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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Set15

Invenções

Maria do Rosário Pedreira

Uma vez, sentada à mesa de um jantar durante um festival literário, ouvi uma conhecida escritora portuguesa dizer, com a maior das calmas, que Borges (esse mesmo, o escritor argentino) não tinha estilo. Não comentei; o disparate só podia ter dois motivos: inveja ou desconhecimento (os escritores não lêem tudo e falam muitas vezes do que não leram como se o tivessem feito). Tenho-me posto a degustar o genial Jorge Luis no original depois de o ter feito em português – e se há coisa de que não pode ser acusado é de não possuir uma voz própria, inimitável e, porém, capaz de se intrometer na escrita de dúzias de escritores até aos dias de hoje. O argentino que tinha portugueses entre os seus antepassados é realmente um fantástico inventor – e isso é desde logo notório nos seus textos sobre livros fictícios (mas que bem podiam ter existido), como o famoso «Pierre Menard, autor do Quixote», «Tlön, Uqbar, Orbis Tertius» ou (em espanhol agora, porque não me lembro de como foi traduzido em português) «El acercamiento a Almotásim». Estes e outros (como o muito citado conto «A Biblioteca de Babel») fazem parte do volume Ficções, que obteve o Prémio Internacional de Literatura, atribuído por editores de França, EUA, Inglaterra, Alemanha, Itália e Espanha em 1961 e reli agora numa velhinha edição de bolso da Alianza Editorial roubada às estantes do Manel. Mas o mestre está todo traduzido em português e é imperdível, por isso avancem quanto antes, não dêem ouvidos a quem desconhece e apouca, prestando um mau serviço.

15
Set15

Portoguês

Maria do Rosário Pedreira

Não, não me enganei a escrever, nem errei por mera ignorância. A palavra não existe, mas faz parte do título de um dicionário à moda do Porto. Admirado? Não fique; a justificação até tem graça: um grupo de autores (portuenses, suponho) – Ana Cruz, Cristina Vieira Caldas e João Carlos Brito, todos ligados ao ensino – resolveu coligir mais de 1000 termos e expressões de calão da variante linguística dos falantes do Porto e traduzi-los para inglês, apresentando a sua tradução literal (que, segundo leio, dá um resultado risível na maioria dos casos), o seu significado e, por fim, as expressões equivalentes em inglês, com variantes para Inglaterra, Estados Unidos, Austrália e Escócia. A obra intitula-se Dicionário PORTOguês-Inglês e os seus autores acreditam que contribui para a afirmação e a identidade do acervo linguístico dos portuenses, sendo ainda útil aos turistas que visitam a Invicta e que assim podem tomar contacto com a diversidade lexical do português falado na capital nortenha. O dicionário contém ainda capítulos sobre alimentação típica do Porto, bem como algumas histórias e, como não podia deixar de ser, um capítulo sobre futebol.

14
Set15

Na Indochina

Maria do Rosário Pedreira

Antes de férias, comuniquei que estava de regresso a alguns autores clássicos – e cheguei a escrever sobre livros de Steinbeck e Camus. Mas na verdade não me fiquei por aí e deliciei-me com outros, entre os quais Graham Greene e o seu O Americano Tranquilo que, de resto, partilhei com o Manel (já se sabe, isto das leituras atrai sempre quem está perto). A história passa-se na Indochina durante a guerra com os Franceses e envolve na mesma trama o narrador – um jornalista inglês que se adaptou ao Vietname e não tem qualquer desejo de regressar à pátria –, o jovem americano Pyle – tranquilo, ingénuo e um pouco tonto, mas a trabalhar para os Serviços Secretos dos EUA – e a bela Phuong – uma rapariga local que vive com o primeiro há dois anos mas é desejada pelo segundo, união que agrada à irmã mais velha, que vê nela uma hipótese de um bom casamento (o jornalista é casado, mais velho e sem bens). Mas o triângulo amoroso e o que se passa com cada um dos seus vértices ultrapassam grandemente a questão romântica, e o brilhante Greene dá-nos uma visão sublime das forças em jogo numa guerra sangrenta que causou muitas mortes a civis, ao mesmo tempo que vai desvendando a vida do protagonista e as acções inesperadas do americano tranquilo entre emboscadas, viagens perigosas e bombardeamentos em praças e cafés de Saigão e Hanói. Deixando-nos a nós, leitores, numa guerra de nervos até à última página, este romance é realmente uma delícia de construção.

