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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

15
Nov13

A vida moderna

Maria do Rosário Pedreira

Não sei o que aconteceu ao mundo, nem quando foi exactamente que a mudança se operou, mas a verdade é que, sobretudo nas grandes urbes, as pessoas deixaram de ter tempo. Embora os ponteiros do relógio rodem ao mesmo ritmo em todo o lado e desde que há relógios, as pessoas queixam-se cada vez mais de que o tempo não lhes chega para tudo o que têm de fazer desde que acordam até que se metem na cama para dormir. E um estudo encomendado por um grupo editorial britânico – Egmont – referido num interessante artigo publicado no Guardian vem mostrar que esta vida moderna que vivemos a uma velocidade estonteante fez diminuir até níveis que me parecem drásticos o hábito de os pais lerem histórias aos filhos ao deitar (parece que só 2% das famílias resistem) e de os professores primários dedicarem tempo das suas aulas à leitura de livros com os alunos. A falta de bibliotecários nas escolas e a cada vez maior rigidez dos programas são duas das razões apontadas para este decréscimo, mas também o aparecimento dos touch screens de tablets e telemóveis, que as crianças usam de forma intuitiva sem qualquer ajuda e dificilmente trocam por um livro que não podem ainda ler sozinhas – a ponto de os especialistas acharem que dentro em breve as televisões vão ter de substituir os seus ecrãs estáticos por outros sensíveis ao toque. Os autores do estudo acham que os livros infantis digitais são uma boa oportunidade para as crianças, que assim poderão juntar o útil ao agradável, lendo histórias num tablet e podendo inclusivamente escolher entre várias (como fazem com os jogos). Mas não era suposto os pais pararem de se desculpar com a falta de tempo e lerem com elas um bocadinho todas as noites? A vida moderna trouxe-nos coisas óptimas, mas não há aparelho nenhum que substitua um momento de leitura em companhia de quem amamos.

14
Nov13

Novas modas

Maria do Rosário Pedreira

Conheço um centro de exames clínicos no qual, enquanto esperamos, nos sentam em cadeiras mais ou menos confortáveis diante de um televisor pendurado na parede, sem som, que passa ininterruptamente imagens de modelos cruzando a passerelle (a Fashion TV, se não erro). No fim da apresentação das colecções, o estilista vem juntar-se às suas meninas para os aplausos e, regra geral, veste de preto da cabeça aos pés e o mais discretamente possível (Armani, por exemplo), parecendo que, afinal – e apesar do que acabámos de ver –, não liga à moda, nem sequer à que ele próprio concebe. Um dia destes, numa reunião, depois de o director comercial me ter dito que dois dos nossos vendedores tinham gostado muito de um livro que publiquei em Maio, tentei convencê-lo de que, se os outros o lessem, o mais certo era gostarem também e, assim entusiasmados, lutarem seguramente mais e melhor por esse livro junto dos clientes. Explicou-me que, fora aqueles dois, mais nenhum lhe tinha alguma vez falado de um livro... E, como eu me mostrasse um pouco surpreendida, confessou-me que não percebia o espanto, pois escândalo era haver editores que não liam. Bem, custou-me reconhecer, mas é verdade: não é preciso gostar de ler para publicar a história da universitária que se tornou garota de programa, da actriz que ia fazendo explodir o prédio por ter ligado os quatro bicos de gás do fogão sabe-se lá para quê (não li o livro), ou até da adolescente que traficou droga e perdeu a mãe enquanto estava na prisão. Como os estilistas todos vestidos de preto, haverá editores para quem as páginas serão sempre brancas. Uma nova moda, enfim.

