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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

13
Abr15

Debater a cultura

Maria do Rosário Pedreira

A Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas organiza, entre 15 e 22, no Centro Cultural de Belém, um interessante fórum que tem por nome O Lugar da Cultura: Modelos e Desafios e que pretende responder, entre muitas outras questões, às perguntas «Qual é o espaço que a cultura deve ocupar no século XXI?» e «Que modelo de desenvolvimento queremos?». Entre variadíssimos painéis de debate e colóquios com participantes nacionais e internacionais de nomeada, destaco – porque me parece extremamente importante para a difusão da língua portuguesa, que é talvez o nosso mais rico património – a sessão dedicada à internacionalização da literatura e da ilustração portuguesas no dia 17 às 10h00 da manhã, com a presença da escritora Dulce Maria Cardoso, de Harrie Lemmens (tradutor de português para neerlandês), de Federico Bertolazzi (tradutor de português para italiano e professor na Universidade de Roma), Isabel Minhós Martins (autora de livros infantis e editora da Planeta Tangerina), António Jorge Gonçalves (ilustrador), Fernando Pinto do Amaral (pelo Plano Nacional de Leitura) e José Manuel Cortês (director-geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas). Um pouco mais tarde, às 11h30, serão entregues prémios de ilustração a João Fazenda (meu parceiro no livro A Minha Primeira Amália), António Jorge Gonçalves e Yara Kono. A partir do dia seguinte, as sessões serão abertas ao público, mediante a lotação da sala, mas as inscrições podem ser feitas através do link:

https://pt.surveymonkey.com/s/lvro

O programa completo pode ser consultado aqui:

http://olugardacultura.pt/

 

 

10
Abr15

Escrever de graça

Maria do Rosário Pedreira

Quando eu comecei a trabalhar no ramo editorial, a maioria dos escritores com obra publicada tinha um emprego fixo e escrevia nas horas vagas (como não havia tantas solicitações como há hoje e a televisão só tinha dois canais, era mais fácil arranjar tempo). No entanto, hoje os escritores querem viver exclusivamente do que escrevem (que é, também, o seu trabalho) e, porque o País é pequeno, raramente o que tiram das vendas dos respectivos livros é suficiente para se sustentarem, tendo por isso de se lançar à escrita de guiões, artigos de jornal, recensões, peças de teatro, etc. Mas não é fácil, claro; primeiro, porque estas manobras os afastam muitas vezes das obras que estão a compor; depois, porque estão sempre a ser solicitados para escrever sobre tudo e mais alguma coisa, de borla! Pois, pois... Eu queria ver se alguém tinha lata de convidar um economista ou um médico para escrever ou falar sobre um assunto específico sem lhe pagar... A um escritor, porém, quase nunca se toca no assunto do dinheiro, como se ele vivesse do ar e fosse sua obrigação oferecer de mão beijada todos os seus textos. É, na verdade, escandaloso – e a verdade é que muitas vezes, ao convidarem escritores para discursarem neste ou naquele evento, ainda acham que lhes estão a fazer um favor e a dar uma oportunidade para promoverem os seus livros. Eu, por exemplo, estou a sempre a receber pedidos para fazer prefácios em livros de poetas estreantes, mas mais recentemente também me pediram artigos que me obrigariam a uma investigação séria sem mencionar o pagamento uma única vez. Fiquei até agradavelmente surpreendida quando há uns meses uma instituição me convidou para ler e falar de poesia e me disse logo que pagava. Mas foi uma excepção e não parece que ninguém lhe siga o exemplo. Escrever será pior do que fazer contas em quê?

09
Abr15

Propaganda

Maria do Rosário Pedreira

Logo mais à tarde, pelas 18h30, acontece na Livraria Buchholz o lançamento de um ensaio biográfico de Orlando Raimundo sobre o homem da propaganda de Salazar, intitulado António Ferro: O Inventor do Salazarismo. A apresentação estará a cargo de António Costa Pinto, que conhece bem a figura e o período em causa e, por acaso, há uns dez anos, apresentou igualmente outra obra do autor que reeditei recentemente, desta feita dedicada a Marcello Caetano (A Última Dama do Estado Novo e Outras Histórias do Marcelismo). António Ferro é uma personagem fascinante para quem se queira dar ao trabalho de esmiuçar as suas acções – e o seu quê de impostor (usou a circunstância de ter sido editor da revista Orpheu, o que aconteceu apenas no papel – e por ser menor de idade e inimputável – para se enaltecer e conseguir chegar a muitos lados) anda sempre a par do seu poder criativo e da sua genialidade. Rodeou-se dos melhores homens da cultura do seu tempo e soube trazê-los, diria eu, para o lado errado (sempre os artistas gostaram de um certo mecenato, enfim), mas a verdade é que muitos deles produziram nesse tempo coisas inesquecíveis (a título de exemplo, filmes como A Canção de Lisboa ou mostras como a Exposição do Mundo Português). Por isso, se tem curiosidade sobre este homem de muitas facetas, venha ouvir falar dele mais logo ou leia o livro, que vale muito a pena.

