Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

15
Mai15

Ensaio geral

Maria do Rosário Pedreira

Não, não se trata do ensaio para nenhum espectáculo de fados, mas de um programa da Rádio Renascença, conduzido por Maria João Costa desde há vários anos, com o nome de  Ensaio Geral. Para resumir, é uma entrevista a duas pessoas de profissões diferentes, uma delas, normalmente, ligada às letras. E essa entrevista, que é feita na bonita Livraria Férin, ali ao Chiado, é gravada ao vivo, diante do público que queira acorrer e escutar ao vivo os intervenientes (jornalista e convidados). Porém, numa segunda parte, já fechados os gravadores, os microfones permanecem ligados para que o público, em querendo, faça perguntas aos convidados ou os interpele. Pois bem, hoje à tarde, pelas 18h30, mais coisa menos coisa, estarei com a Aldina Duarte à conversa com a Maria João Costa sobre o último CD da artista (como já expliquei aqui, as palavras são da minha autoria) - e assim acabo mais uma semana de trabalho. Se quiserem, apareçam. (O programa Ensaio Geral é uma iniciativa conjunta da Livraria Férin, da Rádio Renascença e dos Booktailors.)

18297520_mkz76.jpeg

 

14
Mai15

Autores independentes

Maria do Rosário Pedreira

Cada vez há mais gente a querer publicar o que escreve – nem há já editoras suficientes para tanto livro; e esta invenção da Internet ajudou muito à criação da autopublicação, que está a tornar-se em todo o mundo um autêntico fenómeno e gera livros atrás de livros. Paginar uma obra sem ilustrações não é difícil, arranjar um amigo com jeito para desenho que faça uma capa em condições é mais difícil, mas não impossível. O problema é depois encontrar onde vender o rebento, sobretudo se for um livro não digital, pois plataformas deste tipo há muitas, mais do que chapéus; mas as pessoas ainda vão gostando do papel e de tirar um volume da estante para mostrar aos outros do que foram capazes. Pois bem: leio que nos EUA já existem livrarias exclusivamente para estes autores independentes. Alugam-se prateleiras a 60 dólares o trimestre e recolhem-se os lucros, ao que parece, a 100%, sem dar qualquer percentagem ao livreiro. Claro que o autor tem de gerir as faltas, o stock, a reposição. Mas é melhor do que não ver à venda o seu mais-que-tudo, com que quer impressionar conhecidos e familiares. Aqui ainda não fomos tão longe, embora haja umas tantas editoras que vivem apenas de fazer livros de encomenda (mas ganham muito dinheiro com isso). Uma fotografia de uma dessas livrarias norte-americanas, a Gulf Coast Bookstore, só para dar um cheirinho do que aí vem.

local authors.jpg

13
Mai15

Autores brutinhos

Maria do Rosário Pedreira

Conta-se muita coisa acerca dos autores, sobretudo dos que já morreram e não podem contradizer as histórias e lendas à sua volta. Custa a crer que quem escreve certos livros tão bonitos possa, por exemplo, escarrar num lenço diante dos alunos numa sala de aula, mas isto mesmo me contou o meu irmão que fazia um grande escritor já falecido, seu professor de liceu nos anos da Revolução. (Se não adivinharam de quem falo, dispenso-me de vos desmanchar o boneco.) Também me disse um amigo do Manel, que conheceu pessoalmente Torga nos seus tempos de Coimbra, que não sabia como conseguira ele escrever bonito como escreveu e engatar uma francesa, tão avaro e brutinho era. Pois eu só conto o que me contam, mas sei de uma história muito gira que mete José Régio e Aquilino Ribeiro e na qual o primeiro, pouco depois de ter publicado o seu romance autobiográfico A Velha Casa (título que muitos acharam levemente pomposo), foi à Livraria Betrand do Chiado, à porta da qual estava plantado o segundo, que era, nesse tempo, uma autoridade nas letras deste país. Parece que, ao ver chegar o poeta, que até era baixote ao pé dele, Aquilino lhe terá dado uma boa palmada nas costas e perguntado, irónico: «Ó Régio, afinal, a velha casa ou não casa?» História engraçada esta, sem dúvida, tal como a do escritor, menos famoso do que os anteriores, Mário Braga que, partilhando com o muito franco (e algo bruto) Joaquim Namorado a narração demorada de um episódio a que assistira, concluiu dizendo que aquilo dava um romance. Ao que Namorado imediatamente retorquiu: «Ai dar, dava, mas por favor não o escreva.»