13
Nov13

Os livros dos outros

Maria do Rosário Pedreira

Todos os autores, ou quase todos, gostam de celebrar a publicação dos seus livros num lançamento público, geralmente numa livraria, com a presença de alguém conhecido que fala da obra. Mas nestas coisas não há modelos e nunca se sabe o que pode sair da cartola dos oradores convidados. Já vi de tudo – e o pior foi quando a pessoa que apresentava o livro disse mal dele com o autor ali mesmo ao lado: honesto, talvez, mas não era precisa tanta sinceridade. Também já assisti a lançamentos em que o orador era um escritor muito conhecido e só falou da própria obra – um pouco egocêntrico, diria eu, sobretudo porque parecia mesmo que não tinha lido o romance que vinha apresentar. Quando o apresentador é pessoa famosa, muita gente não vai ao lançamento senão por causa disso, mas, em alguns casos, o escritor sozinho faria melhor. Uma vez, por exemplo, convidei um publicitário muito badalado para apresentar o romance de um autor escocês cuja acção decorria no mundo da publicidade e deve ter sido a apresentação mais rápida da história: o publicitário limitou-se a dizer qualquer coisa como: «Então aqui está x, que escreveu o romance y, a quem vou já passar a palavra.» Pensou que «apresentar» era «fazer as apresentações»… Até tive de ler um excerto para ocupar o tempo. E, por falar em ler excertos, agora já se vai substituindo a apresentação clássica por uma leitura, às vezes feita por um actor, parecendo que assim o livro se apresenta melhor a si próprio. É de certeza mais interessante do que contar a história toda e estragar o prazer aos leitores que assistem à sessão (também já me aconteceu). Enfim, tenho um autor que odeia lançamentos porque diz que não gosta que falem dele. Está, pelo menos, mais protegido destes amargos de boca.

12
Nov13

O escritor dormiu aqui

Maria do Rosário Pedreira

Parece que, apesar da crise, os hotéis de Paris não se queixam muito. Mas, como 2013 está a ser um ano não tão bom como os anteriores, houve quem se lembrasse de explorar a ideia dos hotéis literários para atrair novos hóspedes. Assim, o hotel Le Marcel (assim chamado por causa de Proust) anuncia que o espírito do escritor está por todo o lado nas cores e no mobiliário e tem quartos com nomes de algumas personagens da Recherche, entre as quais Swann, Guermantes, Saint-Loup (e, claro, a Madeleine que, molhada no chá, desencadeia as recordações). Nas redondezas, também o hotel Les Plumes presta tributo à literatura com citações de vários autores gravadas no vidro das cabinas do duche; e, no mesmo bairro, outro hotel convida hóspedes para um determinado quarto, afirmando que foi nele que Oscar Wilde passou a última noite. O conceito parece resultar, porque a procura aumentou e já há quem queira dormir especificamente no quarto Kafka ou Shakespeare do Pavillon des Lettres, o primeiro dos estabelecimentos hoteleiros parisienses a apresentar-se como literário. Mesmo assim, a maior parte dos turistas está mais interessada numa boa relação qualidade-preço e muitos dos mais jovens nem sequer ouviram falar de Proust quando escolhem o Le Marcel. De qualquer maneira, ficam a saber.

11
Nov13

Apanhados

Maria do Rosário Pedreira

Uma das coisas que aprendi pouco depois de ter chegado ao mundo da edição é que muita gente ligada aos livros tem vergonha de dizer que não leu determinadas obras, como se fosse um crime indesculpável, preferindo mentir a assumir a «ignorância». Contaram-me um dia destes uma história deliciosa a respeito destes bluffs, que é mesmo digna de um programa de «Apanhados». Augusto Monterroso, o renomado escritor guatemalteco que ganhou, entre outros, o Prémio Príncipe das Astúrias e o Prémio Juan Rulfo, escreveu aquele que se diz ser o mais curto conto da história da literatura, «El dinosaurio», composto apenas de uma frase: «Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.» O conto foi muito falado e estudado em universidades por todo o mundo, e importa dizê-lo para explicar que Monterroso ficou também conhecido em certos círculos como o autor daquele conto mínimo. Ora, uma vez, tendo o escritor participado de um encontro literário, aproximou-se dele uma senhora dizendo que gostava muito do que ele escrevia. Ao perguntar-lhe o que lera ela da sua obra, estranhou Monterroso que a senhora lhe respondesse imediatamente, e sem hesitações, «El dinosaurio». O guatemalteco não se deixou, porém, abalar e resolveu insistir: «E o que achou?» Aí, ao que parece, a senhora terá respondido: «Sabe? Ainda vou a meio.» Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo…

