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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Nov14

Guerras de palavras

Maria do Rosário Pedreira

Deixei passar duas semanas desde o post «Parentescos» – e pode até parecer que quis pensar no assunto (o que não é inteiramente falso) mas, por acaso, não foi só isso. A verdade é que tive um problema com o meu computador profissional durante vários dias e, sempre que punha o endereço do Horas Extraordinárias, aparecia-me um post antigo e, quando a coisa se parecia ter resolvido, o post era o do dia, mas os comentários estavam escondidos. Só quando chegava a casa podia lê-los, mas nessa altura estava demasiado cansada para me meter ao barulho e sabia que provavelmente também os autores dos comentários já não regressariam ao blogue àquela hora. Mas fiquei a matutar em algumas coisas, achando que mereciam, apesar de tudo, uma achega. Então, aqui vai:

 

  1. Os concorrentes ao Prémio LeYa fazem-no sob pseudónimo. Abre-se apenas o envelope do premiado (depois de o júri decidir qual o original vencedor, vai buscar-se o envelope correspondente). A escolha é, portanto, cega. Basta, de resto, o número de escritores desconhecidos que o têm ganho para o comprovar. Depois de aberto o envelope, o presidente do júri, Manuel Alegre, telefona ao vencedor e dá-lhe a boa notícia. Suponho, embora nunca tenha assistido, que conversem ambos uns minutos e que desta conversa surjam elementos curiosos, engraçados ou mesmo dramáticos. A seguir é feita a divulgação oficial, com a presença da comunicação social, que faz perguntas aos jurados sobre a obra e sobre o vencedor. Os jurados respondem. (O tratamento dessa informação é da exclusiva responsabilidade de quem o veicula.) Posteriormente, é publicada a lista de obras finalistas (com o respectivo pseudónimo) no sítio da LeYa. Os finalistas normalmente acusam-se, até para saberem se o seu livro vai também ser publicado (nem sempre é). Todos os restantes originais e envelopes vão para o lixo (não muito depois, porque ocupam quase uma sala inteira e essa sala é precisa). Concordo que os livros vencedores devem valer pelo seu conteúdo, e não por qualquer circunstância relativa ao autor (refiro-me aos comentários sobre o «desempregado» ou «o trineto de Eça»), até porque, quando o júri os escolheu, não sabia se os seus vencedores estavam empregados nem de que família eram. Porém, se a informação veiculada sublinha pormenores irrelevantes, parece-me que é porque não pode falar do que importa – o livro – uma vez que este ainda não foi publicado.
  2. Quanto à minha condição de editora e aos meus autores, coisa que lançou muito azedume entre defensores e atacantes, quero explicar que nunca me achei uma editora de excelência (se o fosse, acertaria sempre – e falho muita vez); que tenho um enorme carinho pelos meus autores e admiro o seu talento, mas que há muitos escritores que não são «autores da Rosário» de que gosto e que considero tão ou mais talentosos do que os meus; que ser «autor da Rosário» é, segundo se leu nos comentários, um pau de dois bicos e, portanto, não necessariamente vantajoso (às vezes os autores que publico apanham por tabela); que, ao contrário do que aqui se escreveu, os meus autores também não são «os mais populares» (a grande maioria, pelo menos, embora alguns autores de quem publiquei os primeiros livros sejam hoje muito populares), até porque normalmente só se é popular ao fim de várias obras, prémios, distinções, etc.
  3. Quanto a este blogue, nunca o anunciei como literário (o prémio que me deram não é da minha responsabilidade e, antes de mim, foi ganho por outros blogues igualmente não literários; talvez seja o nome do prémio, enfim, o que está errado), mas um espaço para falar de livros e de coisas a eles ligadas (como a edição).Se falo mais dos livros que publico do que dos de outras editoras, é também porque as minhas horas extraordinárias são poucas para ler outras coisas além das do trabalho; mas basta ir ao arquivo para ver que já falei de muitos livros que não são da LeYa, omitindo apenas aqueles de que não gostei, porque me parece pouco ético falar mal de livros da concorrência e, por outro lado, o objectivo deste blogue é partilhar horas extraordinárias, e não horas más (aliás, também nunca refiro livros da LeYa de autores de que não gosto, só faço «publicidade» àquilo de que gosto).
  4. Por último: neste blogue há espaço para todos os que quiserem vir, gostem de mim ou não, mas não é preciso – diria eu – insultar ninguém nem perder as estribeiras. Nunca limpo os comentários contra mim, já aqui o escrevi uma vez, mas limpo os que considero demasiado ofensivos para algum comentador, e tive de eliminar um no post que gerou esta minha explicação, porque era mesmo reles.

