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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Fev14

Festejar o amor

Maria do Rosário Pedreira

Hoje, que é dia de S. Valentim, use-se o pretexto para visitar o amor posto a nu pela pena de um dos mais dotados ficcionistas portugueses, o já galardoado com o Prémio Pessoa (entre muitas outras distinções) Mário Cláudio. Neste O Triunfo do Amor Português, o autor recorre, porém, mais à riqueza do real do que à própria imaginação para se debruçar sobre uma dúzia de pares famosos das lendas e da história portuguesas, recontando à sua maneira (e de que maneira!) os amores de Pedro e Inês, Camilo e Ana Plácido, Camões e D. Maria, Leonor Teles e o conde de Andeiro, só para citar alguns exemplos. Com uma bonita ilustração de capa de Rogério Ribeiro e um magnífico prefácio de Agustina Bessa-Luís, o amor português é aqui celebrado com mão de mestre, trazendo a um tempo uma prosa madura e não raro irónica, a descrição do peso da culpa nos caminhos do amor e a nossa ilustração sobre alguns casos e episódios de transgressão que foram absolutamente marcantes no nosso passado amoroso histórico e literário, sem omitir os amores homossexuais de António Nobre e Alberto de Oliveira. Como refere Agustina no seu texto de abertura, «se fosse preciso afirmar Mário Cláudio como um escritor, este livro [...] vinha coroar a sua obra».

 

13
Fev14

Morte na Ásia

Maria do Rosário Pedreira

Abro a excepção para publicar na LeYa um autor estrangeiro que me convenceu ao desvio: o sul-coreano Kim Young-ha (se fosse aqui, chamar-se-ia Young-ha Kim, porque «Kim» é o apelido), considerado pela crítica o nome mais vibrante da sua geração e traduzido em mais de dez países. A sua novela, Tenho o Direito de Me Destruir, com uma excelente tradução de Maria do Carmo Figueira, não é para qualquer dente, por algum atrevimento sexual (com chupas-chupas à mistura e bolinha vermelha ocasional) e bem assim por tratar um tema bastante polémico, o da morte assistida. Mas não se pense que o protagonista e narrador, amante da pintura, ajuda caridosamente a morrer doentes terminais. Nada disso. Ele está, sim, especialmente atento aos deprimidos e solitários (as mulheres que viajam sozinhas ou encontra em museus são alvos preferenciais) e, por ser culto e inteligente, põe à sua disposição um maravilhoso serviço de assistência ao suicídio, munindo-se de um catálogo bastante completo. Vive deste estranho ofício e bastam-lhe dois ou três clientes generosos por ano para ter uma vida pacata e sem dificuldades. Quando termina um trabalho, escreve sobre a pessoa que ajudou a livrar dos seus problemas – é através do seu relato fiel, cínico e criativo que conheceremos Se-yeon, a rapariga por quem dois gémeos estavam doidamente apaixonados e desapareceu do carro de um deles no meio de engarrafamento na neve; ou Mimi, uma artista de vanguarda que não deixava que filmassem as suas performances por ter medo de se ver a si própria. Num cenário que usa Seul para espelhar a velocidade do mundo moderno e os dramas actuais da humanidade, Kim herda uma certa obscuridade de Kafka e uma certa ousadia de Brett Easton Ellis para compor um texto admiravelmente seco, sem palha, e ao mesmo tempo perturbador e exótico. A capa portuguesa, belíssima, é de Rui Garrido.

