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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

27
Fev15

Clássico moderno

Maria do Rosário Pedreira

Depois do atentado em França contra os jornalistas do Charlie, publicaram-se centenas de artigos de opinião em todo o mundo, muitos dos quais citavam Voltaire. O autor francês veio à baila, por exemplo, num texto muito interessante de Adolfo García Ortega no El País (abaixo fica o link para quem queira ler), no qual era citada a sua peça de teatro O Profeta Maomé e o Fanatismo (traduzo livremente, pois não sei se existe uma tradução portuguesa da peça); e também, mais recentemente, num artigo de Teresa Salema no Público que falava (além de muitas outras coisas) de Cândido («é preciso cultivar o nosso jardim»). Mas nenhum livro de Voltaire foi mais citado do que o seu Tratado sobre a Tolerância; de tal modo que a edição de bolso da editora Gallimard (a única, pelos vistos, que circulava em França) esgotou, em alguns dias, 120 000 exemplares (bem sei que só custava 2 euros, mas mesmo assim) e foi preciso reimprimir imediatamente, a tempo de estarem à venda no dia da marcha, outros 10 000 que, mesmo assim, se revelariam insuficientes. Neste período, o único livro com vendas equiparáveis foi o novo romance de Houellebecq, Soumission, que fantasia uma França islamizada (150 000 exemplares) e parecia ter sido feito de encomenda para os tempos terríveis em que saiu para o mercado. Mas, enfim, um texto com 250 anos concorrer com uma provocação de um autor vivo e polémico, sim, é obra!

26
Fev15

É hoje!

Maria do Rosário Pedreira

Sim, é hoje que começa o encontro de escritores mais aguardado do ano: as nossas queridas Correntes d’Escritas! E, enquanto estiverem a ler este post, se tudo correr bem, eu estarei na Póvoa de Varzim, desta feita a acompanhar dois escritores: o grande Mário Cláudio, que lança este ano o delicioso O Fotógrafo e a Rapariga, e o espanhol Carlos Castán, de quem excepcionalmente (porque quase nunca faço livros estrangeiros) publico Má Luz, um romance belíssimo sobre dois amigos. Mas haverá muitos mais autores e celebridades a ouvir por estes dias, entre eles Eduardo Lourenço, José Tolentino de Mendonça, Guilherme d’Oliveira Martins (que fará a palestra de abertura Quem tem medo da Cultura?), o cubano Leonardo Padura, o colombiano Jorge Franco (de quem publiquei em tempos dois romances muito bons, Rosário Tesouras e Paraíso Travel, e que vou certamente gostar de rever), Ana Luísa Amaral, Paulo José Miranda (o vencedor da primeira edição do Prémio Literário José Saramago), Afonso Cruz, Bruno Vieira Amaral e até o brasileiro Martinho da Vila. Haverá muitos lançamentos de livros, mesas-redondas, cinema, exposições, enfim, um mar de coisas interessantes para encantar olhos e ouvidos. E este ano as sessões decorrerão maioritariamente no Cine-Teatro Garrett, arranjadinho de novo para nos servir de casa ao longo do festival. Vai ser mesmo bom!

25
Fev15

À nossa volta

Maria do Rosário Pedreira

Os Passos em Volta é um conhecido livro de Herberto Helder, cujo título foi agradavelmente corrompido por duas jovens poetas e jornalistas – Filipa Leal e Inês Fonseca Santos – para dar nome a uma série de tertúlias que decorrem desde o ano passado na Casa Fernando Pessoa. Trata-se, no fundo, de discutir questões que andam por aí à nossa volta, desde o 25 de Abril ao Génio, passando pela Guerra, a Confissão ou o Bem e o Mal. Amanhã, pelas 19h00, um heterógeno painel de convidados - Gonçalo Galvão Teles (cineasta), Maria Flávia de Monsaraz (astróloga) e Nuno Camarneiro (escritor e físico) – estará na morada do grande Pessoa a falar dos Espaços em Volta do Futuro com as duas moderadoras, numa troca de ideias certamente dinâmica e variada. Neste ano, em que se estreia mais um capítulo de A Guerra das Estrelas e o filme O Novo Mundo (a história de Pocahontas realizada por Terrence Malick) faz dez anos, a sessão dará ainda a conhecer obras de ficção científica em que 2015 era mesmo um futuro longínquo para questionar se a ficção alguma vez se torna realidade.

24
Fev15

Rosa e espinhos

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui falei mais de uma vez da escritora e jornalista espanhola Rosa Montero, autora dessa pequena obra-prima que é A Louca da Casa, um livro magnífico sobre a imaginação. Recentemente, Rosa voltou a Portugal para falar do seu último livro cá publicado – A Ridícula Ideia de não Voltar a Ver-te –, um magnífico texto não ficcional sobre uma afinidade: a vida de Maria Curie e a sua, sobretudo desde que ambas perderam os maridos. Partindo da grande história da única mulher duas vezes nobelizada (e em categorias diferentes!) e de um seu pequeno diário escrito ao longo de um ano, na sequência da morte de Pierre Curie, Rosa Montero dá-nos a conhecer a cientista polaca que se tornaria francesa (a sua infância, a sua juventude, a sua garra, o seu trabalho de loucos) e, paralelamente, o que a une a si própria como mulher emancipada, trabalhadora, marginalizada, viúva. É um texto belíssimo do ponto de vista literário, mas também muito claro e informativo sobre uma mulher (ou duas) como há poucas. Lê-se de um fôlego, como um desses romances imparáveis, e mexe connosco a cada página, ao mesmo tempo deslumbrante e perturbador.