 

Obrigada, em todo o caso, por me darem assunto para um post (nem sempre tenho ideias boas). E já me alonguei tanto que hoje me vou dispensar de responder a comentários. Até segunda e bom fim-de-semana.

13
Nov14

Ler e sobreviver

Maria do Rosário Pedreira

Sabe quem lê que a leitura só traz benefícios, até porque aprender é maravilhoso. O que não é fácil é convencer disso quem diz que não gosta de ler e quem nunca experimentou porque lhe cheira que implica esforço e trabalho e não acredita na recompensa. Faz-se de tudo pelo mundo fora – e desta feita o Canadá montou uma campanha nacional em colaboração com a CBS Books para mostrar que a leitura traz saúde. Construído um gráfico atraente que foi colado por tudo quanto é sítio, nele podemos ver que quem tem hábitos de leitura goza claramente de melhor saúde física e mental, além de provocar mais facilmente empatia nos outros; que bastam seis minutos de leitura atenta para reduzir o stress em 60%, diminuir a tensão muscular e acalmar os batimentos cardíacos; que, para acabar com o stress, a leitura é de facto muito superior a tomar um chá, ouvir música e, principalmente, jogar videojogos. Enfim, além de que ler um livro de que gostamos é uma sensação de deslumbramento incomparável e que saber mais dá muitíssimo gozo (e a felicidade dá saúde também). Agora, quando vejo gente muito mal-encarada, pergunto-me logo se serão não-leitores... O cartaz, se quiserem ver, está no seguinte link:

 

http://www.teleread.com/reading-2/canadas-national-reading-campaign-shows-reading-good-body/

12
Nov14

Mania de escritor

Maria do Rosário Pedreira

A minha avó costumava dizer que cada maluco tem a sua mania. Pois bem, não querendo chamar malucos aos escritores, leio num blogue que vários autores tinham idiossincrasias e que a escrita de um livro obedecia a uns quantos tiques. Nabokov, por exemplo, escrevia com lápis (o que não o fez apagar cenas que nos EUA foram consideradas chocantes – Lolita foi publicado originalmente em França), objecto usado igualmente por Hemingway que só depois do primeiro rascunho passava à máquina de escrever. O lápis era também a ferramenta de escrita de Steinbeck, que trabalhava com caixas de 24 lápis e terá, ao que parece, gasto 300 lápis para concluir A leste do Paraíso. Entre os aficionados da tinta permanente estão Simone de Beauvoir, Dylan Thomas ou o escritor de livros de terror Stephen King – que usa desde sempre um modelo da marca Waterman. Dickens preferiu a cor preta até 1840, após o que passou a escrever a azul. Mark Twain fabricava os seus próprios blocos, enquanto Jack Kerouac tendia a escrever em cadernos escolares. Cormac McCarthy era um adorador da máquina de escrever Olivetti, e o seu último exemplar (imagino que se tenha rendido aos computadores) foi leiloado por mais de 250 000 dólares! Eu só escrevo a preto e aprecio muito as macias Uni-Ball Eye; além disso, tenho sempre um daqueles minicadernos na mala para ir apontando coisas de que me vou lembrando. Qual é a sua mania?

11
Nov14

Com o rei na barriga

Maria do Rosário Pedreira

Nesta profissão que escolhi – e que, em boa parte, está ligada ao talento alheio – encontrei pessoas de todos os géneros e feitios. Com algumas, foi muito fácil trabalhar – e nem se pode dizer que eram mais humildes (não, o ego estava lá), mas eram seguramente mais abertas e inteligentes; noutros casos, o trabalho foi sempre acidentado, com curvas apertadas e lombas permanentes, obrigando frequentemente a frustração, cedência e, uma vez ou outra, mau génio ou tristeza da minha parte. Aqui e ali, sobressaiu um desejo cego de se ser admirado pelo público, não um desejo normal que deve ser comum a todos os criadores, mas uma vontade quase doentia de reconhecimento (poucas vezes, claro, mas inesquecíveis). Eu, que sou principalmente leitora, nunca me prestei muita atenção como escritora. Claro que me magoo com certas reacções, mas sou, acho eu, bastante discreta quanto à minha obra (há até quem diga que não a levo a sério, mas não é verdade). A minha mãe, por exemplo, ofende-se quando não a previno de uma entrevista que fui dar à televisão, entrevista essa que apanhou por acaso e já a meio. Pois há uns dias, num desses momentos em que estava irritada com alguma coisa e não me conseguia concentrar em mais nada, pus-me a jogar uma daquelas paciências com cartas de jogar no computador e, quando terminei o primeiro jogo, saltou um quadrado a meio do ecrã a dar-me os parabéns por ter cumprido, a dizer-me qual era a minha pontuação e a oferecer-me uma estranha possibilidade: Tell friends. Contar aos amigos que fiz uma paciência? Para quê? E de repente lembrei-me de algumas pessoas que no passado se cruzaram comigo nesta profissão e que dariam tudo para «tell friends» qualquer merdilhice de que fossem capazes... Enfim, cada um é como cada qual.

