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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

03
Out13

Longe de casa

Maria do Rosário Pedreira

Toda a vida ouvi dizer que uma boa instrução primária era meio caminho andado para o sucesso escolar nos níveis seguintes. Nos poucos anos em que fui professora, tive uma turma excelente que tinha vindo toda junta da então quarta classe e lamento agora não me lembrar do nome da professora que acompanhara esses alunos, pois ela merecia que a felicitasse aqui publicamente. Há umas duas semanas vi, num Telejornal, uma reportagem sobre quatro professoras do ensino básico que, por fecho de escolas e aumento do número de alunos por turma na sua área de residência – julgo que em Montalegre, Trás-os-Montes –, perderam o lugar que tinham e fazem agora 570 quilómetros todos os dias até à nova escola, revezando-se a conduzir o automóvel e dividindo os gastos com a gasolina. Acordam certamente às quatro da manhã, pois as aulas começam às nove, e têm filhos pequenos que não podem acordar nem levar ao infantário. Quando regressam, só podem dar-lhes o jantar e metê-los na cama, antes de caírem também elas no sono, obviamente exaustas e sem força para mais nada. Se fossem solteiras, talvez considerassem a mudança de casa para o local de trabalho, mas, com as vidas arranjadas há muito, não vêem outra hipótese senão a longa viagem multiplicada por duas (ida e volta). Pergunto-me se estas senhoras conseguirão, nas circunstâncias descritas, ser boas professoras e ter paciência para um ror de crianças barulhentas. Uma delas disse até que estava até a pensar deixar o ensino e fazer outra coisa – e interrogo-me também se não é isto mesmo que querem que faça, com tanto professor à espera de colocação… Os miúdos ainda hão-de pagar a factura destas deslocações. Com IVA, claro.

02
Out13

Ler em grupo

Maria do Rosário Pedreira

Dizem que a psicoterapia de grupo funciona muito bem porque os pacientes ficam aliviados ao perceberem que não são os únicos que enfrentam certo tipo de frustrações e problemas e isso acaba por levá-los a relativizá-los. Acredito, por isso, que as comunidades de leitores possam ter igual sucesso pela partilha e pelas afinidades entre leitores, além de que um orientador ajuda muito a esclarecer algumas questões que, por vezes, se nos colocam durante a leitura de um livro. Se lhe apetece «ler em grupo», estão abertas as inscrições para uma nova comunidade de leitores dinamizada por Luís Ricardo Duarte, um jovem jornalista do Jornal de Letras que acho muito sóbrio, culto e inteligente (e, ainda por cima, com um sorriso bem simpático). As sessões realizar-se-ão em duas livrarias – a Buchholz e a Barata – entre os dias 2 de Outubro e 18 de Dezembro, às 18h30, e incluirão livros que procurarão acompanhar a actualidade literária nacional. O preço de 30 Euros para seis sessões pode parecer muito dinheiro, mas a verdade é que os inscritos receberão um vale de 15 Euros para gastar em livros e, desse modo, serão compensados em 50% do investimento (se gostarem do livro que adquirirem, digo eu). Mais informações no link abaixo.

 

http://leyaemgrupo.blogspot.pt/

 

01
Out13

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Reparo que o irlandês Colm Tóibin está de novo entre os finalistas do Booker Prize em 2013 (a anunciar no dia 15) com um livro já publicado em Portugal (O Testamento de Maria, que ainda não li). Gosto, em geral, do que vem da Irlanda, sobretudo livros e filmes, e deste autor leio agora um outro romance que também chegou à final do Booker há vários anos chamado O Navio-Farol de Blackwater. Nele encontramos belas personagens – desde logo, Helen, a protagonista, que se tornou adulta precocemente com tudo o que envolveu a morte do pai, sobretudo o silêncio da mãe (outra personagem de respeito), até porque sentiu que deveria proteger o irmão mais novo que, quando a narrativa se inicia, muitos anos mais tarde, está internado com SIDA num hospital e lhe pede que informe a família. Muito interessante este regresso ao passado, às memórias na casa da avó nesses meses em que o pai agonizava longe deles e a mãe parecia ignorar que tinha dois filhos pequenos a necessitarem da sua presença. Muito interessante também o que se prolonga desse desconforto no presente, quando mãe e filha, que aparentemente se detestam, têm de conviver e conversar sobre a homossexualidade e a doença de Declan, o rapazinho mimado que quer agora acabar os dias na casa do farol, mesmo que a avó não pareça pelos ajustes. Com uma prosa limpa e descrições muito competentes de lugares e estados de alma, O Navio-Farol de Blackwater é um romance sobre as complexas relações familiares e os lutos que todos temos de fazer frequentemente em vida.

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