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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Nov15

Equivalências

Maria do Rosário Pedreira

Mia Couto é um grande escritor de língua portuguesa – e um escritor amplamente reconhecido lá fora, vencedor e finalista de prémios muito importantes (como o Man Booker International, por exemplo). Sempre me perguntei, porém, como seriam as traduções dos seus livros, uma vez que o prodigioso Mia é também um inventor da língua, de termos que poderíamos adoptar assim que os lêssemos na sua obra, como – só para dar um exemplo – «esparramorto» (nunca mais me esqueci desta palavra depois de a ter saboreado em A Varanda do Frangipani). Talvez os seus tradutores saibam mesmo muito português, conheçam a palavra «esparramado» («morto» hão-de conhecer), consigam encontrar uma equivalência qualquer que não perca a graça; mas o resultado não será, decerto, tão gostoso e imediatamente compreensível noutro idioma, mesmo românico. Agora, o escritor moçambicano está a escrever uma trilogia dedicada a Gungunhana – A Mulher de Cinzas já foi, aliás, publicado – e, tanto quanto me foi dado saber por uma entrevista recente, deixou-se das suas palavrinhas mágicas para se centrar noutras coisas. Mesmo assim, não resistiu a dizer que o que fazia ao escrever era «brincriar»... Mais uma para a colecção.

13
Nov15

Da estante

Maria do Rosário Pedreira

Mergulho num velho livro com a capa a desfazer-se, um desses romances publicados há muito tempo que, por qualquer razão, toda a gente leu na juventude e, no entanto, me passou ao lado. Não se riam: trata-se de Olhai os Lírios do Campo, do brasileiro Erico Veríssimo, tanto quanto sei um dos autores preferidos da escritora Alice Vieira. Se calhar, devia mesmo tê-lo lido mais cedo, porque, não sei se é do papel amarelecido, se da impressão feita ainda a partir de caracteres de chumbo, o livro me está a parecer coisa um pouco antiga, um pouco datada. Conta a história de Eugénio, um rapaz pobre com vergonha dos pais e da sua condição, que com esforço consegue tornar-se médico; mas, atraído desde menino pela vida desafogada dos ricos, troca uma colega muito querida por uma rapariga de famílias finas, dada à psicanálise e saída da casca, com quem será, de resto, muito pouco feliz e que o fará sentir-se permanentemente humilhado. E, lamentavelmente, não poderá voltar à sua vida com a compreensiva e engraçada Olívia (esta, sim, uma personagem interessante) pois, quando o livro começa, está Olívia a morrer num hospital onde pede que chamem o seu Genoca, que – é mais do que provável – não chegará a tempo. Não querendo contar muito mais, para não estragar o prazer a quem se atreva a este clássico, tenho a sensação de que Eugénio ainda vai aprender a gostar de si mesmo olhando os lírios do campo. Estou a cem páginas do fim e já se fala de Hitler e de judeus, pelo que é de esperar que, diante do Holocausto, possa o homem relativizar a sua própria tragédia. Talvez então o romance me consiga agarrar.

12
Nov15

Vamos comer a sopa

Maria do Rosário Pedreira

Lançamos hoje à tarde na FNAC do Chiado um livro infantil da autoria de Ana Margarida de Carvalho (a autora do premiado romance Que Importa a Fúria do Mar) e de Sérgio Marques, ilustrador também galardoado por várias vezes. É um livro delicioso sobre dois irmãos muito diferentes em tudo – o É e o Não É (mais conhecido por Noé) – e tem por título a Arca do É. Esta arca – ao contrário da arca de Noé que se enche de animais nos dias do dilúvio – vai cheia de legumes que corriam o risco de morrer afogados com a grande chuvada; mas, vinda a bonança, os animais são devolvidos ao seu habitat enquanto os legumes, depois de colhidos, bem… não voltam à terra. Que fazer então com eles? Uma sopa, claro! Não perca hoje a sessão de apresentação, a cargo de uma especialista, Ana Margarida Ramos. E use esta história bonita e bem ilustrada para que os seus filhos e netos passem a dizer sim à sopa.

