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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

11
Mar15

Em busca da felicidade

Maria do Rosário Pedreira

Um psicólogo que ensina na Universidade de Évora, Nuno Amado, fez-se autor de ficção pela primeira vez há dois anos com um romance de que aqui falei – À espera de Moby Dick – e acaba de reincidir com um livro muito curioso chamado Manual de Felicidade para Neuróticos (mas é também ficção, embora o título possa levar ao engano). Nele, duas personagens masculinas muito bem desenhadas – um escritor e um psiquiatra, respectivamente Gaspar Stau e Amadeu Amaro – são convidados pela União Europeia para escrever um Manual de Felicidade para neuróticos (e não admira, porque nesta Europa estamos a ficar mesmo com os nervos em franja!). Resolvem, porém, fazê-lo de forma muito singular, inscrevendo episódios reais conhecidos por Amadeu e posteriormente redigidas por Gaspar; e, pelas conversas de ambos, perpassarão então as mais variadas pessoas e histórias – de um velhote pessimista que pondera o suicídio a um coxo que se arrepende de ser operado, passando por um grupo de psicoterapeutas que se faz passar por Fernando Pessoa & heterónimos – que inspiram ao estranho duo estratégias criativas de buscar a felicidade. Mas não poderá ela encontrar-se também em coisas mais comezinhas como um prato de carne de alguidar com migas de espargos ou uma carícia de alguém que amamos? Manual de Felicidade para Neuróticos é um romance que, em diferentes vozes e estilos, numa narrativa em que cabem Paris e Lisboa, prostitutas e filósofos, redenção e desespero, Oscar Wilde e cozido à portuguesa, procura o encanto, a melancolia e o humor que existem na busca da felicidade. O lançamento é hoje às 18h30 na Livraria Ler Devagar da LX Factory – e Rui Zink apresenta. Apareça.

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10
Mar15

Apelidar

Maria do Rosário Pedreira

Usamos em Portugal a palavra apelido para sobrenome, termo este usado pelos nossos irmãos brasileiros, para os quais apelido é aquilo a que nós cá chamamos alcunha. E, por falar em alcunhas, são famosas as alentejanas, claro, mas descobri numa crónica escrita pelo escritor e jornalista Joel Neto que, nos Açores, também as há com graça e imaginação e que por lá se designam curiosamente apelidos. Diz ele que só na sua terra a variedade é grande, que há apelidos antropomórficos (como Barbado, Carrapicho, Fininho ou Rasteiro – e explica que chamar Rasteiro a alguém é muito diferente de chamar Anão) e zoológicos: Besouro, Formiga ou Porca Amarela são exemplos disso (e eu, não sendo açoriana, fui Formiga anos a fio na escola por ser pequena e não parar quieta, mas nunca me chamaram, graças a Deus, Rasteira); que podem vir de uma antiga profissão de família (Cabreiro, por exemplo, e até Bispo), de um lugar a que se pertence (Das Bicas, Da Serra) ou mesmo de uma dinastia (Das Bernardas); que reflectem singularidades individuais (Mudo, Ligeiro), estão cheios de ternura (Cachinha, Estacinho, Zanguinha), acusam o ponto fraco (Chorica, Cara Suja) ou, como ele diz, são para esquecer (Peidão e Cagão). Portanto, se pensavam que só as alcunhas do Alentejo (e os apelidos também, porque os alentejanos têm sobrenomes ultracoloridos) tinham graça, desenganem-se. Os Açores fazem boa concorrência.

 

