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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

09
Dez14

Russos gratuitos

Maria do Rosário Pedreira

Nunca fui a Moscovo, mas visitei Sampetersburgo no final dos anos 1990 e fiquei absolutamente rendida à beleza do metropolitano. Dizem-me que em Moscovo é igualmente bonito – se não mais – e, assim mesmo, é possível acrescentar-lhe beleza com palavras. Como? Uma ideia gira! As estações de metro vão em breve disponibilizar uma biblioteca virtual de autores clássicos da pátria: as obras de Tólstoy, Pushkin ou Chékhov, por exemplo, poderão ser descarregadas pelos vários milhões de passageiros que viajam diariamente no metropolitano de Moscovo. O projecto está pensado para, em pouco tempo, ser também estendido aos eléctricos e autocarros da cidade, e os moscovitas estão a ser encorajados a aconselhar outros títulos  além dos primeiros cem que farão parte da iniciativa. Não é a primeira vez que o metropolitano de Moscovo se torna plataforma cultural, tendo tido já pequenas galerias de arte montadas nas suas várias estações, num diálogo artístico com o público que nem sempre tem tempo para visitar exposições. Ventos bons da Rússia dos nossos dias. Para variar.

05
Dez14

Herberto

Maria do Rosário Pedreira

Se nos perguntam lá fora sobre a poesia portuguesa, há um nome que nos vem aos lábios sem quase pensarmos: Herberto Helder. Se pedem que indiquemos o nome de um autor português que deveria ser proposto para um superprémio literário, dizemos logo Herberto Helder, embora sabendo que o recusaria (porque ele é mesmo assim). Herberto – como se lhe referem quase todos – pode ser um homem peculiar e difícil, mas julgo que se diverte muito a, de tempos a tempos, reformular a sua obra completa, oferecendo-nos um novo volume, que não é de modo nenhum o anterior acrescentado com o que escreveu entretanto, mas um livro do qual cortou o que quis que não voltássemos a ler e a que somou alguma coisa. Este gesto tem sido objecto de muita reflexão e crítica, mas tenho simpatia por um autor que decide sozinho sobre a própria obra e só permite que dela se leia o que, em determinado momento, lhe dá na gana (bem sei que tenho volumes anteriores da obra reunida e talvez por isso me sinta menos lesada do que muito boa gente). Isto para dizer que temos de novo uma antologia da poesia de Herberto Helder, desta vez com o título Poemas Completos. Um excelente livro cartonado de capa sóbria com 700 e tal páginas de poesia a não perder (e a guardar, pois pode desaparecer na próxima edição). Não sei qual foi a tiragem, nem se haverá uma espécie de caça doentia aos livros, mas lá que dava um bom presente de Natal, se chegasse até ao Natal, lá isso dava.

04
Dez14

Esquecidos

Maria do Rosário Pedreira

A minha amiga Aldina Duarte, fadista de profissão, é além disso uma leitora astuta, curiosa e experiente. Também escreve bem – não apenas letras para os seus fados e os dos colegas, mas num blogue que alimenta regularmente e a que chamou A Porta Estreita (o endereço vai no fim deste post para quem tenha curiosidade e queira ir lá espreitar). Pois bem, a Aldina – que é uma admiradora dos grandes – resolveu dedicar as sextas-feiras do seu blogue a uma rubrica intitulada não por acaso «Estranho Fulgor» (o título de um poema de Pedro Homem de Mello), na qual fala de gente que, sendo ultra-talentosa em variadíssimas áreas (cinema, literatura, pintura, música...), não tem (ou não teve) o reconhecimento que efectivamente merecia. Entre estes nomes estão artistas como o pintor Alvarez (que só expôs individualmente uma vez em toda a vida) ou a grande escritora Maria Judite de Carvalho que, voluntariamente ou não, ficou certamente atrás do marido, Urbano Tavares Rodrigues, no reconhecimento e na consideração que lhe eram devidos. Uma boa ideia, digo eu, contemplar os esquecidos num post e numa rubrica independentes, acompanhando-os de belos textos e imagens, para todos podermos acabar melhor cada semana.

