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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

12
Jun15

Fugir da infância

Maria do Rosário Pedreira

Dizem que todos somos marcados pela infância que tivemos – e isso é mais do que certo para José, o protagonista de O Caçador do Verão, o novo romance de Hugo Gonçalves (publicado cerca de dois anos depois do aclamado Enquanto Lisboa Arde, o Rio de Janeiro Pega Fogo). José nasceu e cresceu no seio de uma família um tanto desequilibrada – e, mesmo que o tente, não poderá esquecer aquele Verão em que a mãe o deixou numa aldeia algarvia em casa de uma desconhecida e se foi embora com um namorado para Espanha. Valeu ao rapaz a companhia de um trio de irmãos muito singular (e que são das melhores personagens do romance), estar no epicentro de uma aventura aliciante – a fuga da prisão uma perigosa quadrilha – e, por fim, ter um avô com a cabeça no lugar, que o vai recuperar ao fim de umas semanas e se portará doravante como seu pai. José, hoje quarentão e sem mãe, quer – por todas as razões – fugir a estas memórias magoadas, mas não consegue: o avô, com quem não fala há anos, convoca-o para uma reunião no lar onde vive. Afinal, que lhe quererá? Pois, é preciso chegar à última página para o saber... História séria mas com bons momentos de humor, triste mas com uma alegria muito terna, O Caçador do Verão é também um regresso a um certo Portugal que queria ser europeu, desconhecendo ainda o que isso tinha de perigoso.

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11
Jun15

As nossas bibliotecas

Maria do Rosário Pedreira

Uma vez falei com uma senhora a quem tinham assaltado a casa durante umas férias com a ajuda de uma camioneta de mudanças. Limparam tudo – até as gavetas da cozinha (provavelmente para tornar credível a suposta mudança de casa) – mas, curiosamente, deixaram ficar os livros todos; o peso deve ter desmotivado os ladrões, mas não foi só isso, todos sabemos. Muitas vezes me pergunto o que será dos meus livros quando morrer. Mesmo que alguns dos meus sobrinhos gostem de ler (uns são ainda demasiado pequenos para se saber se a leitura os vai realmente apaixonar), gostarão eles de todos os meus livros e, sobretudo, viverão em casas com espaço para os guardar? Grandes leitores e coleccionadores como Pacheco Pereira ou Vasco Graça Moura – e com dinheiro para isso – arrendaram quintas e armazéns para poderem estar perto dos seus livros. O primeiro criou um importante centro de documentação ao serviço de todos, o que garante já uma partilha; mas o segundo deixou, ao morrer, um espólio impressionante (cerca de 40 000 volumes) que não caberá, digo eu, na casa de nenhum dos filhos. Leio que a família pretende disponibilizá-lo, mas não doá-lo, à Faculdade de Letras do Porto. Quererá isto dizer que, apesar de tudo, gostariam de continuar a ser donos desses livros, mas provavelmente não podem tê-los em casa? Que farão um dia à minha desarrumada biblioteca os meus sobrinhos (não tenho filhos), gostando ou não de ficar com ela?

09
Jun15

O estranho em nós

Maria do Rosário Pedreira

«Um preto de cabeleira loira e um branco de carapinha não é natural.» Assim começava um velho anúncio de televisão a um produto que restaurava a cor original do cabelo (uma espécie de tinta, suponho). Vem esta memória a propósito do que vemos como natural e de estranharmos nos outros – estrangeiros – coisas que afinal são mais do que naturais, mas que não correspondem ao arquétipo que temos deles, porque as imagens que construímos através dos media são redutoras, referindo-se normalmente àquela minoria que dá direito a notícia. Em Americanah, a nigeriana Chimamanda Ngosi Adichie conta que, nos EUA, umas cabeleireiras que lhe desfrisaram uma vez o cabelo a elogiaram por falar tão bem inglês, estando na América há tão pouco tempo. A verdade é que a língua oficial da Nigéria é o inglês (e que os americanos não são propriamente cultos); mas, quando pensamos hoje na Nigéria, vemos logo os Boko Haram raptando 200 raparigas de uma só vez e ouvimo-los, sem querer, gaguejar numa qualquer língua selvagem e incompreensível. Quando fui a Éfeso (e, se destruírem Palmira, sempre nos consolará a beleza de Éfeso), a guia turística turca era loira, usava mini-saia e bebia cerveja – e logo foi avisando os mais admirados (de novo, eram os americanos) que não constituía um caso especial. Também num destes fins-de-semana, na Ericeira, ouvi comentar o espanto que fora para muita gente a chegada de um grupo de surfistas afegãos – muitos correram a vê-los como se se tratasse de uma atracção de feira; e talvez estivessem à espera de encontrar sobre as pranchas homens de fatiotas até aos pés e turbantes, de metralhadora a tiracolo, feitos os talibãs que encheram os ecrãs das televisões ao longo de muito tempo. A imprensa e a televisão, embora nos dêem informação, também nos criam imagens truncadas de certos países e é preciso estarmos alertados para não generalizarmos a partir delas. O que vale é que, lendo livros, mesmo ficções como Americanah, podemos corrigir a nossa ideia do que é ou não natural.