 

12
Fev14

Casas de papel

Maria do Rosário Pedreira

Li há uns anos uma deliciosa novela chamada Casa de Papel, de Carlos María Domínguez, escritor argentino residente no Uruguai, na qual os muros de uma casa eram construídos com livros. Nós, que gostamos muito de ler e não resistimos a comprar sempre mais um livro mesmo em tempos de crise, lutamos de certeza com enormes dificuldades de arrumação. Tenho até um amigo que foi dissuadido de carregar a sua biblioteca para uma nova casa que comprou porque o peso era excessivo e se corria o risco de tornar o apartamento de um só piso o duplex do vizinho de baixo. Pois a revista Casa Vogue do Brasil, a pensar nos nossos problemas, resolveu dedicar várias páginas de um dos seus recentes números a casas realmente fantásticas com soluções arquitectónicas geniais para arrumarmos os livros. Casas que existem por esse mundo fora, do Canadá à Suécia, da Alemanha ao Brasil, e cujos proprietários têm bibliotecas incríveis e incrivelmente arrumadas. Claro que, em muitos casos, a coisa não está ao nosso alcance, temos os bolsos quase vazios e muitos dos orgulhosos donos dos lares fotografados devem ser bastante ricos. Mesmo assim, dá sempre para tirar uma ideia ou outra e sonhar o que poderia ser a nossa biblioteca se nos saísse o Euromilhões. O link vai abaixo.

 

http://casavogue.globo.com/Interiores/noticia/2012/12/10-casas-ideais-para-amantes-de-livros.html

 

11
Fev14

Dizer e ouvir

Maria do Rosário Pedreira

Nos anos 1990 lembro-me de comprar muitos CD da (eu dizia «dos») Penguin Café Orchestra, sem nunca chegar a investigar donde vinha o nome desse grupo de músicos. Curiosamente, descobri há pouco tempo existir no Porto um café chamado Pinguim – quiçá apenas uma coincidência, quiçá um estabelecimento de alguém que também ouvia com prazer aquele som. Em todo o caso, a música de que quero falar agora é a das palavras, porque neste Café Pinguim diz-se poesia há vinte e cinco anos todas as segundas-feiras. A ideia nasceu com o falecido crítico e poeta Joaquim Castro Caldas, que ali começou a recitar Pessoa e Almada e acabou por criar o vício de dizer poesia a muitos outros, autores e actores, que levavam livros debaixo do braço e esperavam a ordem do mestre para os ler. Valter Hugo Mãe, Filipa Leal ou Daniel Maia Pinto Rodrigues, todos poetas com obra publicada, começaram ali naquela espécie de laboratório, e até hoje são visitas regulares do Pinguim. Infelizmente, Castro Caldas não está já neste mundo para ver a colectânea de poemas, Antologia da Cave, que foi lançada recentemente na Biblioteca Almeida Garrett (na Invicta) para comemorar os 25 anos de leituras no Café Pinguim, mas substitui-o o actor Rui Spranger, que hoje é quem comanda as hostes. Fazia-me falta um café assim em Lisboa, pois gosto de dizer poesia, minha e de outros, e na capital não conheço onde se possa fazer tal coisa num dia certo e, claro, com público. Quando for ao Porto, espero poder dispor de uma segunda à noite para ir ao Pinguim e, entretanto, vou ouvir os meus velhos CD que têm, aliás, belíssimas capas.

10
Fev14

Sozinhos

Maria do Rosário Pedreira

Quando um autor nos deixa, não conseguimos falar disso durante muito tempo. Não, embora possa parecer – até pelo destaque que os jornais deram ao assunto –, não me refiro a desacordo de herdeiros em relação a condições contratuais (há mais viúvas e filhos na história da literatura que nos prepararam para não estranharmos certas decisões); e também não falo dos que, mesmo sem queixas de maior, alegam precisar de uma experiência nova – porque, apesar da mágoa (e do prejuízo), tenho consciência de que, com a idade, nos arrependemos sobretudo do que não fizemos e, portanto, aceito e, pelo menos, tento compreender. Falo, sim, de alguém que teria gostado de ficar, de repetir a velha experiência fossem quais fossem as condições contratuais – mas não pôde, porque a morte simplesmente pôde mais, embora ele lhe tenha dado três anos de luta cerrada em que escreveu um romance inesperadamente bem-disposto, três anos de uma força que admiro e invejo e foi uma lição de vida para mim e para quem a soube, sentiu e assistiu, mesmo que às vezes só de longe, só por telefone. Falo de Paulo Bandeira Faria, autor e amigo, que me deixou sozinha no fim do ano passado, que me deixou sem ele e sem os livros que ainda teria podido escrever – e que bons seriam – se a morte, desta vez, não tivesse podido mais do que ele. O último – A Despedida de José Alemparte – anda de novo pelas livrarias a lembrá-lo, e eu aqui a lembrar-vos que não deixem de o ler, porque é um livro que celebra a vida e foi escrito por um homem que a estava a perder. (A Extraordinária Ana B., que também nos tem deixado sozinhos aqui no blogue, elogiou-o muito quando o leu.)

