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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

12
Fev15

Vigésimo ano sem

Maria do Rosário Pedreira

Li numa newsletter enviada por um agente literário suíço que a escritora norte-americana de romances e livros de contos Patricia Highsmith já morreu há vinte anos. Senti-me velha, pois ainda me lembro de aguardar com ansiedade os seus novos livros numa editora onde trabalhei em início de carreira e na qual se publicaram muitos títulos da sua lavra (recordo-me, por exemplo, de Inocência Perversa ou Azul Cobalto – que tiveram dezenas de edições –, do mais discreto O Diário de Edith e também das colectâneas de contos que saíram já numa colecção de ficção literária, e não na de policiais, entre as quais Sereias num Campo de Golfe. Como neste estranho mundo em que vivemos «rei morto, rei posto», é provável que muitos dos Extraordinários, sobretudo os mais jovens, não conheçam ainda a grande Highsmith; mas ela é a inventora do senhor Ripley que certamente toca uma campainha para alguns por causa de filmes como O Talentoso Senhor Ripley e mesmo O Amigo Americano, de Wim Wenders, interpretado por Dennis Hopper, que por acaso ando cheia de vontade de rever. Por isso, se se quiserem abalançar à leitura ou releitura da senhora que também serviu de inspiração a Hitchcock para O Desconhecido do Norte-Expresso, fiquem à vontade. Verifiquei que há vários títulos disponíveis no mercado e não há nenhuma razão para não a querermos ler.

11
Fev15

Diário-documento

Maria do Rosário Pedreira

Há muitos anos, tive oportunidade de ouvir excertos de um diário de Eduardo Lourenço durante as Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, numa sessão em que o filósofo era a personalidade que abria as hostilidades e estava a ser apresentado por José Carlos de Vasconcelos. E que beleza, eram realmente pequenos poemas as suas magníficas frases sobre o tempo em que vivia. Pensei cá para mim que adoraria ler esses pequenos apontamentos diarísticos, mas eles não estavam publicados. Porém, acabo de ler que a Biblioteca Nacional adquiriu o espólio de Eduardo Lourenço e o vai integrar no Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea. São óptimas notícias, claro, não só para esta curiosa, que quer reler o que uma vez ouviu ao vivo – essa espécie de «diário cultural», como o filósofo lhe chama –, mas para todos, pois Eduardo Lourenço tem literalmente milhares de documentos desde os anos 1940, entre os quais correspondência trocada com escritores como Vergílio Ferreira ou Sophia de Mello Breyner Andresen e muitos textos inéditos, alguns dos quais sobre arte e música. Como referiu o Secretário de Estado da Cultura na sessão que assinalou a compra do espólio, «trata-se de um bem cultural fundamental para a investigação filosófica, literária, histórica e sociológica não só da obra de Eduardo Lourenço, mas do pensamento português dos séculos XX e XXI». A obra completa do autor será também publicada pela Fundação Gulbenkian. Boas notícias.

10
Fev15

Diagnóstico

Maria do Rosário Pedreira

Desde há alguns anos (2010, creio) que os alunos do 2.º Ciclo do Ensino Básico de algumas escolas (no ano passado mais de 68 000 miúdos) realizam testes de Português e Matemática para se fazer um diagnóstico das suas dificuldades e tentar que, na prática pedagógica, se insista num ponto ou noutro. E agora o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) vem dizer que os resultados de 2014 não são famosos: os alunos escrevem com erros, não põem acentos, têm problemas em interpretar e escrever com coerência e – o que é ainda mais estranho, uma vez que o mundo tem sido regido mais pelos números do que pelas letras nos últimos anos – mostram não estar completamente à vontade no que toca a contar dinheiro. Em 2013, a apreensão do sentido de um texto revelou menos problemas – e parece que o que levou a que só 42% dos alunos tivessem em 2014 «o nível máximo de desempenho» se prende com o facto de o texto a interpretar ser um poema (mas o carteiro de Pablo Neruda entendia as metáforas e era quase analfabeto, digo eu). Quanto à ortografia, só 35% dos alunos escreveram correctamente as seis palavras pedidas e só 28% escreveram um texto sem erros; este texto só era coerente em 39% dos casos e só 38% dos alunos revelou um vocabulário adequado. Entre outras más notícias, verifica-se também que baixou desde 2013 a percentagem de alunos que interpretam bem o enunciado de um problema matemático (se calhar por causa das dificuldades com o português), enquanto sobe a dos que não conhecem o significado dos símbolos matemáticos e a dos que ainda se enganam a contar dinheiro. Fico tão estupefacta que nem consigo comentar.

