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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

28
Fev14

Fotografias lusófonas

Maria do Rosário Pedreira

Às vezes, é preciso chegar quase ao fim para começar tudo de raiz. Isso aconteceu, pelos vistos, a Sandra Nobre, uma portuguesa nascida em França e licenciada em Relações Internacionais numa universidade lisboeta, que se livrou de uma leucemia aguda com um autotransplante e decidiu ir atrás do que realmente lhe interessava: os livros e a fotografia. Traçou um percurso num mapa aberto no chão da sala e começará em breve uma aventura belíssima: a de fotografar pessoas a ler em todos os países onde se fala português. Partirá do Porto já no próximo dia 10 de Março para o Brasil e terminará a viagem, previsivelmente seis meses mais tarde, em Cabo Verde, devendo passar por Díli, Maputo, São Tomé e Luanda. Leva consigo um bloco, para registar as histórias dos leitores, e uma máquina fotográfica, para os registar para a posteridade com um livro na mão. O seu blogue Acordo Fotográfico dará certamente conta do que irá acontecendo ao longo deste périplo, mas eu espero que as fotografias disparadas por Sandra Nobre nos quatro cantos do mundo onde ainda se lê em português possam ser expostas futuramente num lugar mais amplo, para que todos nós possamos ir vê-las.

27
Fev14

Fábrica de sonhos

Maria do Rosário Pedreira

Disseram-me que os televisores vão ter muito rapidamente ecrãs tácteis, como os dos telemóveis e dos iPad, nos quais as crianças tocarão para mudar de canal, aproximar a imagem ou ajustar o volume do som. Não me pareceu nada do outro mundo, se, na verdade, os pimpolhos dominam a técnica na perfeição (basta vê-los operar os telemóveis dos pais quando estes se distraem por instantes). Não estava, porém, à espera da notícia bombástica de que a Walt Disney – quem mais? – se prepara para, por meio de impulsos eléctricos transformados em microvibrações, oferecer aos telespectadores uma outra função, que é a de, ao passarem os dedos no ecrã, sentirem a textura do objecto ali mostrado. Mas parece que a tecnologia já foi testada e funciona mesmo. Já vejo a criançada a fazer festinhas a televisivos cães peludos (mesmo que eles não abanem a cauda em sinal de reconhecimento) e as meninas a experimentarem a suavidade da seda e dos tules das princesas dos desenhos animados; e – porque não? – as donas de casa a enterrarem os dedos naqueles turcos muito fofos que entram sempre nos anúncios a detergentes de máquina de lavar. Quiçá os adolescentes solitários se atreverão então a tactear o corpo de uma actriz famosa para depois contarem aos amigos que beliscaram a nádega da estrela... Enfim, com livros a cheirarem a chocolate e televisores macios como alcatifas, não sei que mais podemos esperar.

26
Fev14

Palavras derradeiras

Maria do Rosário Pedreira

Quem sobressai através das palavras tem certamente a capacidade de dizer coisas bonitas e originais nos seus últimos momentos. Mas, embora fosse de esperar que os escritores coroassem o adeus à vida com frases que os tornassem ainda mais imortais, a verdade é que muitos deles foram, antes de tudo, gente com medo da morte ou perturbada pelo sofrimento. Leio algures que, por exemplo, Aldous Huxley – que já ninguém deve ler nos tempos que correm, mas foi autor de um clássico que era obrigatório para a minha geração, O Admirável Mundo Novo – pediu à mulher uma dose de LSD quando sentiu a ceifeira aproximar-se, aspirando talvez a morrer «numa boa». Voltaire, por seu turno, num acto de humor inteligente, terá dito ao padre que lhe pedia que renunciasse ao Diabo que aquela não era altura de fazer inimigos... Já Jane Austen, quando a irmã a interrogou sobre os seus últimos desejos, respondeu que o que desejava era morrer, enquanto, ao sentirem o mergulho nas trevas, Goethe pediu apenas mais luz e Emily Dickinson declarou que estava na hora de entrar em casa porque o nevoeiro se adensava. O autor de Alice no País das Maravilhas ordenou que lhe levassem dali as almofadas, pois já não iria precisar delas para nada, e Tchékov quis celebrar a partida com champanhe, que terá pedido à mulher com a dose de morfina que tomava habitualmente. O poeta romântico Byron avisou simplesmente que ia dormir... E dormiu, de facto, para todo o sempre.

