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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Jun14

Elogio à leitura

Maria do Rosário Pedreira

Já muitos leitores deste blogue leram o primeiro livro de João Rebocho Pais – O Intrínseco de Manolo – e até publicaram opiniões (boas) a seu respeito. Pois o autor volta agora à carga com um novo romance que é justamente um elogio aos livros e, nem que fosse só por isso, já merecia ser lido. A história é de novo terna e divertida: o protagonista deste Dizem Que Sebastião é um workaholic que descobre um belo dia ter perdido os amigos na voragem do trabalho; e, inspirado pelos casais que vê da janela do seu gabinete regressando a casa, decide convidar uma colega para um jantar romântico. Mas, como nada sabe além de estratégias de venda e mapas Excel, leva um arraso tão grande da rapariga que o seu coração acaba por ficar, também fisicamente, abalado; e, forçado a um período de repouso, aproveita-o – e muito bem – para se cultivar. Porém, se deixou os amigos pelo caminho, a quem pode pedir conselhos sobre leituras e mulheres? Lisboa está cheia de estátuas de escritores – e são esses que na verdade mais o ajudam, dando origem a conversas por vezes hilariantes. E, ao final de um ano, Sebastião – dizem – é um outro homem. Uma homenagem belíssima ao livro e à literatura portuguesa, este romance será também de grande inspiração para os leitores jovens.

 

12
Jun14

Partida ao meio

Maria do Rosário Pedreira

A Casa Fernando Pessoa meteu-me numa camisa de doze varas, mas agora já não há como recuar. Amanhã, pelas 17h30, participarei numa conversa no âmbito do Congresso de Fernando Pessoa – e, diga-se de passagem, irei dividida ao meio. Trata-se de juntar a uma mesma mesa uma espécie de gente a dobrar, ou seja, intervenientes que, além da escrita, têm uma segunda actividade ligada aos livros que afecta (ou não) a sua produção literária. Editores, tradutores, antologiadores, serão prejudicados como escritores por fazerem o que fazem no dia-a-dia? A matéria onde metem a mão no quotidiano ajuda-os a alargar os horizontes da sua obra ou, pelo contrário, castra-a ainda mais? O tempo (que não têm) é um problema para os seus escritos, tantas vezes dentro da cabeça mas impossibilitados de serem passados a letra de forma? Como convivem na mesma pessoa as duas personagens? Bom, as minhas respostas dou-as lá, e se quiserem sabê-las é ir, meus senhores.

11
Jun14

Aproximar os autores dos leitores

Maria do Rosário Pedreira

Na minha adolescência, lia-se muito Dickens (quiçá por influência do cinema, pois todos os anos estava em cartaz Oliver Twist ou Scrooge); e, se hoje tivesse de escolher autores que têm tudo para fazer leitores, não hesitaria em referir Dickens, entre muitos outros. Mas, se vou a uma livraria portuguesa, tenho muita dificuldade em encontrar as obras do escritor disponíveis – e, se estava convencida de que o problema era nacional, descobri recentemente que os próprios britânicos se queixam do mesmo. Ao que parece, os jovens leitores ingleses andam desligados de alguns autores clássicos, como Jane Austen, as irmãs Brontë ou Oscar Wilde (e Dickens, claro), que não vêem como «gente real e que viveu, de facto, neste mundo». Por isso, a British Library resolveu tentar aproximá-los destes tesouros literários que correm o risco de cair no esquecimento, descarregando online cerca de 1200 manuscritos originais, primeiras edições, cartas e ilustrações feitas pelo punho de autores centrais na história da literatura, tornando-os acessíveis aos jovens para quem, hoje, só o digital conta. Vale tudo para fazer leitores.

09
Jun14

Livros proibidos

Maria do Rosário Pedreira

Mais ou menos em frente da primeira editora em que trabalhei, existia (e creio que existe ainda) uma livraria chamada Ler. O seu proprietário, Luís Alves (o filho é hoje dono da editora Bizâncio) foi um importantíssimo livreiro antes do 25 de Abril, pois disponibilizava livros proibidos a certos leitores da oposição, correndo obviamente grandes riscos. Também o fundador da Livraria Barata fazia, ao que sei, o mesmo na sua primeira loja, ainda pequenina, onde eu comprei muitos dos meus livros escolares. José Ribeiro teve papel semelhante (e foi preso por causa disso) naquele que hoje se chama o Espaço Ulmeiro, na Avenida do Uruguai, em Lisboa, e a importância das suas actividades clandestinas é referida no livro Uma Outra Voz, de Gabriela Ruivo Trindade, que ganhou, como vos disse sexta passada, a mais recente edição do Prémio LeYa. Por causa disso, a premiada e o livreiro resolveram organizar hoje uma sessão nesse espaço, recordando os perigos de um passado de censura e contando as histórias e episódios reais que inspiraram a narrativa de Uma Outra Voz. Lá estaremos depois do jantar, prontos para falar e ouvir. Se quiser, acompanhe-nos.

06
Jun14

Na Feira

Maria do Rosário Pedreira

Pouco mais de mês e meio sobre a saída de Uma Outra Voz, um romance que se desenvolve à volta de uma família e de um «patriarca» sem filhos na cidade de Estremoz – abarcando um século da história portuguesa e alguns dos seus principais episódios, da implantação da República ao 25 de Abril –, Gabriela Ruivo Trindade, a autora, que reside em Londres há cerca de dez anos, regressa à capital portuguesa para receber o Prémio LeYa; desta feita, a sessão vai ter lugar na Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII, e contará com o discurso do presidente do júri, Manuel Alegre, sobre a obra, mas também com a presença de Paes do Amaral, que entregará o galardão. Em pleno certame comemorativo do livro e da leitura, a Praça LeYa está «engalanada» para este acontecimento, que se realiza, para variar, de portas abertas. Vamos lá ver se os pregões que por vezes invadem o parque – farturas, queijadas de Sintra e gelados – nos vão deixar ouvir os discursos e se a enchente nos permite chegar até ao palco. No dia 12, aproveitando a sua permanência em Portugal, Gabriela Ruivo Trindade estará na Biblioteca José Saramago, em Loures, às 15h00, com Ana Margarida de Carvalho (autora de Que Importa a Fúria do Mar) para falarem das respectivas obras. Se quiser aparecer, não hesite.

