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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Mar14

Nu e cru

Maria do Rosário Pedreira

Claire Franek e Marc Daniau, franceses, são os autores de um livro infantil chamado Tous à Poil, no qual personagens (entre elas um polícia e uma professora) a dada altura se põem em pêlo para entrarem no mar e tomarem uma boa banhoca, numa celebração descontraída do corpo. Mas esta visão desinibida da nudez não agradou ao partido de centro-direita UMP, cujo presidente foi à televisão manifestar o seu escândalo por uma professora aparecer nua num livro para crianças, dando o que ele achou um péssimo exemplo. Claro que isso só fez com que a obra chegasse ao Top de vendas em menos de nada e que os editores, autores e livreiros ficassem chocados com essa espécie de censura a um livrinho que não pretendia de modo nenhum ser ofensivo. Vai daí reagiram de forma bastante original, deixando-se fotografar completamente em pelota, cobrindo apenas certas partes do corpo com livros. «Todos nus contra a censura» era a frase que acompanhava o cartaz, que pretendia fazer a defesa dos autores da obra criticada pelo partido de Copé, sublinhando ainda que devem ser acarinhados todos os livros que ampliam horizontes e acendem o debate e que Tous à Poil permitia a todos os cidadãos, fossem eles quem fossem, compreender a informalidade da sociedade contemporânea e resolver os tabus sobre o corpo. E acrescentavam que, independentemente de se ser um médico, uma professora ou um bebé, todos temos rabo e genitais (e ainda bem). Essa é a verdade nua e crua. A foto aí vai.

 

14
Mar14

Compras no estrangeiro

Maria do Rosário Pedreira

Uma vez fui a um festival de escritores nos arredores de Genebra, cujo país convidado era Portugal; e, numa manhã, Agustina Bessa-Luís convidou-me para a acompanhar, a ela e a Lídia Jorge, à cidade. Havia um outro poeta que estava interessado em ir connosco, Fernando Echevarría, mas a senhora do Norte tornou imediatamente claro que aquela excursão era apenas para mulheres. Pouco depois, percebi porquê: Agustina queria ir comprar, entre outras coisas, malas e sapatos (e até sabia onde ficavam as lojas que queria visitar e trazia os catálogos assinalados). Ao que parece, fazia-o sempre que se deslocava ao estrangeiro para festivais de escritores e contaram-me, a este respeito, uma história maravilhosa. Tendo sido convidada para um encontro de mulheres escritoras na Turquia, Agustina calhou numa mesa com uma palestiniana e uma israelita (além de uma outra portuguesa, que foi quem partilhou a história recentemente). Acontece que, na mesa em questão, os ânimos se inflamaram, e as escritoras da Palestina e de Israel, como era esperado, começaram uma discussão azeda que parecia não ter fim. Então, Agustina ter-se-á aproximado da sua conterrânea e ter-lhe-á sussurrado ao ouvido qualquer coisa como: «Ora bolas, e eu que só cá vim para comprar uns tapetes...»

13
Mar14

Regresso à terra-mãe

Maria do Rosário Pedreira

A minha mãe nasceu em Ovar um pouco por acaso, embora tivesse lá familiares que a minha avó visitava quando chegou, intempestiva, a hora do parto. No entanto, as suas ligações à terra natal eram sobretudo afectivas – nunca me lembro de a minha mãe ir a Ovar durante o tempo em que vivi lá em casa – e passaria muito tempo até que nós, os filhos, conhecêssemos o lugar em que nasceu. Mesmo assim, Ovar tem para mim um qualquer apelo genético e, quando há uns meses um responsável do Museu de Ovar me convidou para ali ir falar da minha poesia, numa sessão que inclui leituras e música, não pude de forma alguma recusar. Será já amanhã essa oportunidade de voltar ao berço da minha mãe para conversar com Carlos Granja, que dirige a cerimónia, e os leitores ovarenses, entre os quais encontrarei quiçá um autor que publiquei há uns anos, Jorge Almeida e Pinho, que escreveu um interessante ensaio sobre a tradução, O Escritor Invisível, a partir da sua tese de mestrado,um autor que gosto sempre de rever, a ele e à família, embora esses encontros sejam normalmente casuais e breves. Bem, se estiverem por perto, apareçam. A noite (que no museu só começa às 21:00h) promete ser interessante. Para mim, pelo menos, vai ser um serão diferente.

