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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Out13

O perigo de ler

Maria do Rosário Pedreira

Há alguns anos ofereceram-me um belíssimo livro ilustrado que se chamava As Mulheres Que Lêem São Perigosas. Não era, embora possa parecer, um manifesto machista contra a leitura praticada por membros do sexo feminino, mas tão-só um excelente apanhado de pinturas representando mulheres a lerem nos mais variados contextos e épocas. Um dia destes, porém, mandaram-me uma notícia bem estranha (com vídeo incluído, embora de muito má qualidade porque gravado por um telemóvel) que me fez recordar o título deste livro; dizia que uma passageira de uma companhia aérea de baixo custo tinha sido expulsa de um avião por querer levar consigo um livro. Ora, nestas companhias, só se pode mesmo levar uma mala – e a rapariga, ao que parece, tinha um saco com um cartaz e um livro e não queria que aquelas duas coisas fossem para o porão: a primeira, imagino, porque se amachucaria, a segunda – o livro – porque pretendia ler durante o voo. Pois a verdade é que acedeu a pagar 50 Euros de excesso de bagagem (o livro devia ser mesmo bom), mas o cartão de crédito não funcionou e o pessoal de bordo recusou-se a tê-la na cabina com o saco. E, como ela se terá recusado a partir sem ele, foi simplesmente expulsa do avião… Talvez as mulheres que lêem sejam perigosas e tragam bombas dentro dos livros para accionar a bordo.

O link vai abaixo. Vale o que vale.

 

http://www.estandarte.com/noticias/varios/viajera-expulsada-de-un-avion-de-ryanair-por-llevar-libro-y-poster_2032.html

16
Out13

Arquivo

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui elogiei – mas nunca será demais fazê-lo – a Livraria Arquivo, em Leiria, e o profissionalismo e simpatia dos que ali trabalham há muitos anos (mais do que todos, Paula Carvalho), tornando as nossas visitas leves (porque, quando é para lá, a viagem nem custa), divertidas (porque o público é muito bem-disposto e nos faz sentir em família) e produtivas (porque se fala sempre de questões interessantes e não há nada melhor do que trocar ideias). Pois hoje esfrego de novo as mãos, já que amanhã volto lá, agora com a companhia de três dos meus autores: Ana Margarida de Carvalho, que se estreou em 2013 com o romance Que Importa a Fúria do Mar; Francisco Camacho, que depois de Niassa (vencedor do PEN para Primeira Obra em 2008) nos trouxe em Maio A Última Canção da Noite; e, por fim, David Machado, que escreveu Índice Médio de Felicidade, publicado há cerca de um mês. Este último escritor é o único dos três que já foi à Arquivo por ocasião da publicação de Deixem Falar as Pedras, mas estou mais do que certa de que os outros dois adorarão a sessão e também vão querer ser repetentes. Eu cá estou mortinha por lá chegar e rever os amigos.

 

15
Out13

Inglesices

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há tempos escrevi um post sobre a forma como o inglês se tem metido na nossa língua – e volto ao tema porque o inglês não tem saído das páginas dos jornais. Depois de se ter decidido há uns anos que as crianças deviam aprendê-lo na escola primária, porque era a língua do mundo e quanto mais cedo convivessem com ela melhor (dizem-me alguns pais que os filhos não foram muito além da aprendizagem das cores, dos números até dez e dos nomes de meia dúzia de animais – mas pode não ter sido assim em todas as escolas), de repente já não é preciso para nada e a escola que decida se quer ou não continuar a ensiná-lo aos alunos mais novos. Não me parece grave, devo dizer, que se espere pelos dez anos para começar a aprender outra língua, até porque nesses primeiros quatro anos é bastante mais importante que se aprenda a própria como deve ser e, se calhar, mantendo as duas, a materna ficará a perder. O que me custa entender é que, se o Inglês afinal não tem essa importância desmedida que lhe quiseram dar, seja subitamente objecto de exame obrigatório no nono ano, tal como a Matemática e o Português, duas disciplinas presentes desde a primeira hora da escolaridade. Em que ficamos? Só espero que não se lembrem de cobrar as aulas de Inglês aos alunos da primária como actividade extracurricular, pesando ainda mais no orçamento das famílias. Com o aviso de que o exame vai ser «abençoado» por Cambridge, alguns pais não vão querer correr o risco de não pagar…

