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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

30
Set15

O que não dizer a um escritor

Maria do Rosário Pedreira

A escritora britânica Joanne Harris desafiou os leitores do seu blogue a enviarem-lhe frases que fossem simplesmente a última coisa que um escritor quereria ouvir – e houve de tudo, mas a autora seleccionou as que considerou pessoalmente mais irritantes, entre as quais figurava uma, fora do comum, que eu achei divertidíssima: «Desculpe, mas só temos descafeinado.» Em todo o caso, as mais contundentes diziam respeito à ideia que os outros fazem da profissão de escritor e do que, na verdade, é escrever. Ora vejam alguns exemplos: «Para além de ser escritora, o que é que faz?» «Ah, escreve livros? Mas qual é o seu verdadeiro emprego?» «Nunca mais acaba o livro porquê? Caramba, não pode ser assim tão difícil.» «Quando me reformar, também vou escrever um livro.» «Eu também escreveria se tivesse mais tempo livre.» «Que sorte ter uma família que a apoie/sustente.» Num outro patamar, estavam frases um tanto inconvenientes que diziam respeito ao completo desconhecimento da carreira da autora, como «Ah é escritora? E que pseudónimo usa?» ou «Ah, pensei que já tinha morrido». Uma outra questão – a de se achar que os escritores devem fazer borlas, que já tem sido aqui discutida – era levantada pela afirmação «Não lhe podemos pagar nada mas é uma excelente oportunidade para ver o seu nome ligado a uma publicação como a nossa». E, entre muitas outras, gostei da que dizia respeito ao veredicto depois da leitura de uma versão final de um romance: «Até que nem está nada mal para um primeiro rascunho. É um rascunho, certo?» Se conhecer algum escritor, já sabe, há coisas que não lhe deve perguntar.

29
Set15

Turismo literário

Maria do Rosário Pedreira

Cada vez mais é preciso encontrar o ovo de Colombo em matéria de turismo – e a literatura também atrai portugueses e estrangeiros. A Direcção Regional de Cultura do Norte (DRCN) lançou, por isso, recentemente o projecto Escritores a Norte, que inclui vários autores portugueses de renome, promovendo as respectivas obras num itinerário traçado a partir dos espaços que lhes são dedicados. «Hoje as pessoas querem visitar um território que se diferencie e nós entendemos que utilizar estes vultos da cultura nacional, que têm uma relação próxima com o Norte, seria uma boa forma de valorizar o território», diz o director da DRCN, que anuncia também, no âmbito deste projecto, a criação de um portal online (ver link abaixo) onde é possível encontrar toda a informação sobre as casas-museus envolvidas no projecto e os escritores e património associados, bem como a publicação de um livro e a produção de nove documentários. Para já, entre os autores visados (e as suas casas), contam-se Miguel Torga e José Régio, Camilo (claro) e Aquilino, Ferreira de Castro, Eça e Guerra Junqueiro. Mas, com o tempo, se a coisa correr bem, quem sabe se não se multiplicam as visitas a outros locais relacionados com outros escritores e vultos da cultura nortenha? Esta pode ser uma bela forma de viajar.

 

www.escritoresanorte.pt

28
Set15

A menina do cabelo azul

Maria do Rosário Pedreira

Os meus autores de romances também gostam de escrever livros para crianças e Não Acordem os Pardais, de Nuno Camarneiro (texto) e Rosário Pinheiro (ilustrações), é o primeiro que publico este ano (mais para a frente darei também a conhecer estreia de Ana Margarida de Carvalho na literatura infantil). Neste belo livro do Nuno, a Rita tem o cabelo azul e muitas perguntas para fazer aos pais que, por cansaço, às vezes não dão muita atenção ao que lhe respondem. Daí que a menina tente saber por si própria onde mora o papão, que afinal é bem medricas, para onde vão os sonhos (estarão em caixas de cartão?) e onde dormem os pardais que, por acaso, fazem bailes bem giros no sótão da casa quando ninguém está a ver. Um texto divertido e imagens muito bonitas para deliciar meninos e meninas com cabelos de todas as cores.

 

capa_9789722058407_nao_acordem_os_pardais.jpg

25
Set15

Lembrar

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui vos falei de uma actividade organizada pelo jornalista João Morales que dá pelo nome de Recordar os Esquecidos e acontece no último sábado de cada mês, ao fim da tarde, na Livraria Almedina do Atrium Saldanha. Tem normalmente dois convidados, que escolhem uma pequena lista de livros mais ou menos esquecidos pelo público e pelas livrarias, hoje difíceis de encontrar; e sobre eles falam a quem assiste com o intuito de, pelo menos entre os presentes, conseguirem que alguns desses títulos voltem a ser lidos. Vou estar então por lá amanhã a contar dos meus queridos esquecidos; e em muito boa companhia – com o João Paulo Cotrim, editor da Abysmo e, claro, também o organizador do encontro. Falarei, entre outros, dos livros Casa de Campo, de José Donoso, Clube de Cavalheiros, de Anne Harris, Uma Barragem contra o Pacífico, de Marguerite Duras e Narciso e Goldmundo, de Hermann Hesse. Terei todo o gosto em que por lá apareçam para saber o resto.