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08
Abr15

Perder

Maria do Rosário Pedreira

Em pequenos, nunca tivemos lá em casa animais de estimação – excepto um gato encontrado doente durante um Verão que, quando voltámos para casa, no fim das férias, foi com alguém que se ofereceu para cuidar dele, mas pouco depois fugiu e nunca mais se soube o que lhe acontecera. Lembro-me vagamente de um periquito – cuja gaiola a minha avó limpava afanosamente –, mas então já eu era adolescente; e também de um aquário com três peixes, dois dos quais morreram quase imediatamente, sobrando apenas o mais feio – que viveu até aos meus quinze anos, uma raridade. Recordo-me, porém, de alguém ter dado a um dos meus irmãos um grilo numa gaiolinha na primeira casa onde vivi (antes, portanto, dos meus seis anos) e de, por causa do sabão que escorreu dos lençóis do andar de cima (nesse tempo ainda não havia máquinas de lavar roupa), o desgraçado ter sucumbido e causado muitas lágrimas, sobretudo a esse meu irmão. Nunca é fácil lidar com a perda de um animal querido – e agora há um belo livro sobre o assunto chamado Gato Procura-se, assinado por Ana Saldanha e com ilustrações de Yara Kono. É, para abreviar, a história de um gato que morre; o problema é que os pais do dono, um rapazinho, não conseguem dar-lhe a notícia e inventam que o felino anda pelos telhados e um dia ainda há-de voltar; os avós não prometem o regresso, mas também arranjam eufemismos, dizendo que o pobre gato foi para o céu, que agora é um anjo, que tem asas e outras coisas do tipo. Só a criança, afinal, parece ter realmente a certeza do que aconteceu e perceber que o gato não regressará. Uma história simples mas bonita sobre a perda que poderá ajudar muitos pais a lidarem com a questão da morte de um animal de estimação junto dos filhos. Leitura sensível.

07
Abr15

O perigo de ler

Maria do Rosário Pedreira

Ontem referi aqui um artista argentino que andava a distribuir livros pelas ruas e classificava como perigosa a sua missão. E de repente leio um texto do meu amigo Adolfo García Ortega – escritor e editor espanhol – e percebo que, apesar de Lemesoff estar a ser irónico, na verdade os livros comportam mesmo uma dose de risco, o perigo de ficarmos a saber o que nem sempre convém a outros que saibamos (e é isso que assusta os que querem à força destruir livros ou constroem listas de títulos a abater). Mas, porque não vale a pena dizer pelas minhas palavras o que Adolfo García Ortega diz na perfeição, limito-me a traduzir um parágrafo eloquente do seu belo texto:

«Os grandes escritores sempre souberam que os livros alteram a mente, condicionam a vida, inundam a imaginação e fomentam desejos. Que geram Quixotes, Bovarys e Alices. Transformam o leitor, muito ou pouco, mas transformam. Porque, em última instância, os livros desviam: desviam da origem e do destino, propõem um caminho diferente para se chegar a um lugar inesperado. Como Lewis Carroll diz pela boca do Gato de Cheshire em Alice no País das Maravilhas: “Chegarás sempre a algum lado se caminhares o suficiente.” Acredito na perversão que causam os Carroll, os Joyce, os Flaubert, os Cervantes, os Shakespeare. Porque todos, como donos de grandes truques, enfeitiçam e manipulam a alma crédula dos leitores. Com os livros, o leitor bebe a sua dose de veneno da literatura. Torna-se transgressor e impostor. Sente que pode alterar o inalterável. Sabe que tomará, mais cedo ou mais tarde, o caminho errado. Aprenderá o que ninguém sabe. Aproximar-se-á do mistério e da revelação. Os livros fermentam dentro dos leitores e depois enlouquecem-nos em segredo. Por isso o melhor conselho que conheço, como escritor, é este: Crianças de todo o mundo, não leiam! E, apesar disso, eu li.»