09
Fev15

Um livro para um dia

Maria do Rosário Pedreira

Faz-se de tudo para promover um livro – e a campanha de marketing criada para o mais recente romance do norte-americano James Patterson, Private Vegas (segundo o Diário Digital, será publicado em Portugal pela Top Seller), é mesmo uma loucura. Quem quiser comprar terá de pagar 255 mil euros, é que diz a campanha logo a abrir… Bem, este valor, ao que parece, dará direito a mais coisas, entre elas uma viagem em primeira classe para um destino desconhecido, duas noites num hotel de luxo, um jantar de cinco pratos com o próprio Patterson e uma colecção de livros autografados pelo autor (não estou lá muito interessada nestas benesses). Porém, como a quantia referida não é para qualquer bolso (já estou a ver o escritor sentado à mesa de um restaurante sofisticado completamente sozinho a carpir as mágoas – ou então rodeado dos mafiosos do dinheiro fácil), quem gosta dos livros de Patterson pode lê-los gratuitamente numa aplicação criada para o efeito em mil tablets que vão ser oferecidos aos leitores (comprados com os 255 mil euros que os outros doidos pagarem, presumo), mas só poderá demorar um dia da primeira à última página, porque o texto se apagará ao fim desse tempo (com algum sentido crítico, Patterson admite que os seus livros podem ser lidos em 24 horas ou menos), ou (finalmente!) comprá-los normalmente numa livraria por 24 euros. O romance, presumo, versa o tema do jogo – tem pelo menos uns dados de jogar na capa, a par de uma imagem de Las Vegas à noite –, mas esta campanha promocional parece-me, enfim, uma aposta demasiado ambiciosa.

06
Fev15

Ouvir ler

Maria do Rosário Pedreira

«A leitura alarga o teu espaço, dá-te novos amigos, leva-te a conhecer lugares, emoções e ideias que nem imaginas que existem. […] Ler define a tua personalidade, faz de ti uma pessoa mais corajosa, mais inteligente, mais sedutora. Por isso, nós desafiamos-te a revelar o teu lado secreto. Mostra do que és capaz e lê em voz alta os textos de que gostas e os que vais descobrir.» Foi desta forma que a Fundação Calouste Gulbenkian convidou os jovens a gravarem um vídeo com uma leitura de um texto literário e a enviarem-nos para este concurso chamado Dá Voz à Letra. A participação foi maciça e certamente a pré-selecção muito difícil de fazer. Mas agora chegou a altura de se ouvirem os dez finalistas, cinco rapazes e cinco raparigas com idades entre os 13 e os 17 anos. Se gosta de ouvir ler literatura e quer saber qual é o melhor destes dez magníficos, a sessão decorrerá na Zona de Congressos da Fundação amanhã, pelas 18h00, garantindo que a leitura também pode ser espectáculo. Os textos serão todos de autores portugueses! Um júri composto por Catarina Furtado, o actor Albano Jerónimo e o escritor David Machado escolherá o leitor de 2015. Não falte.

 

05
Fev15

Livraria Solidária

Maria do Rosário Pedreira

Há algum tempo, fui contactada pela responsável por um blogue chamado Déjà Lu, que leiloava livros usados com o objectivo de angariar fundos para a Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21. Pediu-me um livro de poesia autografado que, obviamente, ofereci. Agora recebo a boa notícia de que o Déjà Lu vai poder sair do espartilho da Internet e ter finalmente um espaço físico, uma livraria solidária de livros em segunda mão. Ao que parece, o grupo hoteleiro Pestana foi sensível a esta iniciativa e disponibilizou um espaço na Cidadela de Cascais, que abrirá as suas portas no próximo dia 28 de Fevereiro. Tal como já acontecia no blogue, todas as receitas da livraria reverterão integralmente para aquela Associação e o trabalho será feito por voluntários. Todos podemos oferecer livros (portugueses e estrangeiros) e a livraria terá certamente à venda muitos títulos que já não conseguimos encontrar por aí, mas não exactamente empoeirados como nos alfarrabistas. Além disso, promete embrulhá-los com originalidade e ser um espaço low-cost, o que em tempos de crise também tem as suas vantagens. Funcionará ainda como uma espécie de clube, aproximando o staff dos clientes, com sessões de leitura, cursos de literatura e de escrita e muitos outros workshops. Parece que procuram voluntários para a loja e que ficam contentes se lhes oferecermos livros que já não queremos. Deixo o link da página de Facebook do Déjà Lu para consultarem se tiverem interesse. Uma grande ideia, digo eu.