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24
Set15

Leiria connosco

Maria do Rosário Pedreira

Já vai sendo hábito. Mas é irresistível quando a Livraria Arquivo, de Leiria, nos convida a visitá-la. Desta feita, teremos para apresentar dois livros que saíram recentemente: a obra do nosso retratista oficial, João Pinto Coelho, intitulada Perguntem a Sarah Gross, um romance admirável sobre Auschwitz antes e depois de o ser, com as histórias de duas mulheres que guardam muito de terrível e secreto; e o delicioso O Caçador do Verão, de Hugo Gonçalves, com algumas das mais belas páginas sobre a infância de um protagonista meio perdido na história do passado da família. Se estiverem por esses lados, por favor, apareçam e de certeza que não se arrependerão.

 

AConversaCom_JoaoPintoCoelho_HugoGonçalves_Set15_

23
Set15

Pão, pão, vinho, vinho

Maria do Rosário Pedreira

Já vos falei do belo livro de Paulo Moreiras – Pão & Vinho – que trata de duas coisas de que os Portugueses (e muitos mais habitantes deste mundo) não abdicam e que fazem, de resto, parte da sua matriz identitária. É uma obra fascinante, além de bonita, que aborda as origens destes dois produtos típicos da nossa gastronomia, mas que nos oferece um sem-número de histórias divertidas e curiosas à sua volta, bem como adivinhas, provérbios, lendas e tradições resgatadas ao nosso património etnográfico. Ora, este livro terá uma sessão de apresentação na próxima sexta, na Casa da Cultura, em Setúbal, com o apoio da Livraria Culsete, do BlogOperatório (de José Teófilo Duarte) e do jornal Sem Mais, com a novidade de contar também com a colaboração de uma enóloga, Joana Vida da Adega Venâncio Costa Lima, que organiza no local uma prova de vinhos. Não falte!

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22
Set15

Mudar o mundo

Maria do Rosário Pedreira

Há livros que mudam a nossa vida, que a viram do avesso e nos fazem pensar em coisas que nunca teríamos pensado sem eles. Há livros que nos mudam por dentro, e é bom que isso aconteça, significa que cumpriram o objectivo de dialogar com os leitores. Mas há livros que conseguiram mudar o mundo inteiro com as suas ideias e acabaram por influenciar os homens e mulheres do seu tempo e muitos outros de gerações subsequentes. Podem ser tratados ou romances, livros religiosos ou peças de teatro, não importa. O jornal The Guardian (desculpem estar sempre a citá-lo, mas é um jornal tão interessante) elaborou uma lista de dez títulos desta natureza e põe à cabeça O Segundo Sexo, de Simone De Beauvoir, obra revolucionária no tocante à sexualidade feminina que irritou o Vaticano nos finais dos anos 40, quando foi publicada. Mas do rol fazem também parte a Bíblia, claro, ou Analectos de Confúcio, um texto com 2400 anos que continua a ser lido até hoje. Não podiam também faltar textos científicos, como A Origem das Espécies, de Charles Darwin, ou Elementos, de Euclides. A Interpretação dos Sonhos, de Freud, tinha de fazer parte desta escolha, tal como O Manifesto Comunista, de Engels e Marx, que revolucionou o mundo. Ainda temos a obra de Shakespeare e o romance Beloved, de Toni Morisson, a afro-americana premiada com o Nobel da Literatura. E um livro que confesso não conhecer, A Sand County Almanac, obra póstuma de Aldo Leopold que é, pelos vistos, considerada um dos mais importantes livros sobre a Natureza.

