Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

05
Mai14

Lusofonia

Maria do Rosário Pedreira

Recentemente, ouvi Adriano Moreira elogiar a criação da CPLP e, porque sou tímida quando se trata de intervir em sessões com muito público, não tive coragem para lhe perguntar qual era agora a sua opinião sobre a entrada da Guiné Equatorial na dita comunidade (que eu saiba, lá não se fala português). Já me parece mais simpática a deliberação do Parlamento Galego para que a língua portuguesa seja introduzida no ensino com vista a estreitar laços com a lusofonia, uma vez que galegos e portugueses falam variantes muito próximas de uma mesma língua ancestral. A proposta, que visa introduzir de forma progressiva o estudo do português em todos os níveis de ensino, foi votada, de resto, favoravelmente por todos os partidos com assento parlamentar e terá nascido, o que é ainda mais interessante, no seio da sociedade civil, que conseguiu as assinaturas necessárias para levar o assunto ao Parlamento (deviam estar fartinhos de o castelhano estar a tornar-se a língua dos galegos mais novos, por causa da escola e da televisão). Curioso ainda é o facto de o domínio do português passar a ser tido em conta para a entrada na função pública na Galiza. Os galegos tomarão agora todas as medidas ao seu alcance para que as televisões e rádios portuguesas sejam vistas e ouvidas no seu território com o objectivo de formar os mais jovens (coitados, lá vão ter de levar com as terríveis novelas a toda a hora). É provável que estejam também a pensar nas vantagens da sua relação com o Brasil e Angola, mas lá que a Galiza é muito mais portuguesa que espanhola a falar, isso não se pode negar.

02
Mai14

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Interrompo um livro (um dia destes falarei dele) para deitar mão a um pequeno volume de José Cardoso Pires, vendido com o jornal Público, chamado Histórias de Amor e composto por alguns contos e uma novela. Um livro, apetece dizer, no qual é proibido beijar. E porquê? Bem, porque pertence a uma pequena colecção de obras censuradas pela PIDE e vendidas justamente com os sublinhados todos da censura por que passou (não a azul, senão teriam de ter sido impressas a quatro cores, mas ainda assim com toda a indignação expressa com riscos e pontos de exclamação à margem). O veredicto relativo a Histórias de Amor diz que o livro é «imoral» e que nele «o aspecto sexual é revelado indecorosamente». Nos dias de hoje, a afirmação quase dá vontade de rir porque, ao acompanharmos o texto, vemos que são os beijos que saem todos sublinhados, mesmo em frases nas quais a rapariga diz que nunca beijou ninguém nem o fará antes do casamento... Avessos à ternura, estes agentes da censura não suportam lábios, coxas ou nádegas, suor ou saliva, seja em que contexto for, e também assinalam a linguagem que crêem menos própria, mas que, no caso, são termos como «camandro» ou «do catano» (se fosse do Caetano, estaria bem, claro), bastante inocentes ao pé do «Fogo!» que os adolescentes hoje despejam a torto e a direito pela boca. Mas, abstraindo os cortes, ou por causa deles, vale a pena conhecer este livrinho do escritor que viria a fazer coisas notáveis.

Pág. 3/3