09
Mar15

Uma livraria que seja sua

Maria do Rosário Pedreira

Sim, pode parecer sexista ou feminista, como queiram, mas a ideia é criar uma livraria de mulheres na cidade do Porto no próximo mês de Abril. Ao que sei, existe apenas meia centena de livrarias deste tipo em todo o mundo, mas Aida Suarez, a mentora do projecto, não tem medo de arriscar. Espanhola, está habituada a viver seis meses em Portugal e outros seis em Espanha e leva sempre livros com ela para ler no comboio (imagino que muitos serão de escritoras). Inspirando-se numa livraria para mulheres que existe em Madrid (a Prolég, onde uma vez entrou), Aida resolveu criar um espaço de promoção da cultura feminina na Invicta e diz que os homens serão também muito bem-vindos, mas os livros serão todos de mulheres. (O mote é justamente de uma escritora que todos conhecemos, Virginia Woolf, e do seu livro Um Quarto Que Seja Seu.) Para realizar este sonho, Aida lançou na Internet uma plataforma em que apela ao contributo de todos – Confraria Vermelha (confraria por apelar à união, vermelha por ser a cor da capa de Capuchinho, a mais famosa personagem feminina de contos infantis). Porém, o projecto da livraria não se resumirá a um lugar para vender livros, incluindo telões para a emissão de filmes, um espaço para lançamentos e apresentações, cursos, conferências, tertúlias e debates. Nos escaparates, literatura de mulheres e para mulheres, livros práticos para mães e mulheres trabalhadoras, ensaios sobre a igualdade de género e muitas outras coisas. Vão ser precisos 12 000 euros para pôr tudo em marcha, mas haverá certamente muitas mulheres com vontade de contribuir.

06
Mar15

Vida colorida

Maria do Rosário Pedreira

Quando era miúda e ficava doente em casa, a minha mãe dava-me às vezes livros de pintar. Eu adorava, e os meus preferidos – não sei se ainda existem, apesar de tanta coisa sofisticada que para aí há – traziam um pincel que, mergulhado em água, fazia, em contacto com o papel, aparecer cores diferentes em cada página (parecia magia). Bem, os livros de colorir não são para os mais criativos (que gostam de fazer os próprios desenhos), mas a ideia que guardo deles é a de que entretinham muito. E leio agora num artigo que, pelos vistos, também os adultos gostam deles… Em Inglaterra, os médicos receitam-nos para diminuir a depressão e aliviar a tensão do dia-a-dia e, segundo os livreiros, só em 2014 o aumento de vendas foi de cerca de 300 %. A moda desta terapia começou em França quando se descobriu que as mulheres que trabalhavam muitas horas ao telefone, por exemplo, ficavam muito menos enervadas se pintassem ou desenhassem ao mesmo tempo. E a tendência (como tudo o que é francês) atravessou o canal, sendo agora a Inglaterra surpreendida por um aumento exponencial na venda de certos títulos de livros de pintar, sobretudo aqueles que têm páginas destacáveis que podem ser posteriormente emolduradas. Enfim, as crianças andam com brinquedos cada vez mais tecnológicos e os adultos parecem estar a regressar à infância.

05
Mar15

Um par irresistível

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui falei deste mini-romance de Mário Cláudio, O Fotógrafo e a Rapariga, que é o último de uma trilogia dedicada à relação entre pessoas de idades muito diferentes. Depois de Bernardo Soares e um paquete de escritório em Boa Noite, Senhor Soares, e de Da Vinci e um seu discípulo em Retrato de Rapaz, temos agora a novidade de uma rapariga e de um professor de Matemática, fotógrafo amador, que se sente muito atraído por Lolitas e vê na menina Lidell alguém que fica muito bem na objectiva da sua câmara. Charles Dodgson (esse professor-fotógrafo) ficou conhecido por Lewis Carroll e é o autor desse livro imortal intitulado Alice no País das Maravilhas, que se diz ter sido inspirado justamente por Alice Lidell (que está na capa do livro de Mário Cláudio e tem ar de tudo menos de inocente). Depois de o termos feito nas Correntes d’Escritas, é agora a vez de lançarmos O Fotógrafo e a Rapariga no Porto (logo mais à tarde, pelas 18h30, na Sala Braga da Ordem dos Médicos, com apresentação do professor Martinho Soares) e em Lisboa (amanhã, na Livraria Buchholz, às 18h30, com apresentação de Daniel Sampaio). Apareça!

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04
Mar15

Dois livros

Maria do Rosário Pedreira

Dizem que os lançamentos dos livros são quase sempre uma fogueira de vaidades, uma festa para o ego do escritor ou apenas um pretexto para se rever amigos e família na companhia de um livro. Não sei ao certo e já vi de tudo. Pouco comum, no entanto, é que dois autores resolvam fazer uma apresentação simultânea e se ofereçam para falar do livro um do outro. Mas foi o que aconteceu recentemente a Miguel Real e Manuel Frias Martins (que foi meu professor de Literatura Inglesa na Faculdade, já lá vão anos) quando se encontraram por acaso na Fundação José Saramago e perceberam que tinham ambos livros novos a saírem no mesmo mês. O livro de Miguel Real é uma ficção (O Último Europeu) e o de Frias Martins um ensaio (A Espiritualidade Clandestina de José Saramago), mas nem essa diferença os impediu de porem a coisa de pé. A sessão decorrerá mais logo na Fundação José Saramago e abaixo segue um convite para o caso de quererem aparecer por lá.