14
Out13

História de uma paixão

Maria do Rosário Pedreira

Quase todos (se não todos) os escritores são leitores desde muito jovens – e é a leitura que acaba por levá-los provavelmente à escrita. Mas nem todos serão bibliófilos como o britânico Julian Barnes, de quem li recentemente um delicioso opúsculo que parte de um artigo publicado no jornal The Guardian no ano passado e chamado My Life as a Bibliophile. Nele, o autor conta que beneficiou claramente de não ter televisão em casa nos primeiros dez anos de vida e de ter sido criado por pais (e avós) professores que tinham bibliotecas respeitáveis, embora confesse que estas não o excitavam por aí além e que foi o despertar do sexo que o levou a investigar com mais atenção as prateleiras (assim lendo o Satyricon, de Petrónio, aos onze anos, que era o livro mais escaldante que havia nas estantes). A partir de então, tornou-se um leitor feroz, um coleccionador de primeiras edições e um consumista de obras literárias – um bibliómano, como nos diz –, frequentando pequenas livrarias de bairro e alfarrabistas e gastando mais de metade dos seus rendimentos mensais em livros e colecções. Hoje, tantos milhares de livros depois, não gosta muito de e-books, confessa – acha que cada livro em papel tem um toque e um cheiro específicos e que os livros electrónicos cheiram todos ao mesmo (a nada). Conclui que ler é uma capacidade que quase todos têm, mas uma arte para poucos: sempre houve não-leitores, leitores preguiçosos e maus leitores – e continuará a haver. Espero é que os bons leitores como Barnes também se mantenham por muito tempo.

11
Out13

Professor-escritor

Maria do Rosário Pedreira

Os professores – já se sabe – têm uma vida difícil e raramente são premiados (excepto quando os alunos são dedicados e trabalhadores,  o que, digo eu, deve ser o melhor prémio de todos). Porém, há professores que acumulam o ensino com a escrita – e a FENPROF decidiu criar há meses o Prémio de Novela e Romance Urbano Tavares Rodrigues para distinguir obras literárias escritas por professores de todos os graus de ensino que estejam no activo, homenageando – e muito bem – a figura do escritor recentemente desaparecido que, além de professor e de ser um nome decisivo das nossas letras, era uma pessoa invulgarmente generosa e atenta a tudo o que se ia escrevendo no País. Pois amanhã este prémio irá para uma autora minha – e não podia deixar de partilhar a minha alegria convosco nestas Horas Extraordinárias. O livro chama-se O Rei do Monte Brasil, assina-o Ana Cristina Silva, professora no ISPA, e é um romance psicológico que põe em confronto duas figuras históricas: Gungunhana e Mouzinho de Albuquerque. Essa mesma obra é também finalista do Prémio Literário Fernando Namora, da Sociedade Estoril-Sol, cujo vencedor será conhecido amanhã. Parabéns, querida autora!

 

10
Out13

O livro da paisagem

Maria do Rosário Pedreira

Valter Hugo Mãe acaba de publicar um novo romance intitulado A Desumanização. Achei a capa muito feia e desajustada para um livro tão avassaladoramente poético (quiçá fosse mais apropriada uma capa deste tipo para O Filho de Mil Homens, o romance anterior), mas o autor costuma decidir esteticamente sobre a matéria e presumo que a ideia terá sido dele. Não sei se os fãs mais recentes de Valter Hugo Mãe, os que o começaram a ler com A Máquina de Fazer Espanhóis, vão engraçar com este livro, porque o humor que costuma temperar a tragédia está ausente desta vez e, sem ele, nem todos os estômagos vão aguentar a digestão. Mas é seguramente a obra do autor em que a linguagem se sobrepõe mais claramente à estrutura e ao enredo (e quantas frases seria possível copiarmos para um caderno como das mais belas de sempre?) e a paisagem – os fiordes islandeses – impera sobre as personagens. Livro de homenagem confessada à Islândia, preparem-se os que ainda não o leram para a tristeza de uma vida – uma adolescente que, além de perder a irmã gémea, convive com uma espécie de culpa pela sua morte, seja porque ela a afasta da mãe que não supera o desgosto e parece castigar por ele a filha que sobrevive, seja porque, sem o seu «espelho», a rapariga toma atitudes que sabe seriam censuradas pela irmã desparecida. Cruel e místico a um tempo, este é um livro para ver o abismo através das palavras e tem dentro quase todos os livros que Valter Hugo Mãe publicou até hoje, já que muitas figuras remetem, ainda que sem querer, para as de outros romances, sobretudo os dois primeiros, e para alguns poemas.

