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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

30
Set14

Por mãos alheias

Maria do Rosário Pedreira

Agatha Christie é, provavelmente, uma das autoras que mais exemplares venderam das suas obras (milhões e milhões em todo o mundo). Com a sua morte, em 1976, desapareceram para sempre heróis como Miss Marple ou Hercule Poirot, igualmente celebrizados em filmes, alguns dos quais com grande sucesso de bilheteira. Os herdeiros não pareciam, de resto, interessados em ressuscitá-los, mas eis que uma romancista e poetisa de 43 anos, Sophie Hannah, admiradora da obra da grande senhora do crime, enviou para uma grande editora cem páginas de um original que tinha Poirot como protagonista… Mathew Pritchard, neto de Agatha, conta como a família se sentiu imediatamente arrebatada por esse início de romance e logo se apaixonou pela possibilidade de continuar a obra da sua avó. O livro, intitulado Os Crimes do Monograma, cuja acção decorre em 1929 e abarca três mortes num hotel de Londres, surgiu nas livrarias este mês, trinta e oito anos depois de ter sido escrito o último Poirot pela sua inventora (Crime Adormecido). A obra de Sophie Hannah já foi comprada para 50 países e será traduzida em 30 línguas, oportunidade para os amantes do detective matarem saudades… e os herdeiros de Agatha Christie somarem fortuna, claro.

29
Set14

Ler Saramago

Maria do Rosário Pedreira

Vem aí o romance inacabado de José Saramago, a obra que tinha em mãos quando a morte o apanhou e já não o deixou ficar connosco. Chama-se Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas (d’après Gil Vicente) e contém, além dos três capítulos concluídos pelo nosso Prémio Nobel da Literatura e de alguns apontamentos da sua autoria sobre o romance, ilustrações de Günther Grass e dois textos inéditos de homenagem: um de Roberto Saviano (jornalista italiano que é perseguido pela máfia) e o outro do poeta e ensaísta espanhol Fernando Gómez Aguilera. A obra é lançada publicamente no dia 2 de Outubro, no Teatro D. Maria II, ao Rossio, e nesse mesmo dia iniciar-se-á a Comunidade de Leitores «Ler Saramago», que terá uma segunda sessão no final do mesmo mês. Orientada por Maria Leiria, professora de Literatura, e a decorrer na Fundação José Saramago, sita na Casa dos Bicos, em Lisboa, desta feita a comunidade dedicar-se-á àquele que é tido muitas vezes como o melhor romance de Saramago (mesmo que o mais popular seja O Memorial do Convento): O Ano da Morte de Ricardo Reis. As inscrições estão abertas e o valor é de 15 Euros mensais. Para mais informações, contactem a responsável por e-mail ou telefone:

marialeiria@gmail.com

917 462 561

Boas leituras, com o novo romance ou com o velho.

26
Set14

Vegetarianismo linguístico

Maria do Rosário Pedreira

Cada vez conheço mais gente que deixou de comer carne. Reconheço que a carne, sobretudo a vermelha, não faz muito bem à saúde – e até como bastante peixe quando estou na Ericeira, porque lá é bom e fresco – mas não sei se estaria pronta para me alimentar apenas de vegetais, como algumas pessoas que conheço. Em todo o caso, a nossa língua também pode ser vegetariana e, mesmo assim, rica. Quanto a fruta, temos desde logo um homem bonito a quem se pode chamar um figo e que, para algumas mulheres, é um pêssego. Se esse homem usa uma barba reduzida, usa pêra, embora também possa levar um pêro se houver briga e a coisa azedar (o que não é pêra doce). Se nos deixa na mão, ficamos, pois claro, com um melão. Conhecemos pessoas de ginjeira, se as conhecemos bem. Um banana é um parvo, enquanto uma coisa aborrecida é uma pessegada. Todos temos maçãs no rosto e os homens ainda têm maçã-de-adão. Uma coisa de assombro é de escacha-pessegueiro (já tinham ouvido esta?) e, quando é simplesmente areia demais para a nossa camioneta, dizemos vulgarmente que é muita fruta. Com os legumes, o português é igualmente criativo. Uma pepineira é uma pechincha e o que é seguro são favas contadas. Anda-se à batatada quando há tareia. Pode ter-se cabeça de abóbora e de alho chocho. Os lisboetas são alfacinhas, os desajeitados são nabos, os ruivos são cenouras, os narizes grandes são pencas. Ficamos num molho de brócolos quando estamos de rastos (se calhar em virtude de nos termos metido numa alhada). Os tomates são o nome mais comum dos testículos. Ficar com os louros também é comum a quem rouba vitórias alheias. Se o nosso interlocutor não quer perceber o que lhe dizemos, podemos comentar: Olha, batatinhas… Um relógio grande é uma cebola e uma confusão é uma salada. Viram como podemos ser vegetarianos de vez em quando?