08
Jun15

Na Invicta

Maria do Rosário Pedreira

Hoje e amanhã estarei na Invicta – e, longe do computador, não poderei ler os vossos comentários ao longo do dia nem corrigir erros e gralhas com a ajuda de alguns. Nem todos os «meus» escritores são lisboetas, e Nuno Gomes Garcia, autor de O Dia em Que o Sol Se Apagou, que publiquei recentemente, nasceu em Matosinhos e, ainda que vivendo actualmente em Paris, volta a Portugal para a apresentação pública do seu romance amanhã, na belíssima Lello, sita no Porto. Também Gabriela Ruivo Trindade, autora de Uma Outra Voz, aproveita uma viagem de uma semana a Portugal (mora em Londres há dez anos) para organizar uma sessão em torno do romance vencedor do Prémio LeYa em 2013, numa cidade onde tem amigos e família. Esse encontro realizar-se-á depois de amanhã, no auditório do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto. Se vive, pois, na Invicta ou por aqueles lados, está obviamente convidado para os dois lançamentos. Eu, por consideração para com os leitores deste blogue, deixo um post prontinho para amanhã e depois só regresso dia 11, que na quarta é dia de os Portugueses descansarem.

 

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05
Jun15

Roubado em Lisboa

Maria do Rosário Pedreira

A minha mãe tem sobre a cómoda do quarto uma bonita tacinha de porcelana; quando a viramos ao contrário, diz na base: «Roubada em Madrid no Hotel x.» Roubar é feio, claro, mas o hotel de que já não recordo o nome incentivava a isso – ou, se quisermos, dava um presente aos hóspedes de forma bastante original. Na minha adolescência, tive amigos que rapinavam coisas – não muito importantes, é certo, mas mesmo assim…- e tinham descontracção para isso, o que nunca foi o meu caso. Também alguns colegas de faculdade iam a livrarias e à Feira do Livro apetrechar-se de leituras. Nunca fui capaz, por mais que gostasse de ler e achasse que os livros mereciam ser lidos fosse de que maneira fosse. Um dia destes, uma amiga contou-nos que tinha roubado sem querer a revista Estante, uma publicação da FNAC, de pequeno formato e papel reciclado (pelo menos, aparenta), com entrevistas, artigos de opinião, recensões e curiosidades à roda dos livros. Disse-nos que pensou que era para as pessoas levarem – até pela forma como estava exposta – e que só ao chegar a casa se apercebeu de que, na contracapa, havia uma etiqueta com o preço (1,50 €), mas que já não teve forças para voltar à loja. E – curioso – foi só quando acabou de contar essa sua história que o Manel olhou para mim e para ela alternadamente com um sorriso maroto e a seguir lhe perguntou se era mesmo verdade que a revista se vendia. É que também ele a tinha roubado... sem querer. Pelos vistos, a Estante tem ar de coisa para dar, mas, meus senhores, não diz «Roubada em Lisboa» e, embora baratinha, tem um preço. Assim sendo, se a virem numa loja da FNAC, não se distraiam.

04
Jun15

A bunch of escritores

Maria do Rosário Pedreira

Embora Portugal seja uma aldeia, não pensem que todos os escritores se conhecem, mesmo os que habitam a mesma cidade e têm idades próximas. A Figueira da Foz vai assistir hoje no seu museu, pelas 21h30, a um encontro que nunca se deu e que, provavelmente, também não se vai repetir tão cedo (ou, pelo menos, nos mesmos moldes). Para estas afamadas 5.as de Leitura, temos a bunch of escritores, e a particularidade é que todos ganharam o Prémio LeYa – são na verdade os vencedores das últimas quatro edições desse prémio: João Ricardo Pedro (com O Teu Rosto Será o Último), Nuno Camarneiro (que é figueirense e ganhou com Debaixo de Algum Céu), Gabriela Ruivo Trindade (vinda de Londres e autora de Uma Outra Voz) e ainda Afonso Reis Cabral (o mais recente galardoado com a obra O Meu Irmão). Mas não é tudo: convida e modera a conversa um finalista do mesmo prémio, António Tavares (autor de As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia), que é também o vice-presidente da Câmara da Figueira da Foz. E eu também vou, claro, pois não perdia uma reunião assim por nada deste mundo. Quem foi que disse que devíamos descentralizar? Pronto, nós descentralizámos. Agora, apareçam!

