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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Out15

Surpresas

Maria do Rosário Pedreira

Todos sabemos que as redes sociais – sobretudo o Facebook, que é a mais frequentada (ou mal frequentada, sei lá; digo isto fazendo parte dela, evidentemente) – estão cheias de lixo que as pessoas partilham, crendo muitas vezes que estão a facultar aos «amigos» verdadeiras gemas ou pepitas. Porém, de vez em quando, também lá se encontram coisas mesmo boas, entre vídeos, fotografias e textos. Foi, de resto, do portal de um facebookiano amigo (já não me lembro qual, lamento) que rapinei uma carta que vos quero mostrar, um texto que, como agora se diz, se tornou viral e foi dos mais partilhados dos publicados no jornal El País do último mês. A carta foi escrita por um rapaz de dezassete anos que vai ter, pela primeira vez, a disciplina de Filosofia na escola e está obviamente entusiasmado com isso; mas, ao mesmo tempo, francamente desiludido com o facto de pertencer à última leva de estudantes que aprenderá filosofia no Secundário, pois parece que o Ministério da Educação em Espanha se encarregou de suprimir o estudo desta disciplina, reservando-o apenas a quem queira cursar Filosofia na universidade (os Governos autoritários não gostam que se ensine a pensar, já o sabemos). No entanto, em vez de me pôr aqui a descrever a carta, sugiro que consultem o link abaixo. Um rapaz de dezassete anos humanista já não é coisa que se encontre frequentemente e vale mesmo a pena ler o que escreve.

 

http://elpais.com/elpais/2015/09/17/opinion/1442504361_281943.html?id_externo_rsoc=TW_CM

13
Out15

Contar histórias

Maria do Rosário Pedreira

Dizem os especialistas que uma boa maneira de motivar para a leitura é contar histórias às crianças desde muito pequenas; melhor ainda, contar as histórias com o livro na mão e mostrar-lhes as imagens à medida que, expressivamente, se lê o texto de cada página. Ler aos filhos pequenos um bocadinho todas as noites é meio caminho andado para os interessar pelos livros. Pois bem, a tarefa pode parecer fácil, mas, quando os filhos são muitos, a coisa, afinal, complica-se. Um professor de artesanato norte-americano, que costumava sentar um filho em cada joelho para ler a ambos a mesma história, viu a sua vida dificultada quando lhe nasceu um terceiro rebento, o que obrigava Rachel, a filha mais velha, a escutar o conto de pé. E o que fez então para não privilegiar ninguém? Como artesão experimentado, criou uma cadeira de balouço que dá para todos três ouvirem confortavelmente a mesma historinha contada pelo papá. Ao seu invento chamou StoryTime Rocking Chair – e a fotografia desta família para quem as histórias são importantes vai aí abaixo. Uma bela ideia!

rocking-chair-interna.jpg

12
Out15

Zumbir

Maria do Rosário Pedreira

Esta é a história da Abelhinha, mas não se iludam, porque é tudo menos infantil. É um livro de que me falaram muito – e bem – há já uns anos e cuja leitura fui adiando porque aparecia sempre outra coisa mais urgente, mas agora consegui degustá-lo de uma assentada. Passa-se entre Londres e a Nigéria, e faz-me alguma espécie não ter sido mencionado nos recentes artigos sobre africanos que vêm escondidos nos porões dos cargueiros em busca de estabilidade na Europa, porque é disso mesmo que se trata e não pode estar mais na ordem do dia. Chama-se A Pequena Abelha e escreveu-o Chris Cleave, autor que nasceu nos Camarões. Está traduzido em tudo o que é sítio e fez parte das listas dos livros mais vendidos em países como o Reino Unido e os Estados Unidos no ano da sua publicação, recebendo elogios dos mais prestigiados jornais e revistas (incluindo o Guardian e o New York Times). E fala da história verdadeiramente trágica da Abelhinha, nome escolhido por uma rapariga nigeriana de catorze anos que foi testemunha da destruição da sua aldeia por causa do malfadado petróleo e, conseguindo embarcar clandestinamente rumo a Inglaterra, é internada num centro de detenção para refugiados e libertada dois anos depois em Londres – mas seria talvez mais correcto dizer «despejada por engano» numa das maiores cidades do mundo. Na contracapa do livro pedem aos leitores que não contem a história a ninguém, por isso não vou ser desmancha-prazeres. Direi apenas que tem momentos terríveis, dolorosos, bonitos, duros, também algo lamechas, e – além da Abelhinha – tem mais duas outras personagens de peso: uma jovem viúva inglesa e o seu filho de quatro anos, o fã número um do Batman, que protagonizam cenas impressionantes. E pronto: se estão interessados no assunto dos novos migrantes, aqui têm uma obra para perceberem melhor certas coisas. Além do que já sabem, bem entendido.