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03
Mar15

Oh, a poesia!

Maria do Rosário Pedreira

Ao longo dos anos, tenho-me dado conta de que os extraordinários comentadores deste blogue não têm uma especial atracção pela poesia; não que não gostem de a ler de vez em quando, mas talvez sejam mais chegados a um bom romance e, sobretudo, parecem desconhecer muito do que se vai fazendo na área nos últimos tempos. Uma boa maneira de remediar a lacuna é frequentar um bom curso que ensine a ler e compreender poesia – através de textos poéticos e teóricos – mas que forneça de igual modo nomes e correntes mais contemporâneas. Pois bem: há agora um desses cursos à disposição e começa já amanhã. As sessões terão como orientadores Marta Navarro, João Silveira e Rosa Azevedo e decorrerão em horário pós-laboral, das 19h00 às 20h00, às quartas-feiras, até ao dia 29 de Abril (dois meses é tempo para aprender tudo), na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, em Lisboa (Av. Dom Carlos I). Nas palavras dos organizadores, “A partir de algumas linhas de força (pensar a poesia, o poeta, a noção de escrita e de leitura) e da leitura de alguns poemas, este curso pretende criar leitores críticos, autónomos, livres de preconceitos e pré-leituras de cada texto. Não vamos ensinar a ler, não vamos ensinar a escrever; vamos, sim, abrir portas e caminhos múltiplos para que estes leitores criem com os livros um espaço de segredo, intimidade e absoluta autonomia.” Ora então, de que está à espera? O preço é de 45 euros mensais. O link para a inscrição aí vai: rosa.b.azev@gmail.com

02
Mar15

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Quando estava na Temas e Debates, nos primeiros anos deste século, publiquei um autor colombiano maravilhoso, de quem o grande García Márquez disse ser alguém a quem de bom grado passaria o testemunho. Os romances que dei à estampa foram Rosario Tesouras e Paraíso Travel e, já depois de eu ter deixado a editora, saiu ainda Melodrama, mas com a chancela da Quetzal. Tinha de algum modo perdido o rasto a Jorge Franco (que no meu tempo assinava Jorge Franco Ramos, mas deve ter-se fartado de ser referido como Ramos, o nome da mãe, no estrangeiro), mas ele agora ganhou um dos prémios de língua espanhola mais prestigiantes, o Prémio Alfaguara, e é precisamente o livro galardoado – O Mundo de Fora – que me encontro a ler neste momento. É bom matar saudades deste escritor que sabe contar uma história como ninguém e desenha personagens que ficam na nossa memória para sempre. Aqui, um ricaço – de castelo, limusina, criados para tudo e uma filha que é uma princesa de conto de fadas – é sequestrado por um gangue de rapazes aselhas que o fecham numa cabana, o remetem a um quartinho onde existe apenas um catre, e tentam pedir por ele um resgate. Mas nem Dom Diego colabora (não se deixa fotografar nem escreve um bilhete pelo seu punho para mostrar que está vivo), nem a sua família parece querer negociar com o chefe dos sequestradores – o absolutamente fantástico Mono, frustrado, mandão, cheio de devaneios sexuais mas com problemas de erecção com a namorada Twiggy (outra grande personagem), cansado da sua quadrilha de estúpidos e medricas e fascinado quer pela filha do sequestrado, quer por um rapaz que adora motos e relógios caros e o sabe levar como ninguém. Com saltos ao passado – para afinal descobrirmos porque Dom Diego tem a vida que tem e o seu castelo colombiano (um capricho seu, e não, como se possa pensar, um delírio de pato-bravo, porque o homem é um gentleman) – vamos acompanhando os dias e as conversas entre sequestrado e sequestrador, um mano-a-mano notável de que a esta hora ainda não sei quem sairá vencedor. Recomendo vivamente esta pérola.

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