 

07
Fev14

Cultura e socialite

Maria do Rosário Pedreira

Desde sempre me lembro de haver na minha faculdade (a de Letras, em Lisboa) cursos de Português para estrangeiros durante o Verão. No entanto, certamente por causa da vaga de imigrantes de Leste que chegou já no século XXI, passou a haver aulas de Português para estrangeiros ao longo de todo o ano em horário pós-laboral. Pois foi justamente um dos frequentadores destas aulas – um não-português, portanto, e com a cabeça no lugar – que escreveu recentemente ao director de um jornal uma carta, revelando uma justíssima indignação por a sua professora ter levado para a aula a revista Caras, alegando que Lili Caneças ou José Castelo Branco eram «figuras incontornáveis da cultura portuguesa» (mais dois, suponho, que acabarão com os costados no Panteão Nacional). Sei que «cultura» é um termo demasiado abrangente e que quase tudo cabe nele, do cozido à portuguesa ao futebol, passando pelo queijo da Serra e o cão-d’água que Obama adoptou como animal de estimação. Calculo também que o nível médio dos nossos professores tenha vindo a baixar de modo evidente de há quinze ou vinte anos para cá (não podemos pôr todos no mesmo saco, mas, nos anos em que estive no ensino, eram infelizmente muito poucos os meus colegas que liam regularmente, e menos ainda os que liam literatura). Vejo diariamente que até as publicações mais sérias – já para não falar das televisões, que deixei praticamente de ver – não raro dedicam um espaço escandaloso a figuritas de papelão e enredos de vizinhas. Mas... na Faculdade de Letras, onde deveriam ser promovidos os escritores, filósofos e historiadores portugueses, não conseguiram encontrar ninguém para representar a nossa cultura além destas duas completas aberrações? Eu tinha consciência de que isto andava mal, mas não tão mal como realmente anda.

05
Fev14

Ler como terapia

Maria do Rosário Pedreira

Conheço cada vez mais pessoas dependentes de antidepressivos. Algumas delas beneficiariam de sessões regulares de psicoterapia, tenho a certeza, mas as consultas são caras e, nestes tempos terríveis, muitas delas não têm qualquer possibilidade de as pagar. Não sou contra os químicos (acho que um comprimido para dormir de vez em quando é muito melhor do que uma noite de insónia) mas a dependência assusta-me e, quanto às depressões, duvido muito de uma cura química. Há, porém, quem sugira para elas um tratamento menos intrusivo (biologicamente, claro) e o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido pratica já, em alguns casos, uma terapia que passa pelos livros. Books on Prescription, assim se chama a biblioterapia que receita leituras em vez de fármacos – os efeitos secundários só podem ser bons, digo eu –, é coisa séria, porque os títulos aconselhados são mesmo de leitura obrigatória e é forçoso que os pacientes os aviem na biblioteca ou livraria mais próxima e os leiam para depois falarem sobre eles com o psicólogo ou psiquiatra. Porque ler não acarreta perda do desejo sexual, aumento de peso e outras consequências desagradáveis que têm os comprimidos, parece que, desde que o método foi implantado, em Junho do ano passado, as requisições de livros multiplicaram-se e os pacientes sentiram efectivamente melhorias em termos de saúde mental. Os seus bolsos também agradeceram com este tratamento low-cost e a consciência de que os seus problemas afectam igualmente outras pessoas (o que concluíram das leituras feitas) acabou por lhes retirar parte do peso de cima. É evidente que, para esta terapia poder ser recomendada, os psicoterapeutas têm de ter lido os livros antes, e não sei se em Portugal a classe está suficientemente informada. O que posso dizer é que, em momentos especialmente maus da minha vida, os livros – escritos e lidos – foram a minha salvação.