10
Nov14

A várias mãos

Maria do Rosário Pedreira

No tempo do surrealismo, inventou-se em França uma espécie de jogo literário que, apesar da tradução defeituosa (exquis quer dizer de sabor refinado, requintado, e não esquisito), ficou conhecido entre nós como «cadáver esquisito». Um poeta escrevia um verso numa folha de papel, dobrava-a, escondendo o texto, e passava a outro, que fazia o mesmo; no fim, tinham um poema colectivo (e certamente surrealista). Por cá, tivemos experiências baseadas neste princípio do texto a várias mãos, mas com o texto à vista, e lembro-me por exemplo de Alice Vieira, João Aguiar, Leonor Xavier e Rosa Lobato Faria terem participado num livro intitulado Treze Gotas ao Deitar (não me recordo dos outros autores) que, na verdade, era uma só história com cada capítulo escrito por seu autor. Mas parece que agora quinze escritores internacionais de renome foram desafiados a, e aceitaram, brincar ao cadáver esquisito, escrevendo uma pequena história comum. Entre eles encontramos autores mais literários, como Zadie Smith (conhecida sobretudo por Dentes Brancos ou Uma Questão de Beleza) ou Nicholson Baker (um escritor muitíssimo «fora do baralho» que escreveu, entre outros, um livro muito original cuja acção decorre enquanto um pai dá um biberão à filha, Room Temperature) e autores de ficção mais comercial, como David Baldacci (um inventor de thrillers) ou R. L. Stine (o popular criador da série juvenil Rua do Medo, não sei se se recordam, que entrou para o Guinness por ter vendido mais de 400 milhões de exemplares de obras suas). Não consigo imaginar o resultado que isto vai dar, mas tinha alguma piada fazer uma coisa parecida com portugueses que estivessem para aí virados.

07
Nov14

Um pecado em Sines

Maria do Rosário Pedreira

Nesta altura do ano, todo o tempo é pouco. Há muitos livros que têm de estar prontos para o Natal, há que ler as obras finalistas do Prémio LeYa para ver se precisam de alindamentos para serem publicadas, preparam-se os primeiros livros do ano que vem já a pensar na maravilha das Correntes d’Escritas e multiplicam-se sessões de apresentação pelo País fora de quantas obras foram publicadas em 2014. Pois bem, embora eu não me costume mexer ao sábado para nada disto (na verdade, é quando tenho mais tempo livre para me dedicar ao presente blogue e reunir ideias para vários posts), também é bom dizer que a ocasião justificava o «sacrifício» por mais de um motivo. O primeiro é, evidentemente, o facto de a respectiva sessão ser organizada pelo grande Joaquim Gonçalves, não só um dos mais resistentes e lidos livreiros nacionais, mas aquele que arrecadou o prémio nacional do melhor atendimento aos clientes. Como recusar, pois, a viagem até Sines para o bonito convívio na livraria A das Artes, que sempre expõe na montra os livros que publico de autores mais jovens e menos conhecidos, mas que o Joaquim procura ler sempre para estar em dia com o que se vai fazendo literariamente em português? E, depois, o segundo motivo era também de peso: o autor em visita era desta feita o Norberto Morais, que ali vai falar amanhã de O Pecado de Porto Negro, um dos finalistas do Prémio LeYa em 2013, que tem vindo a conquistar cada vez mais leitores entusiásticos – e com quem eu ainda não tinha, realmente, ido a lado nenhum. Assim, amanhã lá partiremos direitinhos a Sines para pecarmos por lá durante a tarde. Tenho a certeza de que seremos muito bem atendidos pelo Joaquim e não sofreremos qualquer penitência. Se está por aquelas bandas, venha também.