25
Set14

Ler na retrete

Maria do Rosário Pedreira

Em tempos que já lá vão, trabalhei numa editora que publicava em Portugal, por acordo com uma congénere brasileira, algumas obras cujos direitos mundiais para a língua portuguesa tinham sido adquiridos por esta última, inibindo uma edição em Portugal. Os mercados eram diferentes, bem sei, mas mesmo assim havia uma série de livros de auto-ajuda que vendiam muito dos dois lados do Atlântico (a série Marte & Vénus, de John Gray, cujo primeiro título tinha estado mais de 250 semanas seguidas na listas dos livros mais vendidos nos EUA). Foi num título desta colecção que li (como se ninguém o soubesse) que os homens e as mulheres eram diferentes e que havia coisas tipicamente femininas e tipicamente masculinas. Não se ofendam os leitores machos deste blogue, mas entre as últimas constava o hábito de levar revistas ou livros para a retrete... E, se falo disto, não é para insinuar que, ao contrário das mulheres, os homens confundem literatura com m..., mas apenas para abordar uma notícia que a Kobo, fabricante de dispositivos de leitura digital (os e-readers que a FNAC vende), recentemente divulgou: O novo Kobo Aura H2O é à prova de água! Ora, como não nos estou a ver a ler na praia enquanto nadamos, nem de garrafa de oxigénio às costas a consultar guias de peixes enquanto realizamos pesca submarina, pergunto-me para que serve realmente um e-reader à prova de água senão para esses acidentes que têm acontecido a alguns com os telemóveis – deixá-los cair sem querer na retrete em certas alturas menos próprias... Pois bem, os homens modernos e amantes da tecnologia já podem ler e-books à vontade na casa de banho sem medo de perder o resto do livro num momento de distracção.

24
Set14

A fúria do mar

Maria do Rosário Pedreira

No ano passado, entre outras novidades, tive o prazer que publicar o primeiro romance de Ana Margarida de Carvalho, jornalista da Visão que se atreveu à ficção e logo se viu que a devia ter escrito toda a vida, nem que fosse apenas dentro de si. Essa obra de estreia tinha como título um verso de uma canção de Zeca Afonso – Que Importa a Fúria do Mar – e recebeu, como merecia, encómios da crítica e dos leitores, sendo reeditada pouco depois, o que é um feito raro tratando-se do livro de uma autora até então desconhecida. O enredo dividia-se por dois tempos distintos – o da ditadura, com um protagonista enviado para o Tarrafal, e o presente, com uma jornalista que entrevista esse homem, agora velho, para um programa de televisão; e muito se poderia dizer desse encontro, mas nada substitui a leitura do romance. Em todo o caso, vai ser muito bom ouvir falar dele logo à noite, na Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira, numa sessão organizada por António Redol, filho do escritor Alves Redol, e apadrinhada pelo Museu do Neo-Realismo, na qual contaremos com a presença de Domingos Lobo a apresentar o livro. Se estiver por perto, não deixe de aparecer. Senão, leia o livro.