04
Fev14

Prestígio e dinheiro

Maria do Rosário Pedreira

Há prémios literários prestigiantes, mas com um valor pecuniário relativamente baixo, e prémios realmente chorudos, mas sem grande reputação. Um prémio literário que reúna ambas as coisas é mais difícil, claro, e é um galardão assim que todos os que escrevem naturalmente almejam. Pois os herdeiros do grande T. S. Eliot e a Poetry Book Society têm há vinte anos o Prémio T. S. Eliot para um livro de poesia, que rende nada mais, nada menos do que quinze mil libras ao seu autor, além, evidentemente, de uma honra sem igual (que poeta não gostaria de ter na sua carreira um prémio cujo patrono fosse um dos maiores poetas de sempre?). Entre os vinte distinguidos até hoje, contam-se, pelo menos, dois autores que receberam o Prémio Nobel da Literatura – o irlandês Seamus Heaney, recentemente falecido, e Derek Walcott, natural da ilha de Santa Lucia, que foi nobelizado em 1992 – e ainda o sobejamente conhecido Ted Hughes. Este ano arrecadou-o uma irlandesa, Sinéad Morrissey, com a obra Parallax (que estou em vias de adquirir), uma poetisa que já somou várias distinções importantes e foi a mais jovem de sempre a ganhar o Prémio Patrick Kavanagh, para inéditos, com dezoito anos, embora a obra só tenha visto a luz muitos anos depois. Convém dizer que todos os seus livros anteriores foram finalistas do prémio que agora lhe foi atribuído e que, portanto, era uma vitória mais ou menos esperada.

03
Fev14

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Aconselhada por um ou mais Extraordinários (ou seja, leitores deste blogue) – e apesar da escassez de tempo para o que não é leitura profissional (sim, levo trabalho para casa quase todos os fins-de-semana e ainda tenho mais de sessenta originais em espera) –, pus o dente na saga da família Melrose, de Edward St Aubyn, mais concretamente na primeira das duas novelas que compõem o volume (até agora o único) publicado em Portugal (e que, além de Deixa Lá, inclui Más Novas, mas ainda lá não cheguei). Bastante cínica e um tanto snobe, esta prosa que só podia ser de um inglês que se declara na capa possuir a verve de Oscar Wilde (percebo a ideia, mas não iria tão longe) desconcerta um pouco a princípio, sei lá se por causa de uma tradução vagamente elaborada do poeta Daniel Jonas, mas torna-se rapidamente camisola à medida das figuras e do enredo. A primeira incursão na vida dos Melrose dá-nos a conhecer um David bastante frustrado por não ter podido seguir a carreira de pianista (a febre reumática tramou-lhe os planos), uma Eleanor viciada em álcool e comprimidos (que faz pena, mas irrita bastante) e o pimpolho do casal, Patrick, de cinco anos, que está quase sempre sozinho e, por vezes, parece mais adulto do que os pais (e mais normal). É, de resto, a vida de Patrick, menino bem, filho de gente rica a viver confortavelmente na Provence, que St Aubyn irá acompanhar ao longo de um quinteto de novelas – leio que, em Más Novas, Patrick já terá vinte e dois anos; aqui, porém, ainda é o miúdo dos Melrose que se empoleira no bordo de um poço de costas voltadas para o abismo e leva uma tareia do pai sem perceber porquê (juro que não tem nada que ver com a sua ousadia no poço). Vamos ver no que se transforma. Ainda só li oitenta páginas.

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