11
Set15

Ler e andar

Maria do Rosário Pedreira

Leio num blogue do Brasil a notícia de que na Roménia o incentivo à leitura é levado muito a sério e que se multiplicam acções para o concretizar, algumas delas francamente originais. É o caso da praticada numa determinada cidade universitária, na qual um estudante teve a ideia de propor ao presidente da Câmara, ao longo de meia dúzia de dias, o transporte público gratuito para quem se fizesse acompanhar de um livro. Era suposto que a obra fosse para ler durante a viagem – e o poder local aceitou-a, mesmo sabendo que muitos passageiros podiam carregar com eles livros já lidos ou que nem tencionavam ler. Mas, para aumentar o incentivo, o mesmo estudante criou o projecto Bookface, que implica que, no Facebook, todos os membros que ponham no perfil fotografias suas a ler (e mostrando com nitidez a capa do respectivo livro) ganhem descontos em livrarias. Não sei se por cá a coisa funcionaria, mas até podia ser giro vermos o que os nossos amigos facebookianos andam a ler e receber as suas sugestões de leitura através dos retratos.

10
Set15

Angola minha

Maria do Rosário Pedreira

São muitíssimos os Portugueses que viveram em Angola no século passado e regressaram na ponte aérea de 1975. Este livro de que hoje falo é também para eles, mas não só. Escreveu-o um autor que viveu essa viagem de perto e pertence a uma família que passou uma parte importante da sua vida em Angola. O País Fantasma, assim se chama o novo romance de Vasco Luís Curado, conta a história de duas famílias portuguesas, a de um militar e a de um civil. Ambos, Capelo e Mateus, partiram para Angola em 1961 – ano dos massacres de brancos em fazendas no Norte do país, aqui descritos de forma avassaladora – e regressaram em 1975, como tantas personagens reais que voltaram a um Portugal onde, às vezes, nem família já tinham. Um deles fez duas comissões na Guerra Colonial, o outro foi chefe de posto num lugar isolado. Um era de esquerda e muito crítico; o outro enriqueceu e nunca compreendeu porque teve de abandonar as suas plantações de café e voltar com uma mão à frente e outra atrás. Os dois lados da questão e as atrocidades cometidas ora por um, ora por outro, são aqui relatados de forma imparcial e sem paninhos quentes, mostrando que, afinal, ninguém teve razão numa Angola que ainda hoje é, segundo a epígrafe escolhida pelo autor, uma grande loba que tudo devora. O País Fantasma é, também por isso, talvez o livro mais esclarecedor sobre a história de Angola e o fim do império colonial editado em Portugal nas últimas décadas.

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09
Set15

O totalitarismo de volta

Maria do Rosário Pedreira

Não é surpresa que alguns de nós sentimos que, apesar da queda dos muros e dos regimes totalitários, há muita coisa má que está de regresso, umas vezes sub-repticiamente, outras nem tanto. Agora é o senhor Putin que se arma em culto e quer seguir os passos de Oprah Winfrey, aconselhando livros para os leitores da sua nação com uma espécie de Clube do Livro. E mais: promete ajuda na renda e um corte nos impostos aos livreiros que exponham uma lista de livros propostos pelo seu governo… O objectivo, diz um seu ministro, é aumentar as vendas de literatura de qualidade, bem como das obras sobre arte, história e educação. Assim as coisas até nem parecem ter nada de preocupante, excepto quando o discurso começa a referir livros que «contribuam para o sentimento patriótico da população» e outras frases do tipo, o que já lembra uma certa propaganda. Sabe-se, ainda por cima, que houve directivas governamentais para certos manuais escolares que as crianças russas usavam há anos serem banidos do sistema educativo, e os livreiros queixam-se de que foram «aconselhados» a retirar dos seus espaços comerciais obras que poderiam ser consideradas ofensivas apenas por terem símbolos fascistas nas suas capas (a suástica em Maus, de Art Spiegelman, foi um deles). Sob o véu da promoção da literatura, muitos acreditam que Vladimir Putin quer moldar as mentes dos leitores. Cuidado.