 

http://aldinaduarte.blogspot.pt/

03
Dez14

A língua inglesa

Maria do Rosário Pedreira

Dizem que tivemos um Prémio Nobel da Literatura e que há-de passar uma eternidade até termos outro – mesmo que isso nada tenha que ver com o nível dos autores que estão vivos e a escrever no nosso cantinho; que as coisas são mesmo assim e que os países pequenos, como o nosso, só têm direito a um prémio internacional de peso muito de vez em quando. Pois um dia destes surpreendi um amigo ao dizer que a Irlanda, pequena e tudo, já tinha tido quatro Prémios Nobel da Literatura: o enorme (não estou a exagerar) William Buttler Yeats (para mim, um dos maiores poetas de sempre) em 1923, o dramaturgo George Bernard Shaw dois anos depois, Samuel Beckett em 1969 e Seamus Heaney em 1995. É bem certo que existiu um lapso de tempo bastante grande entre o segundo e o terceiro e entre o terceiro e o quarto – mesmo assim, a Irlanda pode dizer que já cá cantam 4 vencedores... País pequeno e tudo, a sua língua é o inglês – e talvez seja isso que a salvou de uma eventual falta de atenção internacional aos seus autores que, aliás, muitos não sabem realmente não serem ingleses. Há também quem diga que a Irlanda teria levado muito mais tempo a sair da crise se falasse outra língua. Será?

02
Dez14

Literatura brasileira

Maria do Rosário Pedreira

Portugal e o Brasil fazem esforços para se manterem irmãos, mas as suas literaturas parecem-me francamente de costas voltadas. Embora muitos autores portugueses tenham os seus livros publicados do lado de lá do Atlântico, exceptuando aqueles que já são considerados consagrados ou os que se distinguiram em festivais nos quais a sua presença foi notada e aplaudida, a verdade é que estes se vendem muito pouco. E a situação inversa – os autores brasileiros cá publicados – também não tem grandes resultados, mesmo que se trate de autores interessantes como Daniel Galera, João Paulo Cuenca, Bernardo de Carvalho, Paulo Lins ou Luiz Ruffato. Talvez as duas autoras que venceram o Prémio Literário José Saramago (Adriana Lisboa e Andréa del Fuego) tenham tido mais sorte; ainda assim, as suas obras não tiveram nem metade da exposição mediática que mereceram as dos seus congéneres portugueses (Gonçalo M. Tavares, valter hugo mãe, José Luís Peixoto...). Não sei quando se deu a cisão, mas diz-me a minha mãe que, nos anos 1960, não era assim, e Jorge Amado era, de facto, tão amado lá como cá. Quando lemos os clássicos brasileiros, também não descortinamos qualquer diferença linguística em relação aos portugueses da mesma época – e aí pode ter residido o segredo do interesse mútuo ao longo de anos. Não será, pois, má ideia começar por aí e, nesse sentido, interessa dizer que a editora Glaciar, com a colaboração da Academia Brasileira de Letras, acaba de lançar em Portugal uma colecção de literatura brasileira de referência. Os primeiros quatro volumes dizem respeito à obra de Machado de Assis, João Cabral de Melo Neto, Euclides da Cunha e Alfredo Bosi – numa edição luxuosa, mas indispensável a quem queira pôr-se em dia com o lado de lá.

01
Dez14

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Com meia tarde livre num domingo de trabalho atrasado trazido para casa no fim-de-semana, lancei mão ao mais recente romance de Milan Kundera (na verdade é tão pequeno que lhe chamaria apenas uma novela ou coisa assim), A Festa da Insignificância, título, de resto, belíssimo. A letra gorda ajuda a que as páginas corram depressa sob os nossos olhos, e pareceu-me ideal para quem, como eu, tinha pouco tempo. Conheci, pois, com muito prazer um grupo de homens maduros – Alain (que gosta de miúdas novas), Ramon (que não tem paciência para filas), D’Ardelo (que mente sobre o cancro que não tem), Charles e Caliban (que organizam cocktails em empresas ou casas particulares, entre elas a de D’Ardelo). Quando se juntam (sem D’Ardelo, que não é um amigo, embora os conheça), contam divertidas histórias de Estaline (Kundera sabe do que fala), têm saudades das respectivas mães e conversam, claro, sobre a insignificância, que um deles defende ser a essência da vida e estar presente, mesmo que nos recusemos a vê-lo, nas instâncias mais dramáticas da existência. Um livro com imenso humor que fala de coisas muito sérias, este A Festa da Insignificância talvez não mereça a celebração de alguns livros mais notáveis do escritor checo, mas vale ainda assim a pena ser degustado, sobretudo pela inteligência com que nos apresenta a vida contemporânea (e às vezes realmente insignificante).

 

a_festa_da_insignificancia.jpg

 

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