05
Jun14

Porto-Lisboa

Maria do Rosário Pedreira

Hoje, enquanto os extraordinários leitores deste blogue estiverem a ler este meu post, eu estarei em viagem para o Porto, preparando-me para a primeira apresentação pública de Retrato de Rapaz, de Mário Cláudio, de que já aqui falei há cerca de duas semanas. O orador convidado é, desta feita, o brilhantíssimo Alexandre Quintanilha e, durante a sessão, que se realizará na Faculdade de Belas Artes da Invicta, será mostrado o único desenho de Leonardo da Vinci que existe em Portugal e é propriedade do museu daquela faculdade.

 

 

Amanhã, o lançamento será em Lisboa na Livraria Barata – e prevê-se outra bela apresentação pela escritora que não gosta de sol, mas adora a Grécia, Hélia Correia. A novela, um belo relato da relação entre Da Vinci e um seu discípulo ao longo de vinte e cinco anos, merece apresentadores como estes. E merece ser lida, evidentemente.

 

04
Jun14

Olá, palavras

Maria do Rosário Pedreira

Todos os dias ouço alguém queixar-se de que, sobretudo por causa do recurso a uma linguagem simplificada utilizada em e-mails e SMS, os nossos jovens têm um léxico cada vez mais reduzido. É também possível que não andem a ler livros sérios, desses em que se aprende um monte de palavras novas a que se chega por dedução ou consultando o dicionário sem preguiça. Mas existe um projecto de dimensão educativa e comunitária que visa aumentar o vocabulário dos mais novos e celebrar a palavra. É da responsabilidade da Escola Superior de Educação Jean Piaget, na cidade de Almada, e a ideia é convidar ilustradores e autores de literatura infanto-juvenil para contarem, durante hora e meia aos domingos de manhã, histórias às crianças da comunidade e, de caminho, conversarem com elas sobre palavras. Chama-se Olá, Palavra e teve como convidada da primeira sessão Catarina Sobral. Outros se seguirão.

03
Jun14

Lê-se? Lê-se

Maria do Rosário Pedreira

De há muitos anos a esta parte ouço meio mundo dizer que não se lê em Portugal. Admito que existem outros países com índices de leitura muito mais elevados, sobretudo na infância e na adolescência, mas, como se costuma dizer, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Leio, de resto, uma notícia no jornal Público sobre as quebras do mercado de entretenimento durante a crise e, ao que parece, foram os livros que melhor a aguentaram – caindo 1% no ano de 2013, enquanto o resto do sector (música, filmes, videojogos) encolheu cerca de 12%. Bem sei que as pessoas são hoje muito hábeis a rapinar da Internet filmes, músicas e jogos gratuitamente e que, de certa forma, os livros ainda estão, digamos assim, algo armadilhados, o que pode viciar os dados; além disso, entre os que gostam de ler, só 6% se habituaram já ao formato digital... Mesmo assim, a notícia diz-nos que um terço dos portugueses já lê regularmente e que o tempo médio dedicado à leitura é de cinco horas semanais. Comparado com o tempo gasto a ver televisão, talvez seja pouco, mas, se pensarmos bem, são resultados francamente melhores do que tínhamos há dez anos (sem crise) e mostram que cada vez mais gente compra livros. Que livros, não sei, e talvez seja melhor não saber para não ficar triste. Mas lá que se lê, lê.

02
Jun14

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Bem, para variar dos romances (mas nem tanto), dei comigo a ler um livro que me foi oferecido pelo autor, com dedicatória e tudo, e que, como é óbvio, ele sabia que me iria interessar (e muito). Chama-se O Futuro da Ficção e assina-o António-Pedro Vasconcelos que, além de cineasta, é um homem que lê muito, que acompanha os novos ficcionistas (apresentou o primeiro romance de João Tordo, por exemplo) e que pode falar da ficção em todas as suas formas – de Homero a John Ford – porque tem uma cultura muito sólida e abrangente e, desse modo, é capaz de relacionar períodos, escolas, formas artísticas… O seu ensaio, apesar de ter como título «O Futuro...», é, de resto, bastante retrospectivo e ensina-nos que os grandes períodos artísticos foram, ao longo dos séculos, extremamente curtos (o maior de todos durou cem anos, se tanto, mas os tempos geniais na música, na pintura ou na literatura foram, regra geral, bastante mais reduzidos; isto para dizer que é normal haver vazios criativos mais ou menos longos, em que nada que valha realmente a pena registar aparece (e faz bem as contas, de forma que é fácil dar-lhe razão). O problema é que, segundo APV, existe uma crise na criatividade mundial desde os anos 1980 – e a globalização não tem ajudado a corrigir a situação. O futuro? Bem, ou a situação trágica em que o mundo se encontra se tornará ainda mais trágica e desencadeará naturalmente um boom de imaginação (tem sido sempre assim, como o livro explica); ou vamos viver menos em pânico, mas provavelmente sem que nenhuma arte possa ser digna desse nome durante muito tempo (tanto como o vazio entre o fim do Império Romano e o Renascimento). Venha o Diabo e escolha... Leiam o livro, é muito mais do que aqui digo, claro. E aprendam como eu. E assustem-se também.

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