08
Set15

Livros da Selva

Maria do Rosário Pedreira

No meio das terríveis notícias que enchem as páginas dos jornais em todo o mundo sobre os refugiados e migrantes que tentam chegar à Europa, descobrem-se por vezes pequenas boas notícias. Num campo de refugiados em Calais, baptizado com o nome The Jungle (a Selva) – com cerca de 3000 pessoas, muitas das quais oriundas do Sudão e da Eritreia, que tentam ir para Inglaterra trabalhar –, uma professora inglesa de nome Mary Jones, que já apoiava o campo como voluntária, tomou consciência de que havia muitos refugiados com formação acima da média e resolveu criar uma biblioteca equipada exclusivamente com livros oferecidos. Além deste material, a biblioteca possui outros serviços: dá aulas de Inglês e orienta quem quiser na procura de uma profissão. Além desta biblioteca, o campo tinha já barbearia, mercearia, restaurantes, igrejas, uma mesquita e uma loja de reparação de bicicletas, parecendo querer sair da «Selva» o mais rapidamente possível. Mary Jones diz que muitos dos refugiados lhe pedem livros de poesia e ficção e afirma que seria muito importante receber livros noutras línguas que não apenas o inglês, que nem todos dominam, e também dicionários que facilitem a aprendizagem da língua inglesa. Todos podemos colaborar – e, se quiserem, aqui vai o endereço da professora:

 

maryjones@orange.fr

07
Set15

Pentear e escrever

Maria do Rosário Pedreira

O que se passa por dentro das cabeças é mais importante do que o que se passa por fora? Falar de cabelos é sempre uma futilidade? Não necessariamente, até porque, segundo a narradora do belo e contundente Esse Cabelo, «escrever parece-se com pentear uma cabeleira em descanso num busto de esferovite» e visitar salões é uma boa forma de conhecer países, de aprender a distinguir modos e feições e até de detectar preconceitos. Esta é a história de uma menina que aterrou despenteada aos três anos em Lisboa, vinda de Luanda, e das suas memórias privadas ao longo do tempo; mas é também a história das origens do seu cabelo crespo, cruzamento das vidas de um comerciante português no Congo, de um pescador albino de uma praia mítica, de católicas anciãs de Seia, de cristãos-novos maçons de Castelo Branco – uma família que descreveu o caminho entre Portugal e Angola ao longo de quatro gerações com um à-vontade de passageiro frequente. E, assim, ao acompanharmos as aventuras deste cabelo crespo – às vezes confundido com o abismo mental –, é também à história indirecta da relação entre vários continentes – a uma geopolítica – que inequivocamente assistimos. Não percam. O lançamento, dia 15 deste mês na FNAC do Chiado, terá como orador o fascinante Abel Barros Baptista.

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04
Set15

Poesia sem grades

Maria do Rosário Pedreira

«O recluso de hoje pode ser o nosso vizinho de amanhã», diz Filipe Lopes, o criador de A Poesia não tem grades, um projecto que vem sendo desenvolvido desde 2003, com o apoio da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas e em parceria com a Direcção-Geral da Reinserção e dos Serviços Prisionais. Tem como objectivo primeiro criar hábitos de leitura entre os detidos que, na sua maioria, possuem um baixo nível de escolaridade e provêm de meios sociais com poucos hábitos culturais, mas que podem transformar o tempo do cumprimento da pena numa oportunidade de aprendizagem e ampliação de conhecimentos que, inclusivamente, serve a muitos para voltarem a estudar e a alguns para concluírem uma formação superior. No projecto A Poesia não tem grades, a literatura é usada como instrumento para abordar temas diversos, como o amor, a morte ou a solidão, permitindo um debate e uma reflexão gratificantes entre os reclusos. No entanto, dado o excelente resultado atingido até agora e para alargar a actividade a mais estabelecimentos prisionais, são agora precisos voluntários; e, portanto, se alguém estiver interessado em inscrever-se, aqui fica o link:

 

www.apoesianaotemgrades.pt

03
Set15

Curiosidades

Maria do Rosário Pedreira

A maior vantagem da leitura é que um texto, mesmo que não faça as nossas delícias (e uso a expressão porque vou falar de alimentação), quase sempre nos ensina qualquer coisa que não sabíamos. Eu sempre pensei, por exemplo, que expressões como «pôr a mesa» e «levantar a mesa» estavam relacionadas com o facto de, para comermos à mesa, termos de lá pôr em cima uma data de coisas, como pratos, talheres, copos, travessas, guardanapos – e, claro a própria comida – e as tirarmos de lá no fim da refeição. Mas não – e eis porque é tão bom ler! A verdade é que, segundo apurei numa tese que recentemente me veio parar às mãos na área da História da Alimentação, da autoria de Guida Cândido, as salas de jantar dos nossos dias só se tornaram comuns em Setecentos porque, antes disso, se comia em muitos sítios dos palácios, dependendo dos que vinham (se eram mais íntimos, se mais afastados), pelo que era necessário ir pôr a mesa nesses lugares e tirá-la, ou levantá-la, no final das refeições. Seguramente, muitas outras coisas de que estou convencida cairão por terra à medida que for encontrando informações deste tipo. Lendo, claro.