08
Nov13

Vender

Maria do Rosário Pedreira

Quando vamos a um restaurante e perguntamos a quem nos atende como é o Bife à Casa ou o Bacalhau à Moda do Chef que vêm na ementa, estamos sinceramente à espera de que nos saibam responder – e é normalmente o que acontece. As etiquetas da roupa também ajudam as vendedoras das boutiques a dizer-nos se podemos lavar na máquina determinado vestido se, pelo contrário, aquela fazenda exige uma limpeza a seco. Enfim, quem está a vender ou interessado em que o cliente consuma tem, habitualmente, conhecimento da mercadoria, seja ela qual for. Porém, como é possível a uma equipa comercial conhecer os se calhar mais de cinquenta livros que todos os meses tem de promover junto dos clientes? Mesmo que queira «cheirar» cada um deles, será que umas linhas são suficientes para falar com toda a propriedade daquele «produto»? E que dizer dos empregados de uma livraria que recebe todos os dias novidades (há uns anos eram mais de trinta por dia)? Terão alguma vez tempo para perceber as diferenças entre estilos e autores para adequarem a exposição de todos os livros que têm na loja ao seu público-alvo? Por outro lado, se fosse eu a vender os livros que publico, e que conheço melhor do que a maioria das pessoas, à excepção do autor, teria melhores resultados na venda e na colocação desses títulos, sem qualquer experiência de comercialização? Temos sempre a sensação de que não se faz tudo e que muitos livros bons morrem na praia e não encontram os seus leitores potenciais. Haverá, porém, uma receita para que assim não seja?

07
Nov13

Xadrez

Maria do Rosário Pedreira

Não sou jogadora de xadrez – na verdade, não sou jogadora de nada e sempre irritei os meus adversários por não prestar atenção suficiente às cartas nem ter como objectivo ganhar a todo o custo. Isso, porém, não me impede de ler e adorar um livrinho de Stefan Zweig, ao que parece o último que escreveu antes de se suicidar, que se chama justamente Novela de Xadrez – e, sim, tem que ver com o jogo de tabuleiro mais célebre do mundo mas não requer que conheçamos as regras em profundidade. Num navio de recreio com destino à Argentina, segue nada mais nada menos do que o campeão do mundo desta modalidade que, ao contrário do que seria de esperar, é uma criatura bruta, malcriada e até bastante bronca em tudo (excepto no xadrez). A sua presença arrogante a bordo acaba por levar a que um grupo de passageiros educados se defronte com ele (narrador incluído) numa partida de xadrez, mas apenas para experimentar uma rápida derrota; porém, num jogo de desforra, uma estranha figura aproxima-se e dá palpites certeiros que conduzem a um empate. Ora, quem é este homem que consegue empatar com o campeão do mundo e, segundo diz, já não via um tabuleiro de xadrez há vinte e cinco anos? A revelação que ouviremos da sua própria boca é, de facto, a melhor coisa desta novela – e prende-se com o nazismo e a tentativa de não enlouquecer. Mais não se pode contar.

06
Nov13

Mudança de agulha

Maria do Rosário Pedreira

Este foi um ano diferente para a literatura. Quando o Man Booker International Prize, atribuído a escritores de língua inglesa de dois em dois anos, foi entregue à norte-americana Lydia Davis, isso foi o sinal de que alguma coisa tinha mudado. Lydia Davis, de quem ouvi falar pela primeira vez no fim do século passado pela boca de um jovem autor que então publicava e que fizera uma residência literária em Nova Iorque, na qual tomara contacto com a obra desta autora, escreve contos: contos que estão agora coligidos num grosso volume traduzido em português pela Relógio d’Água e que, frequentemente, não ultrapassam as duas páginas, podendo, aliás, ter apenas meia dúzia de linhas. Uma decisão assim corajosa abriu naturalmente caminho à suspeita de que o Nobel deste ano pudesse contemplar um ou uma contista; e, nas apostas feitas no Facebook em vários murais, o jornalista do Expresso José Mário Silva pôs todas as suas fichas no nome de Alice Munro e ganhou a jogada: a canadiana arrecadaria efectivamente, já depois dos 80 anos, o maior e mais prestigiado galardão literário de todos os tempos. Assim, com tão boas notícias para a história curta (estou, obviamente, a traduzir apressadamente short story), vamos lá ver se também aqui em Portugal começamos a abrir as portas aos livros de contos, que têm sido tratados ao longo do tempo, ou pelo menos desde Borges e Carver, como coisa de menor importância.