09
Out15

Futilidade

Maria do Rosário Pedreira

Depois de ter publicado um livro chamado Esse Cabelo de que convém afastar toda e qualquer suspeita de futilidade (é, na verdade, o contrário disso), deixem-me aproveitar um dia sem ideias e assumir um post inteiramente fútil. Acho que todos nós (mulheres e homens, não importa) gostamos de nos apresentar bem ao lado de pessoas de quem gostamos, ou que respeitamos, ou até que não conhecemos, mas a quem queremos causar boa impressão por isto ou por aquilo. Sempre que fui à TV participar em algum programa e aquelas magníficas maquilhadoras profissionais se ocuparam de me pôr mais bonita, a verdade é que toda a gente me dizia depois como ficara tão bem. Ora, apesar de não ter nascido sem dotes para os trabalhos manuais (sei coser e tricotar), acontece que, se me pinto sozinha, na maior parte das vezes fico pior do que com a cara lavada. Percebi recentemente que também para isso é preciso ciência. E como? Pois bem, como haveria de ser? Num livro, que também os há sobre estas coisas comezinhas. Chama-se Maquilhagem Real para Mulheres Reais, escreveu-o a Inês Mocho e quem me falou dele foi a editora, que é minha colega e mo ofereceu quando lhe expliquei como era, de facto, bastante naba em questões de maquilhagem (que não de borrar a pintura). Assim, lá experimentei seguir os conselhos da autora no dia de um casamento para que fui convidada há pouco tempo e não é que os resultados foram compensadores? Tive de comprar alguns produtos novos, mas, enfim, acho que valeu a pena. Desculpem-me a futilidade, mas quem sabe não ajudo algumas leitoras de caminho?

aaaa.jpg

 

08
Out15

Pobres escritores

Maria do Rosário Pedreira

Tenho aqui referido várias vezes que Portugal, pela exiguidade do seu mercado, é um país onde é terrivelmente difícil viver da escrita (a menos, claro, que se seja uma estrela de TV transformada em escritor, mas os casos contam-se pelos dedos de uma mão). Porém, ao que parece, também nos países onde o mercado é substancialmente maior as coisas não andam de feição para quem escreve. Leio no Guardian um artigo que me informa de que, nos EUA, os rendimentos dos escritores desceram 30% em cinco anos (entre 2009 e 2014) e que muitos dos chamados «autores em full time» estão a receber mensalmente um valor que raia o limiar da pobreza. No entanto, não se vendem menos livros do que antes, a razão é diferente. Não só o aparecimento do digital favoreceu a pirataria (circulam pela net milhares de livros pelos quais os autores não recebem quaisquer direitos, tal como acontece, de resto, com filmes), mas também empresas dominantes como a Amazon levaram ao fecho de muitíssimas livrarias tradicionais, incapazes de concorrer com esses gigantes que, usando o seu poder, obrigaram os editores a aceitar condições que nunca aceitariam se não soubessem que, actualmente, sem a Amazon, iriam à falência. E essas condições leoninas passaram também do editor para o autor, que passou a receber menos direitos, sobretudo em edições que praticamente não têm custos, como os e-books, o que a Authors Guild considera profundamente injusto. Em Portugal, as vendas de e-books ainda não ameaçam o livro em papel, mas já existe bastante pirataria e é preciso estar muito atento ao que o futuro trará.

07
Out15

Luta de titãs

Maria do Rosário Pedreira

Há uns vinte anos, fiz uma viagem ao Japão para visitar um amigo de infância que, na altura, trabalhava em Tóquio. Na casa dele, já então havia moderníssimos aparelhos de todos os tipos (plasmas, estereofonias, etc.) com ar de terem sido demasiado caros; mas não o eram, porque, segundo explicou o meu amigo, os Japoneses são doidos por tecnologia e estão sempre a vender o que têm em casa para comprar o último modelo (todas as coisas que ele possuía tinham sido compradas em segunda mão, baratas, e eram, portanto, modelos considerados obsoletos em Tóquio, embora por cá fossem o último grito). Isto explica porque no Japão as vendas de livros online superam largamente as vendas de livros feitas pelas livrarias tradicionais que, com o tempo, têm vindo a perder clientes e muito dinheiro, sobretudo para a gigante Amazon.jp. De resto, para disso se defender, uma cadeia de livrarias chamada Kinokuniya (só uma das lojas tem a maluqueira de 66 andares, portanto deve ser outro gigante) resolveu adquirir 90% da tiragem do próximo livro de Murakami (um livro de ensaios) só para não permitir que o mercado digital se ocupe de mais de 10%, propondo-se vender exemplares com desconto a distribuidoras e retalhistas que estejam interessadas em revender. Tudo para que as livrarias tradicionais não morram e também elas possam ter maiores margens de lucro. Enfim, uma luta de Titãs…

