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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

02
Nov15

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Há muito tempo que não lia um livro tão triste, digo eu. Triste e ao mesmo tempo muito belo. Esteve, de resto, na long list do Booker Prize deste ano, mas não passou à short list – e tenho pena, porque adorei este Lila (que é o nome da protagonista), da norte-americana Marylinne Robinson, nascida em 1947 no Iadho, mas há muito a residir no Iowa, a cujos habitantes dedica, aliás, a obra (curioso, lembrou-me Carson McCullers). Lila é, aos quatro anos, arrancada de uma barraca imunda de migrantes esfomeados e levada por uma mulher – Doll – que não lhe é nada, mas decide salvá-la de um destino terrível. Juntam-se as duas a um grupo de trabalhadores nómadas pagos à tarefa, deambulando pela América, experimentando os terríveis tempos da Grande Depressão e o medo de Doll de que alguém venha cobrar-lhe o rapto da menina e fazer-lhes mal, razão por que anda sempre com uma faca – único objecto que lega a Lila quando, uma noite, desaparece. Lila não tem absolutamente mais ninguém no mundo e, por isso, dificilmente escapará a muitos anos de uma vida indigna de sacrifício e deambulação até ir dar a uma terra pequena onde o reverendo John Ames, viúvo e triste como ela, mudará a sua vida. Com diálogos incríveis, personagens densas e humanas, descrições da natureza de tirar o fôlego, citações da Bíblia que são um hino à literatura, um encadeamento perfeito de passado e presente, este romance incomoda-nos e toca-nos muito, magoa-nos e ao mesmo tempo alivia-nos, ensinando-nos que às vezes o amor dedicado a alguém desprotegido pode salvar a vida dessa pessoa, mas sobretudo a nossa. Uma excelente tradução de Maria do Carmo Figueira.

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