05
Nov13

Poetas para todos

Maria do Rosário Pedreira

Para os extraordinários leitores deste blogue, que tantas vezes se queixam de que conhecem mal a poesia portuguesa, há agora uma forma de emendarem a mão. Na Faculdade de Letras de Lisboa, António Carlos Cortez, poeta e professor, vai dar um curso livre de poesia contemporânea – De Pessoa aos anos 60: Questões de Linguagem Poética – em horário pós-laboral (às terças, 18h30-20h00) entre 19 de Novembro e 6 de Maio. A entrada é livre e o preço bastante baixo, uma vez que, por estes seis meses de aprendizagem, os interessados pagam apenas 100 euros, o que equivale a 20 euros por mês, uma bagatela. Ao longo do curso serão lidos e estudados ritmos, construções, experiências vanguardistas e muito mais aspectos que «mapearam esses trinta anos de evolução poética em Portugal» (palavras do orientador). Entre os poetas, constam Pessoa (lá estão eles a sobrevalorizá-lo…), Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, Nemésio, Eugénio de Andrade, Sophia, Ramos Rosa e muitos outros menos conhecidos do público em geral, como, por exemplo, Armando Silva Carvalho. O programa completo no link abaixo. Para mais informações contacte o Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias pelo e-mail clepul@gmail.com ou pelo telefone 217920044.

 

https://www.wetransfer.com/downloads/46b262a2e7c35bff79607bc52135845320131031110207/33b26ddffd43e474a16433181d23434820131031110207/426360

 

 

04
Nov13

Ora toma!

Maria do Rosário Pedreira

No ano de 1997, em que Portugal foi o país convidado da Feira Internacional do Livro de Frankfurt, trabalhei no escritório que organizou a programação do acontecimento. E lembro-me muito bem de que, ao elaborar a lista dos autores que se deslocariam àquele certame para leituras e mesas-redondas, a direcção e o comissário da literatura (havia outros comissários para as artes visuais e performativas, pois estavam previstos espectáculos e exposições por toda a cidade a par das sessões literárias) decidiram – e bem – incluir autores estrangeiros lusófilos (como o pessoano Antonio Tabucchi) e lusófonos, tendo a comitiva integrado Mia Couto, Germano Almeida e João Ubaldo Ribeiro, entre outros, representantes de pleno direito da literatura em língua portuguesa. Este ano, o Brasil foi, pela segunda vez, o convidado de honra da Feira de Frankfurt, e foram muitos os escritores brasileiros presentes na Alemanha. Portugueses na comitiva não havia. Nada contra. O discurso de abertura, na voz de um autor de peso – Luiz Ruffato, cuja vida lembra um pouco a de Lula da Silva, porquanto foi também um operário de origem extremamente humilde –, foi, de resto, bastante crítico do colonizador branco, que terá dizimado as tribos de índios e estuprado as escravas vindas de África, produzindo uma população mestiça que continua até hoje na base da pirâmide social. Razão para dizer: Ora toma, que já almoçaste... O discurso sobre a desigualdade naquela que é hoje a sétima economia mundial prossegue, apontando o dedo a muita gente – e vale a pena lê-lo, até pela peça literária que é. Deixo-vos, pois, o link.


http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,leia-a-integra-do-discurso-de-luiz-ruffato-na-abertura-da-feira-do-livro-de-frankfurt,1083463,0.htm