06
Out15

Roth no seu melhor

Maria do Rosário Pedreira

A Cecília Andrade, editora da Dom Quixote, tem vindo a publicar a obra de Philip Roth, alternando títulos mais recentes com títulos mais antigos. Aconselho quem goste deste autor a não falhar nenhum e, podendo, começar pelo princípio e ir desbastando a lista. Mas, como não tive essa sorte, falo-vos agora de um romance dos anos 1980, A Lição de Anatomia (com excelente tradução de Francisco Agarez), que saiu recentemente e é para mim um dos melhores e mais divertidos. Inclui – como outros – o alter-ego de Roth como protagonista, o escritor judeu Nathan Zuckerman que, no início do livro, está morto com dores no pescoço e nos ombros há ano e meio, passou por médicos e tratamentos sem fim mas não sente melhoras, tem quatro mulheres a tratarem dele (em todos os sentidos, sobretudo naquele em que não estavam a pensar, tendo em conta que é um doente) e está viciado em analgésicos, vodka e marijuana, a única forma de conseguir alhear-se da dor. Mas, como perceberemos ao longo de muitas peripécias, Nathan tem outros problemas que se prendem com a morte dos pais (que nunca lhe perdoaram certas coisas que escreveu), a página em branco, os críticos literários pouco simpáticos e a saudade de ter amigos e uma ideia de futuro, pelo que decide, aos 40 anos, deixar de escrever e ir tirar medicina para a Universidade de Chicago, onde em jovem estudou literatura… Vale a pena ler o que acontece, claro, mas prepare-se para muito desaforo, muito sexo (dito e feito) e muito descalabro até ao final, sobretudo quando Nathan encontra uma personagem digna da melhor ficção e lhe veste a pele. Um livro que é mesmo à Roth.

05
Out15

Um soninho descansado

Maria do Rosário Pedreira

Uma investigação recente trouxe ao de cima alguns dados terríveis: nos EUA, ao que parece, o tempo médio de leitura de um artigo na Internet é de 15 segundos (ou seja, não é lido, é apenas espreitado) e, em 2014, um quarto dos cidadãos americanos adultos não tinha lido um livro sequer (e são muitos estes cidadãos, como sabemos). O estudo, do Pew Research Center, refere que todos os que têm hábitos de leitura mostram ter mais memória e mais capacidades mentais em todas as fases da vida do que aqueles que vivem com o nariz colado ao écran do computador, sempre a saltar de imagem para imagem, para além de serem melhores oradores (têm muito mais vocabulário) e, o que não é de somenos, até melhores pessoas em geral. E acrescenta agora uma vantagem que será seguramente uma benesse para quem sofre de insónias: quem lê na cama, mesmo que apenas uns minutinhos, dorme garantidamente melhor! Eu sou mais de ler sentada e é já quando tenho sono que me vou deitar…

02
Out15

Castigo ou talvez não

Maria do Rosário Pedreira

Leio no site da TSF uma curiosíssima notícia a respeito da originalidade da pena que certo magistrado no Irão vem aplicando aos adolescentes que se estreiam no pequeno furto ou crime do mesmo tipo. Tomando consciência de que, para gente nova e sem cadastro, a permanência numa prisão ou num reformatório deixa marcas físicas e psicológicas irreversíveis que tantas vezes só podem agravar o comportamento que leva ao delito, o juiz resolveu então aplicar uma receita verdadeiramente interessante: uma lista de livros que é preciso comprar e ler. Estes livros têm temas variados e graus distintos de complexidade; mas, de todos eles, é suposto o réu fazer um resumo que tem de entregar depois ao juiz como prova de ter cumprido o castigo (espero que não roube a sinopse da Internet). Os livros lidos por estes pequenos criminosos serão depois distribuídos por estabelecimentos prisionais, até porque este magistrado acredita que a leitura tem um efeito apaziguador, contribuindo para uma diminuição da violência entre os reclusos. E esta, hein?

01
Out15

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Há muitos anos, mesmo muitos (contá-los far-me-ia sentir velha e escuso-me a esse embaraço), li Os Passos Perdidos, de Alejo Carpentier, que ainda consigo recordar em que lugar da estante se encontrava na casa dos meus pais. Mas, estupidamente, tinha-me esquecido de como este cubano escreve primorosamente, de como cada frase sua, cada parágrafo – às vezes longo, saboroso – é um presente para qualquer leitor digno desse nome. E digo isto porque, à procura de um outro livro, os meus olhos pousaram por acaso em Concerto Barroco, de Carpentier; e, dispondo de um meio dia para leituras não profissionais, logo me apropriei da novela que, por razões que nem eu própria compreendo, nunca me tinha passado pelos olhos (na verdade, nem a tinha, ganhei-a com o casamento – e o dote que o Manel trouxe tem muitas prendas destas). Pois, se a encontrarem à venda (eu sei que não é fácil), não a percam: é daqueles pequenos livros enormes! E tem como protagonista um mexicano (o «índio») que, em viagem à Europa, mais concretamente a Veneza durante o Carnaval, se mascara de Montezuma, o derrotado imperador dos Aztecas, e passa uma noite inesquecível com Vivaldi, Scarlatti e Haendel, além de com o seu criado negro que é uma espécie de improvisador de jazz avant la lettre. Anacronismos à parte – ou não, porque eles são parte integrante do enredo –, esta é uma história de como o Novo Mundo nunca foi bem compreendido pelo Velho Continente e de como as revoluções – como a cubana – são fundamentais para que certas coisas possam mudar. Procurem este Concerto Barroco e deixem-se, por favor, desconcertar.

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