 

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06
Nov14

Histórias de comer e beber

Maria do Rosário Pedreira

Já vos falei aqui ao de leve no novo livro de Paulo Moreiras, um autor que tem feito tudo e mais alguma coisa para dar expressão – e literária, claro – a algumas coisas que constroem a alma portuguesa e que estão pouco estudadas a todos os níveis. Já publiquei há uns anos uma obra do Paulo Moreiras sobre a ginjinha – e não lhe faltavam palavras sobre ela, o problema foi doseá-las, ou nunca mais acabava o livro. Mas há muitos outros produtos portugueses fascinantes que fazem parte da identidade nacional, mesmo que existam por esse mundo fora. É agora o caso do pão e do vinho, reunidos num notável volume chamado Pão & Vinho, que será esta tarde apresentado na Livraria Barata, pela jornalista e pessoa de bom gosto Helena Vasconcelos. Adivinhas, superstições, anedotas, excertos de obras literárias, curiosidades e até receitas, teremos certamente para nos deliciarem muitas histórias de comer e beber, como só Paulo Moreiras sabe contar. Apareça e será muito bem-vindo.

 

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05
Nov14

Tudo sobre a literatura americana

Maria do Rosário Pedreira

Se quer saber quase tudo sobre a literatura norte-americana, a partir do próximo dia 10 já tem como fazê-lo. À semelhança de outros anos, estão abertas as inscrições para um conjunto de sessões teórico-práticas que dão pelo nome genérico de Asas sobre a América (Ler Mais, Escrever Melhor), dedicadas a dois módulos distintos, cada um com dez sessões de 150 minutos. O primeiro abarca os Clássicos e contempla autores de poesia e prosa, como Walt Whitman, Edgar Allan Poe, Emily Dickinson, Ezra Pound, Raymond Chandler, Faulkner e Philip Roth; já o segundo vai tratar de autores contemporâneos, entre eles Lydia Davis, Cormac McCarthy, Don Delillo, Jonathan Franzen e David Foster Wallace. O método inclui dois tempos, um para ouvir falar dos autores e do seu universo literário, o outro para fazer exercícios de escrita criativa, desenvolvendo o potencial dos participantes a partir da relação estabelecida com o autor e as obras anteriormente abordados com a orientadora, a jornalista e escritora Filipa Melo. As sessões têm lugar em horário pós-laboral para facilitar as coisas. Se está interessado, os dados para a inscrição vão abaixo.

 

Valor de inscrição (por módulo): 70€

Inscrições através do email asasamerica@gmail.com ou pelo telefone 21.3935800

Local:

Auditório da FLAD, Rua do Sacramento à Lapa, 21, Lisboa

Módulo I: Segunda-feira, das 18h às 20h30 - 10/11/2014 a 26/01/2015

Módulo II: Quarta-feira, das 18h às 20h30 - 12/11/2014 a 28/01/2014

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04
Nov14

Encontro a norte

Maria do Rosário Pedreira

Li algures, não há muito tempo, que o facto de as livrarias tradicionais não terem aguentado o embate da indústria do livro e de terem, por isso, desaparecido muitos livreiros autênticos, em suma, os que sabiam, mudou claramente a forma de ler em Portugal e o nível e qualidade do que é lido. Perdidos entre capas às cores, com computadores substituindo pessoas conhecedoras da matéria, como poderão os leitores escolher bem e saber o que compram? Isso vicia naturalmente quem até podia ser um excelente leitor e acaba ganhando apego a coisas sem importância. Mas é bom saber que há livreiros que resistem e que sonham algo diferente da mediania. Eles reúnem-se habitualmente todos os anos em Setúbal, naquele que é conhecido por Encontro Livreiro, para premiar quem merece e discutir o futuro com os colegas de profissão. Este ano, porém, esta reunião acontecerá também no Porto, na tarde do próximo dia 23 de Novembro, em cenário indiscutivelmente bonito: a Livraria Lello, uma das mais belas livrarias de todo o mundo. É ali que se falará de tudo o que diz respeito ao livro e à sua comercialização, em lojas ou feiras, porque, como eles dizem, «Isto não fica assim!». Se quiser participar, consulte a página do Encontro Livreiro no Facebook ou o blogue deste movimento. Leve as suas ideias, se forem boas, e ouça as dos outros, dos que sabem.

 

https://www.facebook.com/pages/Encontro-Livreiro/196721297018707

 

http://encontrolivreiro.blogspot.pt/