25
Fev14

Aqui há gato

Maria do Rosário Pedreira

Dizem que, em tratando-se de comer frango, uns gostam de perna e outros de peito (cá em casa é exactamente assim – e dá jeito, porque nada se desperdiça). Dizem também que os que gostam de cães não são especialmente apaixonados por gatos, e vice-versa. Eu sou mais cães, confesso, e também confesso que não consigo confiar inteiramente em gatos nem pegar-lhes ao colo, embora não faça fitas quando vou a casa de alguém que os tenha (geralmente, mais de um). Mas gosto de os ver nas traseiras da casa a brincar, a uma certa distância, claro, e gosto de pôr gatos em poemas, talvez porque os ache mais inteligentes e sagazes do que os cães (alguns, pelo menos) e admire até certo ponto a sua natureza independente e selvagem (e, por isso, mais apropriada ao poema). No entanto, fiquei um dia destes rendida à singularidade dos felinos, ao ler uma notícia inesperada sobre a sua apetência para ouvir ler. A sério, parece que os bichanos, sobretudo se já passaram por traumas nas suas sete vidas, apreciam o ritmo da leitura de histórias, o som ritmado de vozes humanas. Na Pensilvânia, na Berks Rescue Animal League, existe mesmo um programa com o nome engraçado de «Book Buddies», em que crianças a partir dos seis anos se oferecem para ler aos gatos residentes, tendo a actividade apresentado resultados extraordinários: além de os bichos ficarem mais mansos e simpáticos (o que os tornará mais facilmente adoptáveis por famílias interessadas num animal de estimação), as crianças aperfeiçoam o seu desempenho na leitura e, melhor ainda, criam raízes na prática de voluntariado. Há coisas que não se explicam, mas, quando eu pus gatos nos meus poemas, talvez já tivesse o pressentimento de que eram animais literários...

24
Fev14

Livro sem Ninguém

Maria do Rosário Pedreira

Acabo de publicar um dos romances finalistas do Prémio LeYa de 2012 (o autor quis revê-lo), intitulado Livro sem Ninguém, que é um projecto altamente original, uma vez que conta uma história abdicando das personagens. Como? Pois bem: na rua do arco-celeste há sete casas, cada uma de sua cor; e também um café, uma horta, um jardim, uma florista, uma sucata e uma escola. Mas, embora lá vivam pessoas, esta história é contada apenas pelas coisas que lhes pertencem à medida que vão mudando de lugar, e por isso o livro é sem ninguém. Ainda assim, durante este ano extraordinário, acontece de tudo na rua: há quem se apaixone e quem se separe, quem nasça, quem morra, quem mate e até quem, depois do trauma, comece uma vida nova. Há bengalas (e, portanto, há velhos), há fraldas e bicicletas com rodinhas (e, portanto, há crianças) e, de vez em quando, há até um skate parado num pátio (e, portanto, há jovens também). Mas, como em todas as ruas, havemos de encontrar nesta preconceitos, dúvidas, alegrias, segredos e desgostos (quando o violino cigano se ouve ao longe, chora uma terrível injustiça e, quando a bengala se parte contra o muro, é certamente a raiva que a move). Enquanto isso, o tempo vai passando sem darmos por ele, mas a montra da florista e o que se colhe ou semeia na horta nunca nos deixam afastar do mês em que estamos. Pedro Guilherme-Moreira usa o microcosmos da rua para desenhar o retrato da sociedade contemporânea e abordar questões tão polémicas como a xenofobia, a violência doméstica, a repressão sexual ou o envelhecimento. E – o que é um milagre – sem precisar de ninguém.

