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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

02
Set15

Pessoa para as pessoas

Maria do Rosário Pedreira

Tendo em conta a quantidade de turistas que nos dias de hoje – e sobretudo no Verão – visitam Lisboa, a Casa Fernando Pessoa faz um forcing até 29 de Setembro e aumenta significativamente o número de visitas guiadas (mas qualquer lisboeta pode e deve aproveitá-las, claro). E não só organiza diariamente visitas em português e inglês, como se compromete a desvendar as memórias do poeta através dos objectos que a casa possui (mobiliário, quadros, manuscritos, coisas pessoais) e ainda a realizar itinerários mais sofisticados, para leitores exigentes, como o delineado pela relação entre Pessoa e Almada Negreiros (a partir do retrato do primeiro pintado pelo segundo) ou mesmo, para os mais românticos, aquele que pode ser seguido acompanhando as histórias de amor do poeta, seja na sua obra, seja na sua vida. Nunca conheceremos inteiramente um homem e um escritor como o mestre Pessoa, mas lá que podemos ficar a saber sempre mais qualquer coisinha, isso é inegável.

01
Set15

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Ora bom dia a todos – e espero que as férias (para quem as teve) tenham sido revigorantes, sobretudo em matéria de leituras. É mesmo por aí que começo e o melhor é ir direita ao assunto: 10:04, de Ben Lerner, saído recentemente para as livrarias portuguesas. Trata-se de uma obra que aparenta ser um romance, mas não é só isso, e que, num género que percebo estar agora em voga nos Estados Unidos (já aqui vos falei de Rebecca Solnit e do seu Esta Distante Proximidade, por exemplo), talvez seja mais interessante do que a maioria, pelo menos a avaliar pelos encómios dos pares do autor e pelas críticas positivas das publicações respeitáveis. Pois bem, dito isto, começa por estranhar-se e depois, como na frase de Pessoa, entranha-se. Livro em que narrador e autor são figuras que coincidem, em que personagens com nomes diferentes acabam por ser as mesmas, em que o livro que o narrador está a escrever e pelo qual lhe pagaram uma bela maquia é e não é o que estamos a ler, enfim, aqui as categorias da narrativa estão bastante baralhadas e podem baralhar-nos também a nós, se não estivermos suficientemente atentos. Mas, se estivermos, apreciamos as reviravoltas e proezas do autor, ou narrador, ou seja o que for, enquanto descobre uma deficiência na própria aorta, combina com a melhor amiga ser pai biológico do seu filho, faz uma residência literária no deserto do Texas ou ajuda um miúdo hispânico de uma família «sem papéis» a escrever um trabalho sobre um dinossauro que nunca existiu. O livro é bastante exigente e o tradutor fica um nadinha aquém; em todo o caso, para quem gosta de meta-literatura, vale a pena atrever-se a esta ficção/não ficção do aplaudido Ben Lerner.

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