12
Mar14

Uma Karénina renascida

Maria do Rosário Pedreira

Há cerca de seis meses, publiquei mais um romance de Ana Cristina Silva, autora finalista, com Cartas Vermelhas ou O Rei do Monte Brasil, de prémios literários importantes – por exemplo, o de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores ou o Fernando Namora, promovido pela sociedade Estoril-Sol. Amanhã celebraremos, porém, a sua obra mais recente, A Segunda Morte de Anna Karénina, na Biblioteca do ISPA, onde a autora é professora, e para tal contaremos com a apresentação do grande ensaísta e crítico literário Eugénio Lisboa. Façamos, pois, ressuscitar esta personagem de Tolstoi através de um casal desavindo, que se encontra, vinte e tal anos depois de uma separação terrível e violenta, no funeral do filho morto na Primeira Guerra Mundial em França, para onde fugiu a uma relação proibida e donde escreve cartas em que fala dos horrores das trincheiras e da sua tremenda solidão. Cartas que são encontradas pela mãe e lhe desvendam tudo sobre um filho que não pôde criar por razões que envolvem um segredo e uma história de traição. A sessão realiza-se às 18h30. Não falte.

 

P.S. O horário neste cartaz está errado. A sessão é às 18.30!

 

11
Mar14

Beber e criar

Maria do Rosário Pedreira

Contaram-me que, num programa de televisão (Prós e Contras, apresentado por aquela senhora a quem falta algum savoir-faire), uma qualquer miúda tonta, querendo defender as praxes universitárias, terá dito que também os jornalistas principiantes eram praxados e supostamente obrigados pelos colegas mais velhos a uma bebedeira de absinto (estou a contar o que li, pode não ter sido exactamente assim). Acredito que a vertigem do absinto, bebida por excelência dos simbolistas, com o seu altíssimo teor alcoólico, tenha ajudado à criação de algumas belas páginas de Verlaine ou Mallarmé, mas nunca me constou que tivesse sido útil aos que escrevem diariamente em jornais e têm de trabalhar as mais das vezes sob pressão e em resposta rápida a um acontecimento preciso. Nem sequer tenho ideia de que nas redacções haja o costume de consumir em horário de trabalho bebidas alcoólicas inspiradoras ou causadoras de um certo relax espiritual. Mas eis que leio numa breve coluna de um diário português que determinado grupo de comunicação social pretende instalar o hábito de soprar o balão por parte dos funcionários à entrada nas suas instalações. Desconheço se a iniciativa tem por base alguns amargos de boca (suponho que o absinto nem seja assim tão amargo) decorrentes de notícias esparvoadas provocadas por eflúvios alcoólicos, mas, a menos que o actual absinto também já venha bastante adulterado, custa-me a acreditar, de tal modo a prosa que hoje leio nos jornais é devedora de voo literário...

10
Mar14

Porto sem livros?