 

23
Set14

Brincar com o sério

Maria do Rosário Pedreira

Ter-me-ão explicado em tempos – possivelmente na Faculdade, já não sou capaz de me lembrar – que se era irónico quando se falava demasiado a sério de uma coisa irrisória, insignificante, ou quando se brincava com o que era realmente grave. Ironias à parte, há coisas com as quais, pelos vistos, ninguém deve brincar – e que o diga o escritor Martin Amis, cujo último romance, The Zone of Interest, é nada mais nada menos do que uma «comédia» sobre o Holocausto passada em Auschwitz. Pois bem: os seus habituais editores alemão e francês (a Hanser e a Gallimard) não gostaram, por certo, das «piadas» e recusaram-se a publicar a tradução do livro. E, embora tenha aparecido logo um outro editor francês disponível para o fazer (uma oportunidade de negócio, diria eu, com a polémica entretanto instalada), na Alemanha ainda ninguém fez o mesmo, quiçá deixando o britânico com um livro por traduzir num país onde a sua obra tem estado sempre representada. Alguns críticos ingleses pensam que The Zone of Interest é o melhor livro publicado no Reino Unido nos últimos vinte e cinco anos (mas os ingleses devem ser muito mais receptivos a um certo tipo de humor do que outros povos, digo eu), mas o editor alemão achou-o simplesmente «demasiado frívolo». Martin Amis crê que não perceberam a obra, mas está visto que o assunto nela tratado e as suas personagens (os comandantes de três campos de concentração, um dos quais quer que a Alemanha perca a guerra) gerou mal-estar... Resta ver se em Portugal o editor de Martin Amis se pronuncia contra ou a favor.

22
Set14

Primeira e última

Maria do Rosário Pedreira

Há mais de dez anos, publiquei um livro de um então jornalista do Expresso, Orlando Raimundo, baseado num grupo de reportagens que ele escrevera para o jornal e cujo denominador comum era Marcello Caetano. O ensaio central dessa obra contava uma história pouco conhecida: a da sua filha Ana Maria que, por causa da doença nunca publicitada da mãe, teve de fazer as vezes de Primeira-Dama ao lado do pai, renunciando a uma vida própria e até a um casamento que já estava agendado. Mas nessa altura Orlando Raimundo não disse tudo o que sabia e, com o tempo, investigou também sobre outros assuntos directamente relacionados com o último Presidente do Conselho do Estado Novo, refazendo a obra e acrescentando-a de forma significativa, de modo a torná-la um ensaio biográfico de Marcello Caetano muito vivo; nele aprenderemos tudo sobre as suas origens, as ajudas que recebeu no período de formação (de um homem de esquerda, o que é muito curioso), a história de amor com Teresa Barros – a mulher que sofria de um distúrbio grave –, o grupo de pressão que o ajudou a chegar ao poder e também o seu posicionamento em relação a África e à manutenção das Colónias. Com uma linguagem simples e factos pouco conhecidos da maioria do público – como a identidade do noivo de que Ana Maria Caetano teve de desistir –, A Última Dama do Estado Novo e Outras Histórias do Marcelismo é uma obra fundamental sobre a nossa história recente.

 

19
Set14

Centenário

Maria do Rosário Pedreira

Comemora-se este ano o centenário do nascimento de um dos maiores escritores argentinos do século XX, Julio Cortázar, conhecido sobretudo pelo original Rayuela (romance experimental de 1963, traduzido e publicado em Portugal com a chancela da Cavalo de Ferro) e pelos seus contos especiais e marcantes. Descrito por Carlos Fuentes como o «Simon Bolívar do romance», Cortázar – apoiante da revolução sandinista, de Fidel Castro e de Salvador Allende – foi perseguido nos anos 1940 na Argentina pelos peronistas e exilou-se na Europa, tendo vivido em Paris e trabalhado para a UNESCO como tradutor. De tal modo a sua prosa era requintada e original que, já em criança, a própria mãe desconfiou de que o rapazinho copiava o que escrevia... Mas não, o filho era mesmo um génio e os tempos acabaram por trazer-lhe o reconhecimento que merecia. Este ano haverá, pois, em várias partes do mundo um sem-número de celebrações dos cem anos do seu nascimento, entre as quais se destaca uma grande exposição, Los Otros Cielos (o título é roubado a um dos seus contos), no Museu Nacional de Belas-Artes de Buenos Aires, que constituirá uma retrospectiva da vida do escritor com base nos arquivos que deixou – correspondência, fotografias, filmes e até móveis – e espera milhares de visitantes. Paralelamente, estarão igualmente expostos retratos do escritor realizados por vários fotógrafos profissionais e haverá debates e conversas à volta da sua obra um pouco por todo lado. Em Portugal, a revista Blimunda da Fundação José Saramago dedicou o seu número de Agosto ao autor argentino. Se não o conhece, esta é uma boa altura para começar a lê-lo.