21
Set15

Puro mal

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui falei de A Zona de Interesse, do britânico Martin Amis, por causa da polémica que criou assim que foi publicado no Reino Unido e que levou alguns dos editores habituais do autor noutros países – especialmente em Franca e na Alemanha – a recusarem a sua publicação. Na altura, quando li o artigo que me serviu de base a esse post, fiquei com a ideia de que Martin Amis quisera apenas brincar com coisas muito sérias, como o Holocausto; mas, depois de ler o livro, não acho que seja brincar – talvez mais falar de um assunto que é muito sensível de forma completamente desbragada e introduzir na temática terrível dos campos de concentração uma história de amor entre as não-vítimas, que começa por ser um engate puro e duro, mas acaba por tornar-se uma paixão inusitada – de uma das partes, pelo menos. O romance, que tem lugar em Auschwitz (a zona de interesse), tem três narradores: o dandy Thomsen (sobrinho do secretário de Hitler e, portanto, intocável); o comandante do campo, Paul Doll, conhecido como o Velho Beberrão e marido de Hannah Doll, que Thomsen cobiça; e por fim o judeu Szmul, um dos homens mais tristes do Lager, escolhido para seleccionar entre os seus pares quem morre e quem se safa e para carregar os cadáveres para fora da vista da leva seguinte de judeus (a parte mais bonita, mas se calhar a mais chocante, sobretudo ao abordar velhos e crianças). Para quem gosta do humor inglês, talvez os editores que recusaram publicar a obra possam parecer demasiado picuinhas, porque, não fosse o tom (basta ler a página que o editor português destaca sobre as vítimas de experiências médicas), tudo o que aqui se conta é tremendo, mas soa autêntico e é profundamente interessante. Para mim, o maior problema foi acompanhar páginas e páginas cheias de palavras alemãs – nomes, cargos, tiques de linguagem das personagens (a extraordinária Cristina Torrão tem de certeza a vantagem de não sentir isto como obstáculo) que tornaram a leitura cansativa e não me permitiram tirar todo o partido da obra que seria desejável. Mesmo assim, acho que deve ler-se – mas, atenção, é um prato que se serve mesmo frio.

18
Set15

Arrumadinho ou nem por isso?

Maria do Rosário Pedreira

O jornal The Guardian revela que, nos dias de hoje, o aspecto das secretárias se tornou uma questão importante para intelectuais e gestores em todo o mundo e que já muito se tem escrito e investigado sobre o assunto. Tenho ideia de que o que temos em cima das nossas secretárias e a forma como as deixamos ao fim de um dia de trabalho dirá bastante acerca da nossa personalidade. Eu sou arrumada na minha desordem, mas tenho de deixar sobre a minha mesa tudo o que é para tratar no dia seguinte, pois, se cometo o disparate de o tirar da minha frente, posso realmente esquecê-lo durante semanas (a memória já não é o que era). O jornal britânico partilha a fotografia da secretária do escritor japonês Haruki Murakami, muito limpinha e organizada: além do computador, uma caneca com a bandeira da suíça, um bibelot de um jogador de baseball do seu clube, alguns talismãs trazidos de viagens, dois copos cheios de lápis iguaizinhos, um candeeiro, uma agenda e pouco mais. Serão assim tão despojadas e vazias as dos outros escritores? E as das pessoas com outras profissões? O Guardian pede que lhes enviemos fotografias das nossas secretárias e promete publicar as suas preferidas, pedindo que, por favor, não as limpemos para o retrato. Quer contribuir ou nem por isso?

 

http://www.theguardian.com/books/booksblog/2015/aug/18/heres-haruki-murakamis-desk-is-yours-as-tidy?CMP=EMCBKSEML3964

17
Set15

Poesia conjugal

Maria do Rosário Pedreira

Hoje tenham paciência, mas não me vou esforçar muito. Logo à tarde o Manel vai apresentar livro da sua autoria e dá-me de mão beijada um tema para o post de hoje. Pois é, depois de muita insistência minha e de muita preguiça dele (a história já tem uns anitos), lá se convenceu o senhor editor e marido a olhar para toda a sua produção poética escrita desde os anos 1960 até hoje e a escolher os poemas que achou deviam figurar num livro para a posteridade. A sua Poesia Reunida chama-se por isso O Pouco Que Sobrou de Quase Nada (ele foi demasiado exigente, mas a vida do editor é cortar, cortar…) e vai ser lançada hoje pelas 18h30 no Restaurante do El Corte Inglés. Aqui fica uma amostra à la O’Neill para os mais curiosos:

 

CHIADO

 

aquelas pernas ali a dar a dar

dos homens levam os olhos ao passar

 

são borboletas canários verde mar

onde mergulho a medo o meu olhar

são promessas que sei sem cobertura

de uma viagem pela interior natura

 

aquelas pernas ali a dar a dar

dos homens levam os olhos ao passar

 

são às dezenas às centenas ao milhar

a desenharem nos passeios pombas brancas

nascem nos pés e vão até às ancas

por um caminho que é bom de passear

 

aquelas pernas ali a dar a dar

dos homens levam os olhos ao passar

 

umas claras são outras morenas

umas marias outras manuelas

umas maiores outras mais pequenas

mas as tuas são melhores que todas elas

 

as tuas pernas aí a dar a dar

que já nem posso este poema terminar

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