 

https://www.facebook.com/pages/D%C3%A9j%C3%A0-Lu/172870586088680

04
Fev15

Lista negra

Maria do Rosário Pedreira

A Idade Média já foi, mas parece que deixou rasto até hoje. Leio num jornal que existe um novo Index, uma lista negra de livros e autores banidos pela Opus Dei, que proíbe terminantemente os seus membros de os ler. Entre eles, está, evidentemente, Saramago e os seus Evangelho Segundo Jesus Cristo e Caim; mas, se pensava que eram só os livros que de algum modo provocam a Igreja católica a estar no rol, desengane-se, porque são mais de 30 000 os títulos dele constantes – e alguns são de pasmar, como O Primo Basílio, de Eça de Queirós, ou O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge. A Sociedade Portuguesa de Autores já repudiou a lista, no que ela tem de atentado à liberdade de expressão, e o mesmo fizeram os autores visados que acharam que a Opus Dei devia ter vergonha de nomear livros para a fogueira no século XXI. Porém, os especialistas em Direito defendem que, do ponto de vista legal, a lista é inatacável e que, por isso, o Estado não pode aplicar sanções. Mas imagine-se que a organização proibia os seus membros de ler Os Maias, que faz parte das metas curriculares e é de leitura obrigatória pelos alunos. Os jovens filhos de membros da Opus Dei prefeririam chumbar a desobedecer aos pais? Está tudo louco, digo eu.

03
Fev15

Derrocada

Maria do Rosário Pedreira

A história tem anos, mas, pelo que sei, apesar das chamadas de atenção desde 2007, quase nada foi feito. Nesse ano, um artigo do Jornal de Notícias alertava para a derrocada iminente da casa onde António Nobre terminara os seus dias, na Avenida do Brasil, à Foz, no Porto, e da qual não se sabia quem retirara recentemente a placa que aludida a que ali residira e morrera o grande poeta do Porto. Na altura, foram enviados pedidos de recuperação do imóvel, bem como a sugestão da sua transformação numa casa que pudesse albergar o espólio do autor de Só, armazenado pela Câmara e indisponível. Era então presidente do município Rui Rio e ministra da Cultura Isabel Pires de Lima. Porém, apesar da insistência, o problema persiste, a casa degrada-se cada vez mais e, embora o espólio (manuscritos, livros, objectos e peças de vestuário) tenha sido transferido para a biblioteca pública municipal, a ruína do edifício e a sua não classificação poderão apagar o rasto de um dos mais importantes nomes literários do Porto. Corre, pois, uma petição para evitar a calamidade, sendo um dos seus signatários o escritor Mário Cláudio. Creio que é de todo o interesse assiná-la e, por isso, aqui deixo o link para todos os interessados.

 

http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT75775

02
Fev15

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Recentemente, pediram-me que escrevesse um texto de incentivo à leitura de Gil Vicente para alunos do 10.º ano. Ao que parece, os autores clássicos não convocam hoje grande simpatia por parte dos jovens (nem sequer Fernão Lopes, pelos vistos, que é um dos meus preferidos) talvez por terem um grau de dificuldade associado aos arcaísmos que inibem muitas vezes a leitura. Não quis, porém, escrever sem reler a peça que os alunos estudarão: Farsa de Inês Pereira, que até representei em menina no auditório da escola; e, como já nem sabia onde estava o meu Gil Vicente, aproveitei a versão digital gratuita, descarreguei-a e li-a num iPad (estou a adaptar-me aos tempos modernos, mas nem custou nada, são só 40 páginas). E que alegria assim que voltei a pôr os olhos no texto e a ouvir dentro da cabeça a língua do mestre! Os versos maravilhosos, às vezes divididos ao meio por duas personagens, marcando um ritmo acelerado e bem-disposto, a rima perfeita, tantas palavras gostosas de que nem me lembrava. E que reviravoltas surpreendentes, sempre a contrariar aquilo que esperávamos, quanta sabedoria e quanta coragem de dizer verdades incómodas (e sabemos que o dramaturgo trabalhava na Corte, mas não se ensaiava nada em cascar na Nobreza). Enfim, a experiência foi tão boa (são assim os clássicos) que agora ando a (re)ler Gil Vicente. Rápido, grátis e muito compensador.

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