 

21
Fev14

Livres e acorrentados

Maria do Rosário Pedreira

O diário francês Libération acusou (como quase todos, imagino eu) uma diminuição significativa do número de exemplares vendidos em 2013. Os administradores da empresa proprietária do jornal consideraram então que se devia fazer alguma coisa para o modernizar e aproximar de uma comunicação mais de acordo com os tempos actuais, e digitais, propondo que ele não fosse apenas um título da imprensa escrita, como até aqui, mas também uma espécie de plataforma geradora de conteúdos e passível de se tornar lucrativa. Pois bem: os jornalistas não gostaram e, traindo o espírito visionário que o jornal possuía quando foi criado em 1973 por Sartre, mostraram-se completamente intransigentes com as modernices e resolveram reclamar dos objectivos da administração no próprio jornal, com uma edição especial em que, na primeira página, declaravam: «Nós somos um jornal.» O mais paradoxal é que quem pagou essa edição foram os administradores, ali duramente criticados, para não dizer enxovalhados, pelas suas ideias monétisables. Mas, ironia à parte, a verdade é que o império do dinheiro chegou a todo o lado; e, se a publicidade deixou de pagar o custo do papel (há jornais que já não têm praticamente anúncios), muitos dos diários e semanários correm o risco de fechar se não se tornarem, de facto, uma coisa completamente diferente da que têm sido. Na edição de livros, foi decerto também a busca do lucro rápido que fez com que os editores se pusessem a publicar livros menores mas potencialmente vendáveis, sem se aperceberem de que estavam a criar leitores crédulos e mal formados, muitos dos quais incapazes de pensar pelas próprias cabeças e de, mesmo com um empurrão, passar a um patamar de leitura superior. No entanto, agora já não é possível voltar atrás, e a recusa dos funcionários do Libé a adaptarem-se a novas estratégias também me parece um pouco exagerada. Até porque, pelos vistos, ainda têm quem lhes «sustente» as críticas...

20
Fev14

Correntes 2014

Maria do Rosário Pedreira

Por estes dias, não poderei responder a quaisquer comentários dos leitores deste blogue. É hoje que se inauguram mais umas Correntes d’Escritas e, tal como é hábito, estarei pelo Norte, na Póvoa de Varzim, a acompanhar alguns dos meus autores, a Ana Margarida de Carvalho (que escreveu o excelente Que Importa a Fúria do Mar) e o João Ricardo Pedro (autor do Prémio LeYa 2012, O Teu Rosto Será o Último), dois estreantes nas Correntes que, tenho a certeza, vão adorar a experiência. Nesta que é a 15.a edição do festival literário mais amigo dos autores que conheço em todo o mundo, haverá 64 convidados (eu vou à pendura), entre escritores, críticos, jornalistas, pintores (teremos Cruzeiro Seixas, por exemplo), pensadores, editores, professores e até, como vem sendo costume, alguém ligado também à política, como é o caso de Adriano Moreira, que fará a conferência inaugural. Constam da lista muitos jovens talentosos, como Valério Romão e Golgona Anghel, o que é também um bom sinal, porque frequentemente os encontros de escritores só querem ouvir os consagrados. Se estiverem por perto, apareçam. As sessões este ano serão no auditório do hotel e é por lá que se encontrarão todos os participantes. Espero ter muitas coisas que contar no regresso.

19
Fev14

Templos do livro

Maria do Rosário Pedreira

Leio num artigo da Internet que quarenta e quatro por cento dos holandeses são ateus. Existem vinte e oito por cento de católicos (que são a maioria dos crentes), dezanove por cento de protestantes, cinco por cento de muçulmanos e os restantes quatro por cento pertencem a outros credos e seitas. Porém, a maioria dos não ateus frequenta muito pouco a igreja e os outros locais de culto, sobretudo os católicos que, ao que parece, desde que Bento XVI fez um discurso homofóbico que os deixou de cabelos em pé, se zangaram e desistiram de ir à missa. Resultado: as instituições religiosas deixaram de ter fundos para manter os seus belos edifícios (sem fiéis e sem esmolas ficou difícil) e tiveram de alienar alguns deles, que se tornaram bares, cafés, livrarias e até salas de concerto. Em Amsterdão, por exemplo, uma igreja do século XIX transformou-se num templo de música pop e rock muito badalado, e em Maastricht outra belíssima igreja deu lugar à livraria Selexyz, uma das mais belas do mundo, cuja fotografia deixo aqui em baixo. Talvez esta transformação signifique o fim de uma época, mas não é mau que haja templos tão belos para o livro.