23
Fev15

Fãs de livros e tecnologia

Maria do Rosário Pedreira

Cada vez mais os autores se tornam uma espécie de estrelas pop e cada vez mais perto estão do público. Talvez por isso, a LeYa acaba de lançar (fui informada por uma newsletter interna que recebo todas as sextas) a primeira aplicação (devia dizer apenas app?) para iPhone, iPad e Android dedicada aos fãs de escritores de língua portuguesa publicados nas várias chancelas do grupo. Foi desenvolvida em parceria com a Info Portugal e o seu objectivo é tornar acessíveis aos leitores a biografia e a bibliografia do seu autor favorito, mas não só; vai ser também possível consultar a agenda do escritor (para saber se pode apanhá-lo em alguma escola ou biblioteca perto de casa para lhe pedir um autógrafo), ver fotografias e vídeos de entrevistas e programas em que ele aparece, e, claro, ler excertos de algumas obras e deixar os comentários que entender. Segundo o comunicado, mais do que fornecer informação, esta app (estou a modernizar-me) promove interacção e inaugura uma nova forma de comunicação entre leitor e escritor. A primeira a ser lançada, e já disponível na App Store e no Google Play, é a do escritor moçambicano Mia Couto, que – é bem verdade – tem mesmo muitos fãs.

 

20
Fev15

Luz dura

Maria do Rosário Pedreira

Excepcionalmente, publico um livro na Teorema, Má Luz, de Carlos Castán, um autor espanhol que só costuma escrever contos (género em que se tornou um escritor de culto no país vizinho), mas que, ao atrever-se ao romance, mostrou que era igualmente hábil numa ficção mais comprida. A história começa com a relação de dois amigos homens desencantados com a vida, naquela idade em que começam a perceber que viveram muito (copos, mulheres, filhos de várias mulheres, drogas), mas se calhar não guardaram disso nada que agora, que começam a envelhecer, lhes valha. Um dos amigos começa até a ficar paranóico e a dizer que o perseguem e lhe querem bater, mas o outro julga que ele está apenas perturbado até ao dia em que a Polícia lhe telefona a comunicar que, de facto, Jacobo morreu assassinado. E é notável como o narrador, ainda mais só do que antes, se apropria da vida do morto, não só porque essa é a única forma de fugir à sua, mas sobretudo porque precisa de descobrir quem matou Jacobo, uma vez que não foi capaz de o ajudar a salvar-se. Uma mulher estará, claro, no centro de tudo – salvadora ou castigadora? É preciso ler esta pérola, de que João Tordo disse ser «um daqueles livros que dificilmente se esquecem, que perturbam uma noite tranquila em casa, uma tarde num café ou uma viagem de comboio.» Deixe-se, pois, perturbar.

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19
Fev15

Comer, beber e falar

Maria do Rosário Pedreira

Paulo Moreiras já confessou gostar tanto de escrever como de cozinhar; e eu acrescentaria que este meu autor também gosta bastante de comer e beber – sem isso não conseguiria, de resto, escrever tão apaixonadamente sobre comida. Mas é verdade que para ele as palavras alimentam tanto como uma boa refeição e a sua paixão por elas levou-o recentemente a uma ambiciosa aventura, a de coligir num volume tudo o que há de interessante para saber sobre pão e vinho: festas, adivinhas, provérbios, lendas, superstições, poemas, pequenas histórias, filmes… e muito mais. Amanhã vamos poder saborear uma vez mais o seu Pão & Vinho – entretanto galardoado com o Prémio Gourmand! – na Figueira da Foz, onde estarei também eu a participar em mais uma 5.ª de Leitura que, excepcionalmente, vai acontecer à sexta. Será às 21h30, na biblioteca da cidade, e crê-se que a audiência já vá jantada, porque as palavras do Paulo Moreiras costumam fazer fome. Se estiver por perto, apareça e de certeza que não se arrependerá!