18
Set14

O vão regresso

Maria do Rosário Pedreira

Não se ganha o Nobel da Literatura só porque sim – tem de haver nas obras do vencedor algo de francamente original e inovador (como agora se diz a torto e a direito, «fracturante»). Foi o que senti ao pôr os olhos no romance de estreia de Faulkner, A Recompensa do Soldado, um livro de 1926 que ainda hoje, apesar de algumas fragilidades, permanece moderno e deixa adivinhar a tal fractura que deve ter representado na época, com os seus jorros enérgicos de frases estranhas e inesperadas. O assunto é, grosso modo, o regresso de um soldado americano (o tenente Mahon) da Primeira Guerra Mundial – diminuído, cego, com uma terrível cicatriz na testa que o desfigura e mentalmente perturbado (e, curiosamente, ainda há quem tenha inveja do senhor por, ao contrário dele, ter voltado incólume, sem qualquer marca de heroísmo). Acompanham-no a casa dois «pajens» – a viúva de um outro soldado (mas só foi casada três dias, pelo que o desgosto não é significativo) e Gilligan, o cabo que se encarrega de trazer Mahon ao lar paterno (até porque é o único que parece não ter aonde regressar). Em casa, o pastor que é progenitor do soldado ferido – e que o julgava morto – não acredita que ele não possa recuperar e aposta tudo no casamento de Mahon com a noiva que tinha antes da guerra (que, além de estar já apaixonada por outro, não consegue enfrentar a ferida horrível do ex-namorado e anda literalmente maluca, sem saber o que fazer). Mas muita água correrá ao longo do romance – e vários são os intervenientes que se darão a conhecer na sua relação com o morto-vivo, o passado e até o futuro, numa narrativa que é sempre pujante e surpreendente. Em tempo de centenário da chamada Grande Guerra, não há como fugir à recompensa desta leitura.

17
Set14

Os sapatos de Agustina

Maria do Rosário Pedreira

Todos temos certamente saudades de ouvir falar de Agustina e de a ouvir a ela. Mas, enquanto não podemos fazê-lo, resta-nos prestar-lhe homenagem lendo o que escreveu. A Fundação Calouste Gulbenkian prepara-se para publicar, numa edição única com o título O Elogio do Inacabado, cinco manuscritos inéditos da senhora do Norte – que nos presenteou, entre outras obras-primas, com A Sibila –, precedidos por um prefácio da académica Silvina Rodrigues Lopes. A propósito desta notícia, não resisto a uma pequena história fútil. Não sou consumidora de alta-costura: primeiro, porque não tenho dinheiro; segundo, porque não tenho medidas (sou baixa e calço 35); terceiro, porque muitas das farpelas que por aí desfilam simplesmente não são vestíveis por ninguém com uma vida normal. Mas, curiosamente, houve uma coisa interessante sobre moda que aprendi com Agustina Bessa-Luís uma vez em que partilhei a sua companhia na Suíça. Estávamos num festival literário em Genebra e ela convidou-me para me juntar a ela e a Lídia Jorge numa visita ao centro da cidade. Eu desconhecia que íamos às compras e só o percebi quando ela repudiou a companhia de um macho-escritor que se preparava para ir connosco. A verdade é que Agustina trazia os catálogos dos grandes costureiros todos assinalados com o que queria ver e experimentar e, entre esses itens, estavam uns sapatos muito bonitos, uma criação Ferragamo. Entrámos na loja da marca e a escritora mostrou o que queria e disse que número calçava (se a memória não me falha, o 37). Quando a funcionária trouxe os sapatos, Agustina descobriu, porém, que lhe estavam um pouco apertados (o seu pezinho é gorducho) e calculei que a empregada se propusesse simplesmente trazer-lhe o número acima. Mas eis que, na alta-costura, para o mesmo comprimento de pé existem sapatos com a base estreita (para pés delgados) e com a base mais larga (ideais para os pés da nossa escritora). Uma grande ideia, claro, mas reservada apenas às lojas boas e caras. Com Agustina, enfim, aprende-se sempre qualquer coisa.

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