 

ConviteArcaDoE.JPG

 

11
Nov15

Longe do Mundo

Maria do Rosário Pedreira

Ontem saiu para as livrarias o romance vencedor da última edição do Prémio LeYa, intitulado O Coro dos Defuntos e assinado por António Tavares. Nele, vivem-se tempos de grandes avanços e convulsões: os estudantes manifestam-se nas ruas de Paris e, em Memphis, é assassinado o negro que tinha um sonho; transplanta-se um coração humano e o homem pisa a Lua; somam-se as baixas americanas no Vietname e a inseminação artificial dá os primeiros passos. Porém, na pequena aldeia onde decorre a acção do romance, os habitantes, profundamente ligados à natureza, preocupam-se sobretudo com a falta de chuva e as colheitas, a praga do míldio e a vindima; e na taberna – espécie de divã freudiano do lugar – é disso que falam, até porque os jornais que ali chegam são apenas os que embrulham as bogas do Júlio Peixeiro. E, mesmo assim, passam-se coisas muito estranhas: uma velha prostituta é estrangulada, o suposto assassino some-se dentro de um penedo, a rapariga casta que colecciona santinhos sofre uma estranha metamorfose, e a parteira, que também é bruxa, sonha com o ditador a cair da cadeira e vê crescer-lhe, qual hematoma, um enorme cravo vermelho dentro da cabeça. Quando aparece o primeiro televisor, as gentes assistem a transformações que nem sempre conseguem interpretar… Com personagens inesquecíveis e um recurso narrativo extremamente original, um belíssimo retrato do mundo rural português entre 1968 e 1974, a homenagear o grande Aquilino.

 

Coro Defuntos K vers 2-2 3D.jpg

 

10
Nov15

Interpretar

Maria do Rosário Pedreira

A tradução é um trabalho profundamente exigente: é preciso conhecer bem a língua de partida e escrever maravilhosamente na língua de chegada; é preciso ter senso comum, cultura e, quantas vezes, imaginação e elasticidade mental para resolver questões que quem não se quer dar ao trabalho normalmente remedeia com chatíssimas notas de rodapé. Conheço vários bons tradutores que admiro, com intuição para a tarefa, com um sentido apurado para o que fica bem no idioma para que traduzem, com respeito pelo autor e pelo leitor. Nunca lhes chegaria aos calcanhares se tentasse fazer o mesmo, estou certa; mesmo assim, acho que me sentiria muito mais à vontade diante de um livro e alguns dicionários do que numa daquelas cabinas de intérpretes que se dedicam à tradução simultânea em encontros e congressos, sobretudo quando aparecem situações de quase impossível solução. Contaram-me que, um dia, Cesária Évora foi ao Japão e, numa entrevista, tinha, claro, uma intérprete à disposição. Quando, porém, o jornalista perguntou à cantora como ia a sua carreira, ela respondeu, bem ao seu jeito, «que se ia desenrascando». Ficou então estarrecida a pobre intérprete japonesa, que, acto contínuo, lhe perguntou como é que podia traduzir aquele verbo. Mas Cesária respondeu, lacónica: «Olhe, desenrasque-se.»

09
Nov15

Bio-romance

Maria do Rosário Pedreira

O narrador deste romance é um condenado à morte a quem é concedido um último desejo; e o que escolhe é contar uma história, mais precisamente a da vida do Língua, um escravo que falou aos sete meses de idade e teve direito a biografia encomendada pelo rei de Portugal. Dá-se então um verdadeiro milagre: não só a história parece não ter fim, porque a vida do Língua está recheada de episódios em que os detalhes são de extrema importância, como começa a juntar-se cada vez mais gente para a ouvir – são às centenas os que todos os dias chegam à falésia de armas e bagagens, filhos, mulas, araras e macaquinhos, dispostos a fazer do lugar a sua casa só para não perderem pitada do relato. E, enquanto o narrador vai ganhando anos no cadafalso parindo magia, é toda uma comunidade que se vai criando em torno da maravilha de contar histórias, passando a língua a ordenar o tempo em vez do relógio. Inspirado na vida de um homem, talvez o único que viveu o colonialismo, a abolição da escravatura, a guerra da independência, a independência, a ocupação, o capitalismo, o imperialismo e o comunismo, sucessivamente e num mesmo lugar, Biografia do Língua, de Mário Lúcio Sousa, galardoado com o Prémio Literário Miguel Torga, é uma homenagem às pequenas histórias que nos salvam da penosa realidade.