06
Abr15

Arte com mensagem

Maria do Rosário Pedreira

A expressão «arma de destruição maciça» aparece, de há uns anos para cá, frequentemente nos nossos jornais (por razões que sabemos e nem vale a pena estar a lembrar). Mas haverá uma outra menos comum que, evocando a sonoridade da anterior, é completamente outra coisa: “arma de instrução maciça.” Se não a conhecia, saiba que ela foi criada por um artista argentino ao que dizem um pouco excêntrico, de seu nome Raul Lemesoff, e que o seu objectivo é o de combater a ignorância e espalhar o conhecimento por todo o lado. Trata-se, afinal, de uma espécie de tanque de guerra cultural – concebido a partir de um velho Ford Falcon de 1979 – cheio de livros por dentro e por fora (cerca de 900, ao que parece), que percorre as ruas de Buenos Aires conduzido pelo seu criador, desejoso de oferecer livros a novos e velhos. Diz Lemesoff, a brincar, que a sua missão é muito perigosa e que ataca as pessoas de uma forma simpática e divertida. Venham mais artistas como ele criar bibliotecas artísticas e itinerantes e espalhar o “perigo” da sabedoria. Pode ser que assim haja menos guerras reais.

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02
Abr15

Eruditos e analfabetos

Maria do Rosário Pedreira

Almeida Faria foi o autor homenageado este ano pela revista das Correntes d’Escritas, com vários artigos a ele dedicados por autores e estudiosos como Ana Luísa Amaral, Cristina Robalo Cordeiro, Hélia Correia, Isabel Pires de Lima ou Lídia Jorge. No seu discurso de agradecimento durante a sessão inaugural, o escritor contou uma história deliciosa. Quando se estreou na literatura aos 19 anos com Rumor Branco – uma obra considerada de grande modernidade e que gerou inclusivamente controvérsia entre os seus defensores e os seus detractores – vivia no Alentejo numa zona extremamente pobre e onde quase ninguém sabia ler. O romance – decerto muito pouco convencional para a época – não deve, pois, ter convocado a simpatia de muita gente por ali, talvez nem sequer a da mãe do escritor, que terá comentado a sua dificuldade com a criada analfabeta. Mas Almeida Faria passou, de qualquer modo, a ser considerado na sua terra uma pessoa importante e, tendo sido visto certo dia numa livraria, logo foi fotografado e objecto de uma notícia no jornal local, que referia detalhadamente as obras que tinha comprado. Ora, vendo a fotografia do rapaz no jornal aberto e inteirando-se do que ali se contava, parece que a criada analfabeta não esteve com meias medidas e lhe terá dito: “Pronto, agora, que o menino já tem esses livros todos, já pode copiar e fazer um livro como deve ser, com aventuras e tudo.”

01
Abr15

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Sempre curiosa a respeito de novos autores, leio uma estreia vigorosa e muito aclamada de uma mais ou menos jovem norte-americana (36 anos) que, ao que sei pela badana, foi para Brooklyn ser empregada doméstica para poder escrever um romance. Pois saiu-se bem: os principais jornais e revistas de confiança nestas coisas – o Guardian, a New Yorker, o Economist, entre dezasseis publicações – consideraram A Vida Amorosa de Nathaniel P. um dos livros do ano. O protagonista, Nate para os mais próximos, acaba de negociar a sua primeira incursão na escrita ficcional por uma bela maquia (tudo indica que vai ter sucesso), é inteligente, bonito e culto, mas soma culpas por todas as mulheres que tem vindo a abandonar ao longo da vida, porquanto não parece saber viver um relacionamento sério, mesmo quando isso o faz sentir surpreendentemente bem. Desta feita, é Hannah, também aspirante a escritora publicada, igualmente culta e sofisticada, quem sofre os reveses da sua relação com o belo e interessante Nate, que tão depressa quer como não quer a sua companhia, a sua conversa e o seu sexo. Uma surpresa mesmo boa é ver como a autora, Adelle Waldman, se mete na pele de um homem e pensa masculino o tempo todo, falando das obsessões e medos do macho intelectual americano, que não perdoa o menor deslize cultural às suas parceiras. As conversas do grupo de amigos são, de resto, de um elitismo bastante inesperado, mas, enfim, estamos em Brooklyn, o bairro dos meninos que estudaram em Harvard e na Brown, procuram empregos em boas editoras e leram Proust e Flaubert. Vou ainda a meio e posso dizer que gosto bastante desta Hannah, vamos lá ver se ela consegue dar a volta ao difícil Nathaniel P.

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