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03
Jun15

Mais logo

Maria do Rosário Pedreira

Quem aqui se viu retratado no final do ano passado pela pena de Joao Pinto Coelho não vai certamente querer faltar ao lançamento, mais logo, do seu romance Perguntem a Sarah Gross, finalista do Prémio LeYa. Trata-se de uma história contada em tempos e lugares distintos, pois é, afinal, nesse país-continente chamado Estados Unidos – e no final dos anos 1960 – que vamos conhecer a cidade de Osphitzin desde o final da Primeira Guerra Mundial e, com ela, também a vida de Sarah, uma rapariga nascida na América mas cedo recambiada para a Polónia, donde só sairá no fim da Segunda Guerra Mundial e na companhia de Esther, amiga que nunca a abandonou e conhece melhor do que ninguém (até porque os acompanhou) os dramas terríveis da sua vida e as perdas que suportou nessa cidade que, pelas piores razões, é hoje conhecida em todo o mundo por Auschwitz. Para saber mais, não conte comigo. Na FNAC do Chiado, pelas 18h30, contamos com uma oradora de luxo – Irene Pimentel – para apresentar a obra; e fazemos questão da sua companhia, estivesse ou não nos belíssimos desenhos que o autor ofereceu a este blogue. Por isso, arranje maneira de sair hoje mais cedo. O metro vai quase até à porta e o João Pinto Coelho merece.

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02
Jun15

Livro deitado

Maria do Rosário Pedreira

Há livros que chamam por nós, apesar de não serem para a nossa idade. Foi o que se passou comigo recentemente com A Cantora Deitada, de Sandro William Junqueira (autor de um romance de que já aqui falei, Um Piano para Cavalos Altos); mas não por conhecer o nome do escritor de outras literaturas, antes porque a capa, que abaixo reproduzo, da grande Maria João Lima, é um assobio todo virado para quem a olha. Gosto de meias às riscas e os sapatinhos de presilha transportam-me logo para festas de infância, mas a ilustração, acredito, tem o mesmo efeito sobre quem já cresceu a usar ténis ou alpergatas. E, aberto o livro, ele está deitado, como, aliás, a protagonista, Alice, que se deita na esquina de uma cidade e desata a cantar, crente de que, se o fizer de pé, como a maioria das outras pessoas, a canção que lhe sai da garganta cairá ao chão, não podendo chegar aos ouvidos dos pássaros. O resto não posso contar, que o livro é mais ilustração do que história, mas há aqui um casamento muito feliz entre imagem e texto, qualquer coisa que, enfim, sabe chamar por nós, obrigar-nos a parar um instante e... ler. E isso, num livro para crianças, é fundamental. E, se é para crianças e os adultos gostam, cinco estrelas! Parabéns aos autores.

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01
Jun15

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Acabo de ler (por não ter conseguido parar enquanto não via virada a última página) O Meteorologista, de Olivier Rolin, autor francês de quem li outros romances, dos quais o meu preferido até hoje era Porto Sudão (e já aqui escrevi sobre ele), mas este não lhe fica atrás. É um livro apaixonante por muitas razões, investigado até ao osso, cuidadoso, muito bem escrito e realmente original (como uma radiografia de um tempo feita através da biografia de um homem). Evoca – e até cita às vezes – Tudo Passa, de Vasily Grossman (outro grande romance) e debruça-se sobre a história exemplar de um meteorologista que amava as nuvens, cumprindo com brio as suas tarefas na direcção do instituto meteorológico ao serviço da Rússia e do Partido. Mas estamos na época do Grande Terror estalinista, em que denunciar, caluniar e mentir podem salvar a pele. E eis que, como em O Processo de Kafka, este homem relativamente apagado, que acreditava no regime mesmo sendo filho da aristocracia latifundiária, se vê apanhado nas malhas das grandes purgas estalinistas sem saber como nem porquê (talvez lhe bastasse ser filho da aristocracia latifundiária); escreve então do gulag para onde é levado cartas nas quais tenta educar à distância a filha pequena, que não mais verá, através de desenhos e adivinhas, e presentear a sua jovem mulher com figuras feitas de pedrinhas representando o próprio Estaline de quem nunca deixa de esperar a correcção da injustiça. Morrerá fuzilado em 1937, mas isso – bem como a maneira e o local onde tudo acontece – só se saberá em meados dos anos 1990 (é importante ler este livro também para percebermos até que ponto foi a paranóia colectiva da URSS no tempo do Grande Terror). Sobrarão os seus desenhos para a filha, o motor que levou Rolin a pesquisar a história do seu protagonista. Com um final absolutamente notável, uma reflexão lúcida e desarmante, este é um daqueles livros que mexem connosco e nunca mais nos deixarão sossegados. Se não devemos esquecer nunca o Holocausto, também nunca mais podemos esquecer este período negro da história russa. Indispensável ler esta obra-prima.

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