu polémica, deu.

18
Out13

Um livro e uma cabana

Maria do Rosário Pedreira

A Madalena, que está sempre atenta a tudo e mais alguma coisa (e ainda bem que tenho uma pessoa assim a trabalhar comigo, que eu, com a idade, já só dou conta de metade), falou-me de um projecto bem interessante associado ao programa da Trienal de Arquitectura de Lisboa. Todos sabem que eu não sou uma fã incondicional de instalações, mas esta tem tudo a ver com este blogue, e já vão ver porquê. Um, dois e muitos, de Marta Wengorovius, é uma cabana de madeira muito bonita que está no Jardim Botânico (à Rua da Escola Politécnica), perfeitamente integrada na paisagem. E para que serve? Pois bem, para ler! A cabana tem apenas uma estante e lugar (bem amplo) para um leitor se sentar ou deitar – e pode ser reservada por algumas horas, ou até um dia inteiro, até ao dia 15 de Dezembro, por quem queira ir ler lá para dentro, olhando a magnífica paisagem do Jardim Botânico pela porta. Os interessados poderão, por exemplo, levar o livro que andam a ler ou escolher um dos da Biblioteca Um, dois e muitos – porque Marta Wengorovius pediu a 20 pessoas que seleccionassem títulos, reunindo um acervo de 60 volumes na estante da cabana. Esta é também uma biblioteca itinerante, porque a cabina (enfim, a instalação), cuja estrutura foi desenhada por Francisco Aires Mateus, já esteve noutros lados e pode andar por aí. Um lugar lindo para ler. Ora dêem uma espreitadela.

 

http://www.dezeen.com/2013/09/21/reading-cabin-by-marta-wengorovius/

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