12
Mai15

Dançando com a diferença

Maria do Rosário Pedreira

Um colega editor da Nova Delphi, uma editora que opera no Funchal e se encarrega também de organizar anualmente o Festival Literário da Madeira, pediu-me há uns meses um poema inédito para uma antologia. Tratava-se, no fundo, de publicar uma colectânea de poesia cujas receitas revertessem para o grupo Dançando com a Diferença, um projecto de Henrique Amoedo, cujo elenco inclui, "sem balizas" pessoas com deficiência ("artistas que dançam com o corpo, sempre, e não apesar do corpo"). Pois bem, dei, evidentemente, o poema, e a antologia foi recentemente publicada com a colaboração de todos os que quiseram ajudar: Alex Gozblau fez a capa, Gonçalo M. Tavares escreveu o prefácio e cerca de 70 poetas ofereceram os seus textos por esta boa causa. Agora, o volume intitulado 70 Poemas para Adorno (Adorno é o filósofo alemão que se interrogou sobre a possibilidade de se escrever poesia depois de Auschwitz) está aí, depois do seu lançamento oficial no Festival Literário da Madeira em Março último, e precisa de que todos a comprem e leiam. Fazer o bem lendo é coisa séria e faz-nos sentir bem.

 70poemas.jpg

 

 

11
Mai15

Sinceridade

Maria do Rosário Pedreira

Recentemente, perdemos dois grandes vultos nacionais: Herberto Helder e Manoel de Oliveira. Os jornais deram-lhes naturalmente o merecido destaque, páginas e páginas de artigos sobre a sua vida e obra, com a recolha de testemunhos de figuras de proa, velhos amigos e confrades. Mas, como quase sempre nestas coisas, ao elogio unânime reagiram de imediato algumas vozes escandalizadas, alegando que os encómios eram, na maioria, todos iguais, o que de alguma maneira indiciava que muitos dos seus autores não conheciam assim tão bem nem o poeta nem o cineasta e alguns nem sequer gostavam realmente dos filmes do último. A este propósito, contaram-me recentemente uma história bem curiosa. Há uns bons anos, num evento cultural em França, participavam num debate António Lobo Antunes e Manuel da Fonseca; depois de terem dado o seu contributo, parece que o moderador lhes perguntou o que achavam da obra de Manoel de Oliveira, que em França tinha um enorme sucesso e era objecto de muitos prémios. Manuel da Fonseca resolveu ser sincero e disse que a achava uma grande chatice. Os ouvintes franceses ficaram então completamente chocados e ouviu-se um enorme burburinho na sala, impedindo sequer o moderador de intervir. Foi quando Lobo Antunes levantou a mão, pedindo silêncio à plateia (como sabem, é também um autor muito apreciado em França), que a sala se acalmou para o ouvir dizer: «O Manuel da Fonseca tem toda a razão.» Muitos outros não têm, claro, a coragem de ser assim sinceros.

08
Mai15

Crónica Feminina

Maria do Rosário Pedreira

Quem é do meio dos livros (e sobretudo vivendo na zona centro) quase já de certeza ouviu falar de uma personalidade muito respeitada em Coimbra (e fora de Coimbra também), o alfarrabista Miguel de Carvalho. Porém, além de vender livros antigos na Baixa histórica da cidade, ele é também – ou acima de tudo – um grande animador e divulgador cultural, e é, de resto, nessa qualidade que o trago hoje a este blogue. Neste mês de Maio, Miguel de Carvalho organiza um encontro de poesia aos fins-de-semana numa bela iniciativa que se intitula Fractura Exposta e desta feita escolheu apenas poesia de mulheres e daí o subtítulo de Crónica Feminina. Entre outras, estará presente Ana Luísa Amaral, uma grande poetisa com uma grande voz para dizer poesia. Eu estarei no dia 23 à conversa com António Tavares. O programa pode ser consultado no cartaz abaixo. Apareçam.

 

cartaz cronica feminina.jpg

 

 

07
Mai15

Romance(s)

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui vos falei várias vezes da minha amiga Aldina Duarte, uma grande fadista com quem tenho o orgulho de conviver com frequência e de trabalhar. Pois não resisto a falar-vos hoje de um trabalho dela que acaba de sair e no qual tive a alegria de participar. Julgo ter-vos dito que a Aldina é uma mulher de muitos livros e leituras; o seu último disco antes deste chamou-se, aliás, Contos de Fados, porque cada uma das letras remetia para um conto, uma história (lenda, mito, romance, o que fosse). Desta vez, para a homenagem à literatura ser ainda maior, tive o prazer de escrever para a Aldina todo um romance, ou seja, uma história com princípio, meio e fim em catorze fados. É uma história de amor e envolve um triângulo - duas mulheres apaixonadas pelo mesmo homem -, porque se fosse fácil não teria graça. Contam-se os momentos da sedução e do namoro, mas também as primeiras desavenças, a traição, a separação e o luto (não conto o fim, senão não teria graça); e tudo isto usando uma panóplia de formas à disposição, das simples quadras às quintilhas, sextilhas, alexandrinos e fados com refrão. No início, era para ser um único CD, mas eis que Pedro Gonçalves, dos Dead Combo, chamado a dirigir musicalmente o projecto, teve uma ideia fantástica: a de, exactamente com as mesmas letras, mas afastando-se das melodias do fado tradicional, fazer um segundo CD completamente diferente do primeiro e muito mais arrojado, no qual participam também Camané, Ana Moura e Filipa Cardoso. E por isso aqui temos Romance(s), disponível desde dia 27 para quem o(s) quiser ouvir, sendo certo que, ao ouvir, me lerá também. Espero que gostem, eu adorei esta experiência e a Aldina canta sublimemente neste trabalho.