 

O Língua K (2).jpg

 

06
Nov15

Santa ignorância

Maria do Rosário Pedreira

Nunca tinha estado com o padre e professor Anselmo Borges e, num almoço não há muito tempo, tive a sorte de ficar sentada ao seu lado e de o ouvir sobre vários assuntos com muito interesse. Às tantas, ele disse qualquer coisa de polémico e um jornalista que estava na mesa perguntou-lhe se podia publicar o que acabava de proferir. Ele concordou, mas pediu cuidado na reprodução do que lhe ouvira. É que, ao que parece, numa conferência que ocorrera uns meses antes, Anselmo Borges declarara que o futuro teria de passar pelo “ecumenismo”. Encontrava-se, pelos vistos, presente na sala da conferência uma jovem estagiária de um jornal que, nunca tendo decerto ouvido a palavra “ecumenismo”, redigiu a notícia do seguinte modo: Padre Anselmo Borges diz que o futuro terá de passar pelo “comunismo”. Dá vontade de rir, claro, mas é grave; e ainda temos sorte de, falando-se de futuro, não ter pensado nas novas tecnologias e inventado o “e-comunismo”. Enfim...

05
Nov15

As crises e Agustina

Maria do Rosário Pedreira

Ouvi recentemente esta história a Mário Cláudio, que tem uma grande ternura por Agustina, mesmo que tenha um dia escrito que ela era tão depressa uma espécie de mãe como uma bruxa a quem apetecia amordaçar. Num tempo em que Portugal se encontrava numa grande crise que não era esta (às vezes acho que a crise é o nosso estado quase natural e os bons tempos a excepção), Agustina foi convidada a ir com outros escritores a um festival literário perto de Bordéus. Por lá, havia bastante fausto e pompa, e o encontro realizava-se num château riquíssimo e belamente decorado. Antes do jantar, a castelã, calculando que Agustina precisasse de usar o toilette antes de se sentar à mesa e usando um eufemismo, perguntou-lhe se não queria “ir lá dentro”. Ao que a escritora do Norte terá respondido logo, lembrando a crise: “Não, obrigada, estamos numa altura de retenção.” Só ela.

04
Nov15

Metamorfoses

Maria do Rosário Pedreira

No mês passado, cumpriu-se o primeiro centenário da publicação de Metamorfose, o livro mais lido de sempre do checo Franz Kafka, que conta a história de um homem que um belo dia acorda transformado em barata (é muito mais do que isto, claro, mas era só para explicar de que metamorfose se trata). Pois bem, apesar de Kafka se ter tornado uma figura de proa da literatura de todos os tempos, e de a cidade de Praga o ter – e à sua pequenina e bonita casa – como um dos ícones que mais turistas atraem, leio num blogue que na Checoslováquia o escritor nunca foi realmente muito lido. Parece que a primeira tradução para checo de Metamorfose (o original é alemão) só se fez em 1929 (o texto teve sucesso nos EUA antes de se tornar conhecido na terra natal) e, como foi levada a cabo por intelectuais anarquistas, isso gerou a ideia de que o seu autor era revolucionário (e era, mas de uma outra maneira); o problema foi que, mais tarde, quando a Checoslováquia se tornou comunista, se passou ao outro extremo, e a obra do mestre, então considerado um reaccionário, foi proibida pela ditadura. Enfim, metamorfoses que não ajudaram nada e que, pelos vistos, apesar de em 1990 se ter criado uma fundação com o nome do escritor, não levaram a que a Checoslováquia faça sequer uma comemoração oficial do centenário deste pequeno grande livro.

03
Nov15

Leitor livre

Maria do Rosário Pedreira

Muitas vezes falo neste blogue de livros de que gostei e recebo sugestões vossas nos comentários, achando que essa partilha vale muito a pena. Mas, recordando as palavras de Virginia Woolf, prefiro pensar que não vos estou a recomendar nada, mas simplesmente a dar-vos a minha opinião. Senão, vejamos: diz a escritora britânica que o único bom conselho que uma pessoa pode dar a outra sobre o que ler é justamente que não se deve aconselhar, pois cada um deve seguir o seu próprio instinto, servir-se do seu senso comum e chegar às suas próprias conclusões. Deixar que alguém entre na nossa biblioteca e nos diga como ler e o que ler é, segundo Woolf, destruir «o espírito de liberdade que se respira nesses santuários». E afirma também: «Toda a literatura, quando envelhece, tem a sua pilha de desperdícios.» E de que maneira! Frases sábias de uma das escritoras mais interessantes de sempre. Eu, mesmo fazendo a vénia, gosto que me falem de livros que não li e de autores que não conheço, ainda que também descarte muitas leituras de obras que alguém me apregoa mas que, sei lá porquê, não me seduzem. Cada um que decida o que for melhor para si. Os leitores, em suma, devem ser livres de escolher.