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18
Fev15

Um duo imperdível

Maria do Rosário Pedreira

Mário Cláudio gosta do número 3 e, como tal, brinda-nos frequentemente com trilogias. O escritor do Porto tornou-se conhecido sobretudo com o romance Amadeu (sobre o pintor Amadeu de Souza-Cardoso) e logo completou aquilo a que chamou a «Trilogia da Mão» com os romances Guilhermina e Rosa. Mais tarde, olhou o céu inspirador e ofereceu-nos a trindade de romances Ursa Maior, Gémeos e Oríon. Quando publicou o delicioso Boa Noite, Senhor Soares (este Soares é o Bernardo do Livro do Desassossego), não sabíamos que se tratava do primeiro livro de um trio sobre a relação entre pessoas de idades muito diferentes. O segundo volume saiu no ano passado e era sobre Da Vinci e um discípulo (intitula-se Retrato de Rapaz) e o terceiro vem a caminho (quase nas bancas!) e é sobre a relação nem sempre clara entre Charles Dodgson e Alice Lidell; chama-se O Fotógrafo e a Rapariga. Pois para quem não esteja inteirado, eu esclareço: Charles Dodgson é, nem mais nem menos, o nome real de Lewis Carroll, o espantoso autor de Alice no País das Maravilhas, e a menina Lidell, provocadora q.b., uma Lolita em muitos aspectos, é tão-só a rapariguinha que inspirou o professor de Matemática e fotógrafo amador a escrever um dos livros mais famosos de todos os tempos. Esta pequena novela de Mário Cláudio é então sobre o encontro destas duas figuras imperdíveis – e, aqui para nós, nenhuma delas é inocente… Leiam, leiam – e não se arrependerão.

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16
Fev15

Ficção-Verdade

Maria do Rosário Pedreira

Em tempos que já lá vão, inventei uma colecção chamada Ficção-Verdade (para reportagens, romances históricos e livros afins) numa editora onde trabalhei sete anos, a Temas e Debates; ora, esse nome vem muito a propósito do mais recente romance de Chico Buarque, hoje dado à estampa em Portugal. Intitula-se O Irmão Alemão e, para quem não saiba, é fruto de uma demorada pesquisa à roda de um filho que o pai de Chico Buarque teve com uma alemã quando vivia em Berlim, no início dos anos 1930 (creio que já terá nascido quando Sérgio Buarque estava e regresso ao Brasil e casado, ou quase, com a mãe de Chico e dos seus outros cinco irmãos brasileiros). O cantor só terá tido conhecimento de que tinha um irmão mais velho na Europa depois dos 20 anos – e, tanto quanto se sabe, por mero acaso, quando o grande poeta Manuel Bandeira, amigo do pai, lhe falou do assunto com a maior naturalidade, provavelmente pensando que o facto era do domínio da família; Chico não teve coragem para o confirmar em vida dos pais (a mãe morreu aos 100 anos), mas com a ajuda da sua editora, a Companhia das Letras (que acaba de instalar-se também em Portugal, depois de ter sido comprada, pelo menos em parte, pela Penguin-Random House), pôs um homem no terreno; e, em Berlim, foi possível encontrar não o irmão alemão (que tinha morrido aos 50 anos, antes da queda do Muro de Berlim, com um cancro de pulmão como o que vitimaria o pai dois anos depois), mas a sua viúva, uma filha e uma neta, bem como documentos e testemunhas que serviram de base a esta ficção. E – coisa que tem bastante graça – o (também) Sérgio alemão cantava muito bem, tinha até gravado discos na Alemanha Oriental... A história tem muitos pormenores interessantes, mas talvez seja melhor ler o romance do que lê-la por interposta pessoa.

13
Fev15

Palavrinhas

Maria do Rosário Pedreira

Ando intrigada com a familiaridade de algumas palavras (em termos de parentesco linguístico, por assim dizer) cujo sentido actual me parece muito distante. Cabeça, por exemplo, que vem do latim caput e em italiano se diz capo. A raiz latina torna claro por que razão o capataz e o capitão estão à cabeça das suas equipas e tropas e também porque chamamos capo ao chefe da mafia italiana. Também se percebe facilmente porque usamos a expressão per capita (por cabeça, por pessoa). Se considerarmos que a cabeça é a parte principal de uma pessoa (se a perdemos, adeus!), também compreenderemos porque se chama pena capital à pena de morte e porque um decapitado perde a cabeça, bem como porque a capital de um país é a cidade principal. É ainda mais ou menos óbvio para mim que a letra capital (também denominada capitular) seja a que está à cabeça do texto. Já menos clara é a palavra capítulo como divisão de um livro (parece que deriva de capitulum, que é um diminutivo de cabeça, mas não encontro a relação entre cabecinha e parte de um livro), embora seja mais simples de entender a mesma palavra como assembleia de monges (em sala do capítulo, por exemplo), pois consigo visualizar cabecinhas pensantes tomando decisões (mas provavelmente é outra a explicação). E, quando penso em recapitular – verbo giro, este –, entendo que voltar ao princípio é também regressar ao que estava à cabeça – e até aí tudo bem. Porém, mais uma vez tenho dificuldade em associar o verbo capitular e o substantivo capitulação a uma cabeça (uma cedência ou transigência feita com a consciência de que era o melhor para todos? Pode ser); e ainda mais estranhas me parecem as palavras capitalismo ou capitalizar, já que as relaciono com dinheiro e me parece que a paixão pelo dinheiro nada tem que ver com uma boa cabeça (sim, eu sei que é preciso ser inteligente para acumular riqueza ilicitamente e não ser apanhado, mas mesmo assim). Enfim, andei às voltas com isto, mas não consegui tirar as devidas conclusões. Conto com quem tenha melhor cabeça do que eu para o fazer.

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