Maria do Rosário Pedreira

E pronto: pela segunda vez, desde que me lembro de trabalhar na edição, o Porto vai provavelmente ficar sem feira do livro. Até já me tinham dito que em 2014 o certame voltaria à Rotunda da Boavista, sítio adequado e bonito, mas, de repente, leio no jornal que, afinal, a realização da feira foi suspensa por quebra de confiança e, porque não dizê-lo?, por falta de garantia de apoio financeiro por parte do município. No ano passado, apesar de ser de Lisboa e ter feira assegurada no Parque, esperneei: tenho muitos autores do Norte, alguns até da própria Invicta, e amigos leitores a quem ficaria mais cómodo ir à feira lá em cima; além disso, não conseguia perceber bem porque eram necessários à APEL 75 000 euros para se armarem uns pavilhões numa avenida, colocarem umas mesas para autógrafos e venderem uns livros. Mas depois explicaram-me que não estava a ver bem a coisa, que, para lá da verba da inscrição (não tão pequena como isso), a maioria das editoras tem sede em Lisboa e, como tal, tem de fazer transportar (com custos nada desprezíveis) não apenas muitos livros, mas também os próprios pavilhões e, em certos casos, igualmente o pessoal que vende e toma conta das faltas. Esses, deslocados da cidade onde moram, têm de dormir em qualquer lado (nem que seja uma pensão barata, três semanas podem perfazer um valor jeitoso) e comer, pelo menos, duas refeições por dia. Deslocá-los, seja de carro ou de comboio, custará dinheiro. E, se eu quiser ir mais longe, posso até imaginar que as contas de telemóvel de alguns sobem bastante, com pais e mães a quererem saber dos filhos que ficaram em casa – longe, portanto. Enfim, bem vistas as coisas, talvez esses 75 000 euros «reclamados» ao município nem sejam um montante tão exagerado como ao início possa parecer, sobretudo pensando nas pequenas e médias editoras, que dificilmente poderiam, sozinhas, bancar tanta despesa. Mas, enfim, espero que a coisa ainda se resolva e alguém abra os cordões à bolsa para que haja livros este ano também a norte.

 

P.S. Já depois de ter escrito o post, li isto, o que podem ser boas notícias:

http://www.jn.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Porto&Concelho=Porto&Option=Interior&content_id=3720793

 

07
Mar14

Aldina Duarte

Maria do Rosário Pedreira

Hoje vou abrir um parêntese nesta coisa dos livros e aproveitar o post para dar os parabéns à grande fadista Aldina Duarte, que comemora 20 anos de carreira com um concerto (na verdade, dois, porque amanhã há outro) na Culturgest, em Lisboa. Mas é um parêntese muito ténue, garanto, porque a Aldina, que se tornou uma grande amiga e para quem eu tenho o maior prazer em escrever (tenho feito letras para ela desde que nos conhecemos), é uma leitora invulgar – que lê ensaio, que lê poesia, que lê ficção, que não vive sem um livro dentro da mala, vá para onde for, e que tem uma enorme ânsia de saber (passa, aliás, muitas horas em livrarias à procura de livros mesmo difíceis de encontrar). Quando vai jantar a nossa casa, a primeira coisa que a Aldina faz é vasculhar todos os livros novos que temos em cima da mesa e ainda não arrumámos e, se não conhece um ou outro, quer logo saber tudo acerca dele. Por causa do seu amor pela literatura, neste que é o seu 20.º ano de carreira, a Aldina e eu resolvemos trabalhar juntas num projecto que dará origem ao seu próximo CD, a sair lá mais para o fim do ano: nada mais, nada menos do que um «romance» em fados (uma espécie de literatura musical, portanto). Tendo como base as melodias do fado tradicional, conta-se uma história de amor de fio a pavio (e nesta há um triângulo, para criar mais intriga), através de quadras, quintilhas, sextilhas, decassílabos, alexandrinos, fados com refrão e sei lá que mais, que a Aldina nisso não facilita e obrigou esta sua letrista a um enorme leque de «espartilhos». Mas, até o CD estar disponível, espero que este ano de comemorações corra bem à Aldina (ela merece) e que continue sempre a ler e a cantar para todos nós. Parabéns!