09
Out13

Paternalismo

Maria do Rosário Pedreira

Já não sei quem dizia que não existe maior despotismo do que o paternalismo excessivo. Não tenho a certeza, mas uma das críticas que mais teci ao sistema de ensino quando fui professora foi a incapacidade de autonomizar os alunos, tratando-os com exagerado paternalismo e proteccionismo, por vezes até como se não fossem capazes de pensar pelas próprias cabeças e os professores tivessem de lhes dar a papa toda feita. Na altura, lembro-me de que o programa de Português incluía umas quantas aulas sobre banda desenhada e que fazia parte da matéria explicar o que era um balão de fala e um balão de pensamento, como se os miúdos não estivessem fartinhos de o saber… Um dia destes, chegou-me a notícia de que saíra um livro sobre O Principezinho explicado às crianças (acho que de duas professoras) e, mesmo não conhecendo o seu conteúdo, fiquei um bocado indignada. O Principezinho, de Saint-Exupéry, não é propriamente linear, mas explicá-lo às crianças não será contraproducente? Eu li-o em miúda e não me incomodou a sua complexidade; o que não entendi na altura entendi mais tarde, porque a ele voltei muitas vezes com várias idades. Era mesmo preciso um guia do aluno para este livrinho com setenta anos como aqueles que eu comprava na universidade para perceber melhor a poesia de Dylan Thomas ou Gerard Manley Hopkins? Não creio. Deixar os miúdos raciocinar sobre o que lêem parece-me estar a passar de moda, e isso – sim – é grave.

08
Out13

Mandamentos

Maria do Rosário Pedreira

Ao fim de muitos anos a trabalhar num gabinete independente – os primeiros dez –, puseram-me numa sala com a minha equipa; foi muito difícil adaptar-me, confesso, sobretudo por causa dos telefonemas, pois não consigo concentrar-me na leitura quando as pessoas conversam ao meu lado. De há três anos para cá, recuperei felizmente a minha privacidade e, embora quase nunca feche a porta, sinto-me melhor assim. A mesma sorte não tem, porém, a minha querida assistente (que uma vez ou outra tem de ir ler para uma sala de reuniões por causa do barulho) nem as assistentes dos outros editores, que trabalham todas juntas em open space; e, talvez para mitigarem as suas dificuldades, resolveram escrever alguns mandamentos do assistente editorial que espalharam alegremente pelas paredes e colunas que as rodeiam. Entre essas folhas de papel, encontrei, contudo, um dia destes uma misteriosa frase que dizia: «O mal aglutina, o bem hifeniza.» Tardei a compreender que aquilo não passava de um lembrete de uma regra gramatical para alturas em que se dedicassem à revisão. Deve escrever-se «bem-disposto», com hífen, mas «maldisposto», tudo num só vocábulo. Mas, até chegar a essa conclusão, ocorreu-me que, efectivamente, quando há maledicência todos se juntam para atear a fogueira (o Facebook é um bom exemplo disso) , enquanto para elogiar nem sempre. Não era um mandamento nem uma constatação, mas parecia.

07
Out13

As cidades escritas

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui falei ao de leve neste livro quando ele saiu, mas só nas férias pude lê-lo de fio a pavio e observar, com a devida atenção, as fotografias e ilustrações que o compõem. Chama-se Contos Capitais e, como o título indica, inclui contos que tomam como ponto de partida cidades capitais de todo o mundo. Mas, se nuns casos, poucos, a capital serve apenas de cenário a uma história que podia quiçá passar-se noutro lado, a verdade é que noutros a cidade é quase a protagonista da história (como, por exemplo, Sarajevo, de Valério Romão, ou Roma, do nosso querido Urbano Tavares Rodrigues, que nos traz um caso de amor em que a mulher só podia ser italiana). Interessante também é que a própria colectânea sirva de tema ao autor do conto sobre Buenos Aires, Miguel Real, que começa justamente a sua narrativa pelo convite do editor para que escrevesse sobre uma capital. O leque de estilos e abordagens, de gente com idades e olhares muito diferentes, torna este volume muito atraente e equilibrado. Para quem gosta de contos, esta é uma obra a não perder.

04
Out13

O editor em extinção

Maria do Rosário Pedreira

Durante muitos anos, os países – sobretudo os que tinham vivido ditaduras e uma situação de analfabetismo prolongada – queixavam-se de que as pessoas liam pouco (ou, pelo menos, que poucas pessoas liam). Agora, é mais comum ouvir-se dizer que há muito mais gente a ler, mas que a maioria lê «mal», não necessariamente por não dominar a capacidade de leitura, mas por escolher maus livros, que em nada contribuem para o crescimento intelectual e a formação do indivíduo. Faço aqui um mea culpa em nome da classe e digo que os editores (sobretudo aqueles que não cumpriam ordens e podiam fazer de outro modo) tiveram aqui uma grande responsabilidade, pois, em lugar de publicarem obras que pudessem fazer dos leitores gente mais informada e culta, deram-lhes papa de entretenimento feita com ingredientes de segunda e assinada por gente analfabeta com carinhas larocas e conhecidas, aspirando, mais do que tudo, às receitas e ao lucro. Sinto que cada vez mais é assim – que isto se tornou um vício – e que todos os anos a literatura perde vendas para as chachadas ditas comerciais. O mesmo em todo o mundo, sublinhe-se, tendo eu sabido recentemente que o grande editor alemão Michael Krüger, no activo desde 1968, decidiu retirar-se e ir para casa, alegando que já não faz falta, pois as pessoas gostam sobretudo de livros maus. O editor é uma espécie ameaçada.