CD aldina.jpg

06
Mai15

Falar

Maria do Rosário Pedreira

Não sei se se aprende alguma coisa com um autor ouvindo-o falar das suas estratégias (se é que serão estratégias) de criação. Mais se aprende quase de certeza lendo o que escreve e vendo à transparência (ou opacidade) os seus textos. E, porém, achou alguém que eu – escritora mais bissexta do que os anos – devia partilhar com os interessados pelas coisas da escrita (de poemas, antes de tudo, mas também de blogues como este) a minha oficina, o como-faço depois de a ideia – essa estrangeira – me visitar. Pois nem eu sei bem explicar, parece-me, pelo menos enquanto não começar a falar, coisa em que nunca estou completamente à vontade, sobretudo quando encaro rostos assim curiosos. Ainda por cima, pedem-me que fale no feminino, sexo que alguns dizem fraco, ou mais fraco, só porque os pulsos das mulheres são, vá lá, mais delgados, e os seus punhos fechados como flores em botão. Faço flores, bem sei, para não ir directa ao assunto; mas sem saber exactamente porquê (só descobrirei in loco, presumo), disse sim ao convite e vou estar por quatro horas a debitar, mal ou bem, sobre criatividade – a minha, mas também a dos autores que me impressionaram e, quanto a isso, será seguramente difícil eleger só uma parcelinha, mas fácil elogiar. O caso é que, se vos apetecer, apareçam, inscrevam-se. A sessão é no próximo sábado às 14h30, na Rua do Possolo, 16, à Estrela, e faz parte dos Cursos Ícone da Ec.on. Mais informações no link abaixo. Veremos.

 

http://escritacriativaonline.net/autores/maria-do-rosario-pedreira/

 

cartaz Escrita Criativa.jpg

 

05
Mai15

Tarde infame

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui vos falei de um romance de fundo histórico que publiquei recentemente. Chama-se Veio Depois a Noite Infame e assina-o Margarida Palma, uma autora apaixonada pela História, que já ensinou, e pelo período da I República. Com personagens deliciosas e muitos mal-entendidos que lembram alguns livros de Jane Austen, a obra fala de um ano especial, 1921, na cidade de Lisboa, em particular dos habitantes de uma praça bem conhecida e hoje pejada de centros comerciais e um hotel bastante feio. Pois é tempo de apresentar publicamente o romance e logo à tarde, pelas 18h30, teremos na Livraria Buchholz, ali ao Marquês de Pombal, a professora Maria Fernanda Rollo para o fazer. Venham, venham, e não serão demais.

VeioDepoisNoite_convite.jpg

 

 

04
Mai15

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

O primeiro livro de ficção que acompanhei nos meus dias inaugurais de actividade editorial, ainda como assistente e em part-time, foi O Jardim de Cimento, de Ian McEwan, que era também o primeiro romance do autor; e, sei lá se por isso, li toda a sua obra ficcional publicada, tirando um libreto. Ocupo-me agora de A Balada de Adam Henry, um relato surpreendente sobre a vida de uma juíza de 59 anos, Fiona, a atravessar uma crise conjugal e a sentenciar todos os dias sobre casos de famílias desavindas, nos quais as crianças (que não teve) são quase sempre as principais vítimas. O marido adora-a – ama-a, na verdade –, mas de repente falta-lhe o sexo, não quer sentir-se velho nem morto e julga poder, fora de casa, ter uma parceira com a autorização de Fiona, o que origina uma ruptura no casal. Ao mesmo tempo, num hospital, um jovem prestes a atingir a maioridade recusa uma transfusão de sangue por pertencer às Testemunhas de Jeová e os seus médicos apelam ao Tribunal para que se evite a sua morte dolorosa. Nem sabe Fiona como este episódio judicial e o seu encontro com o jovem Adam irá ajudá-la a resolver os problemas que tem dentro de casa. Ian MacEwan é um veterano, mas dá gosto ver como investiga a Lei e o Direito e não se encosta apenas ao seu poder criativo, trazendo-nos histórias incríveis que cruzam provavelmente os tribunais do mundo inteiro. E, tal como em outros romances que li dele (já aqui falei de alguns, mas destaco A Criança no Tempo, um dos meus favoritos), mostra conhecer o lado feminino com grande profundidade e saber o que pensam e sentem as mulheres em várias situações. Estou perto do desfecho, mas sinto que vêm notícias más a caminho para a juíza Fiona e para Adam... De todo o modo, são boas notícias para os leitores: este A Balada de Adam Henry é um grande romance. A tradução, muito boa, é de Ana Falcão Bastos.

Pág. 2/2