06
Mar14

Afinal, havia outra

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há tempos queixei-me de que não havia em Lisboa nada como o Café Pinguim do Porto, onde há muitos anos se declama poesia (aliás, aproveito para agradecer aqui ao Eduardo Leal a oferta da Antologia dos Poetas da Cave nas últimas Correntes, obrigada!). Logo no dia seguinte a ter publicado o post, recebi uma mensagem via Facebook informando-me de que estava enganada e no Teatro Cinearte: A Barraca, ali a Santos, se diz poesia todas as quintas às 22h30 e já vão na 70.ª sessão (perdão, não sabia mas prometo ir quando puder). E um dia destes, no jornal Público, num artigo sobre a «nova moda» das tertúlias em Lisboa, descubro que também no Bar do Teatro Rápido, ao Chiado, se lê poesia à quinta-feira (embora aqui as leituras sejam espontâneas e, portanto, nunca se saiba o que se vai ouvir, mas também, como diz o organizador, «aqui não há pedestais»). No Povo, um bar do Cais-do-Sodré, há igualmente leituras de poesia às segundas (e fado todos os dias), pelo que a leitura de poemas é habitualmente acompanhada de música, o que fica sempre bem. De um género mais performativo (com cenário, actores e tudo), a poesia tem também voz no Café Zazou, perto da Sé, onde desde Setembro do ano passado há dias dedicados à leitura (também de contos). Afinal, havia outras, e eu é que estava «desinformada»…

05
Mar14

Balanço

Maria do Rosário Pedreira

Foi bom estar nas Correntes d’Escritas mais um ano, mas não é muito fácil transmitir a quem não esteve o que por lá se passou. E eu também já não tenho a memória antiga, nem me muni de um caderninho para tomar notas em todas as mesas (mas desde já prometo fazê-lo para o ano). Tenho, porém, de confessar que há esperança, pois a maioria dos escritores jovens e estreantes no encontro se portaram à altura, tendo sido um grande prazer escutar as palavras de Patrícia Portela, João Ricardo Pedro, Ana Margarida de Carvalho, Inês Fonseca Santos ou Joana Bértholo. Ou seja, vamos ter gente nova a escrever coisas inteligentes por muitos anos e isso é a melhor notícia. A conferência inaugural, com sala à cunha para ouvir Adriano Moreira falar de pé (com noventa e tal anos, recorde-se), também foi um sucesso – e não esquecerei algumas das suas afirmações, como «o poder da palavra desafia a palavra do poder», «a lei não resolve problemas, inventa-os» ou «temos mais estatística do que sabedoria». Adorei as piadas à solta, porque estamos necessitados de rir, e os discursos que chamaram lágrimas sem demagogia. E, para coroar tudo, apanhei no ar uma frase que fecha o post de hoje e tem que se lhe diga. É de Unamuno: «Um pedante é um estúpido adulterado pelos estudos.»

03
Mar14

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Mais ou menos na mesma altura em que me pedem uma mini-entrevista sobre a importância dos clássicos da literatura, deito a mão a um clássico alemão, Mário e o Mágico, uma das novelas italianas de Thomas Mann, menos conhecida do que Morte em Veneza, porque esta teve filme – e que filme! –, mas não menos interessante. Com muitos curiosos pontos de contacto com outros livros que têm por cenário estâncias balneares (A Ilha, de Sándor Márai, A Ilha, de Giani Stuparich, ou mesmo a parte inicial de O Diletante e a Quimera, de Pedro Medina Ribeiro), Mário e o Mágico tem a sua acção centrada numas férias de Verão em finais dos anos 20 e foi publicado originalmente em 1930. A bela Itália é o destino de lazer de uma família alemã (pai, mãe e casalinho de filhos), que suporta mal o calor de Agosto em Torre Venere e as atitudes dos burgueses e aristocratas locais algo xenófobas e nacionalistas. Porém, apesar de terem vontade de regressar (melhor, de não ter chegado a ir), a verdade é que vão ficando, porque as crianças aproveitam o sol e a praia e, enfim, não faz sentido estragar-lhes as férias. A tragédia, contudo, anuncia-se logo nos primeiros parágrafos, e acontecerá durante um espectáculo de prestidigitação, cuja vedeta se comporta como um ditador, capaz de manipular e humilhar o público; um ditador que é tão-só uma alusão à ascensão de Mussolini e do fascismo italiano e ao momento em que, abdicando da sua individualidade, os homens passam a agir como títeres e a aceitar o que lhes é imposto. Narrado como uma conversa entre o veraneante e um interlocutor desconhecido, esta é uma novela sobre como certos comportamentos privados podem levar ao estabelecimento de regimes totalitários.

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