 

18
Fev14

Levar com um livro na cabeça

Maria do Rosário Pedreira

As novas tecnologias são hoje um dado adquirido e, apesar de já não conseguirmos viver sem elas, muitas vezes penso que as máquinas inteligentes e a informatização de um sem-número de serviços simplificaram enormemente os processos, mas, ao mesmo tempo, mandaram bastante gente para o desemprego. Para o desemprego irão também, um dia destes, os funcionários dos Correios alemães (embora lá, aposto, o subsídio de desemprego seja melhor do que a maioria dos ordenados por cá), porque a Deutsche Post se prepara para os substituir na entrega de encomendas por drones, uma espécie de mosquitos gigantes telecomandados, até agora usados apenas com fins militares e, uma vez ou outra, no cinema (no filme O Aviador, eram drones que filmavam os voos de Howard Hughes). A utilização é polémica, não só porque a tecnologia avançou mas a legislação sobre a matéria não acompanhou, pelos vistos, o avanço, mas também porque se multiplicam histórias que acabam mal sobre estes «bichos», entre as quais a de um drone com uma câmara de filmar de alta resolução que foi lançado de um arranha-céus nova-iorquino e, certamente por aselhice do dono, andou a dar tombos em janelas de mais de dez edifícios circundantes antes de iniciar uma queda vertiginosa e de acabar partido aos pés de um transeunte que só por milagre não levou com o dito na cabeça. A Polícia, que confiscou os restos do aparelho, sabia que devia ser uma coisa importante, mas não sabia o que era exactamente... Ora, na imagem que anunciava o recurso a drones pelos Correios alemães num futuro próximo (mas será tão próximo assim?), vejo um pacote (que podia conter um dicionário) seguir caminho nas garras do mosquito electrónico e temo que venha a cair cima da cabeça de alguém. Encomendas de livros online vão ter os dias contados para muita gente quando as entregas passarem a ser feitas por drones. E queira Deus que isso não signifique mais gente no desemprego.

 

17
Fev14

Poesia versus prosa

Maria do Rosário Pedreira

Embora os dois géneros literários se toquem frequentemente (e muitos romancistas tenham uma escrita surpreendentemente poética, enquanto alguns poetas são narradores não especialmente líricos), a verdade é que nem sempre os leitores gostam igualmente de poesia e prosa. A confirmá-lo está, de resto, a notícia um tanto absurda de que houve recentemente na Rússia um homicídio (uma morte que envolveu numerosas facadas e consequente sangramento) por causa de uma discussão que tinha como tema justamente a poesia e a prosa. A vítima, de 67 anos, terá emitido a opinião de que a única forma literária digna desse nome era o romance; e, ao ouvi-lo, o assassino, um ex-professor de 53 anos amante incondicional de poesia, ter-se-á irritado ao ponto de esfaquear o oponente, deixando-o pronto para a sepultura (1-0 para a poesia) e fugindo do local, tendo sido detido apenas três dias mais tarde. Faltou dizer, claro, que ambos estavam num bar – e, ao que consta, muitíssimo bêbados; e que noutro bar, uma semana antes, divergências sobre as teorias de Immanuel Kant também já haviam feito uma vítima de disparo de arma de fogo (embora não mortal). Defender um ponto de vista é coisa que aprecio, contra uma certa apatia e o medo de assumir posição. Gosto muito, aliás, de ver como os extraordinários comentadores deste blogue dão opiniões e reagem às minhas e às dos outros leitores. Mas, copos à parte, não creio que seja preciso ir tão longe...

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