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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

10
Dez15

Ler é perigoso

Maria do Rosário Pedreira

Deram-me há uns anos um livro de arte belíssimo chamado As Mulheres Que Lêem São Perigosas, que reproduz uma imensidão de obras de pintura e escultura de todos os tempos em que mulheres estão a ler, actividade que as torna, pelos vistos, perigosas. Também existe um livro que foi um best-seller na altura em que foi lançado e esteve quarenta e cinco semanas nos top dos EUA – e traduzido em todo o mundo, incluindo Portugal – intitulado Ler Lolita em Teerão, de Azar Nafisi, que fala de um clube do livro clandestino organizado por uma ex-professora universitária, no qual ela e outras seis mulheres, suas ex-alunas, pressionadas a não meter o nariz nos livros ocidentais, passavam a obra de Nabokov e outras a pente fino para, afinal, descobrirem e combaterem a pouca liberdade que tinham no Irão. É assim com as mulheres, mas não são só elas quem sofre de falta de liberdade no que toca a leituras. Basta ver o que aconteceu recentemente em Angola, onde uma série de jovens foram presos apenas porque estavam a ler um livro e a debater o seu conteúdo, que era considerado perigoso pelo regime… Esse livro – Da Ditadura à Democracia, de Gene Sharp – acaba de sair em Portugal com a chancela da Tinta-da-China, e o autor, sabendo da história, abdicou dos direitos em favor dos detidos. Leia-o, mesmo que se torne perigoso…

09
Dez15

Arrependidas

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui falei num interessante ciclo de conversas que leva a designação geral de Os Espaços em Volta (uma alusão a Os Passos em Volta, de Herberto) e é coordenado pelas jornalistas e poetas Inês Fonseca Santos e Filipa Leal. Realiza-se uma vez por mês na Casa Fernando Pessoa em torno de um tema específico sobre o qual os convidados – normalmente duas pessoas de áreas distintas – são interpelados pelas organizadoras. Pois hoje calha-me estar na berlinda a falar sobre «arrependimento» na companhia da minha querida amiga e grande fadista Aldina Duarte. O fado está cheio de arrependimento – ainda há pouco tempo escrevi uma letra para o novo álbum de Ana Moura – Ninharia – que conta a história de uma mulher que, por causa de um ciúme doentio, rifou o amado e se mostra agora arrependida da sua precipitação, certa de que ele era, afinal, o homem da sua vida. Não sou lá muito de me arrepender – confesso – mas, claro, acontece-me de vez em quando pensar, pelo menos, que não devia ter dito o que disse (se calhar até aqui no blogue já ocorreu)… Vamos lá a ver como me saio nesta conversa a quatro, mais logo, às 18h30. Se quiser, apareça; se não for, que não se arrependa.

07
Dez15

Poesia e café

Maria do Rosário Pedreira

No mesmo dia em que leio no jornal que o café pode fazer muito pela memória (e eu até posso tomar mais de um porque tenho a tensão arterial baixa), descubro que a poesia estimula a actividade cerebral e é muito mais eficaz na resolução de problemas emocionais do que a leitura de livros de auto-ajuda; mesmo quando é difícil – ou sobretudo quando o é. Especialistas da Universidade de Liverpool em neurociência, psicologia e literatura inglesa monitorizaram a actividade cerebral de trinta voluntários, que leram, primeiro, excertos de textos poéticos clássicos (Pessoa, Shakespeare, T.S. Eliot e muitos outros) e, depois, essas mesmas passagens traduzidas para linguagem coloquial; os resultados mostram que a actividade do cérebro dispara quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, não reagindo de forma especial quando o conteúdo se expressa com fórmulas de uso corrente. Ora, ao que parece, esses estímulos mais fortes mantêm-se durante bastante tempo e potenciam, entre outras coisas, a atenção dos indivíduos, facilitando a aprendizagem. Além disso, segundo um dos autores do estudo, a descrição profunda de experiências emocionais constante na poesia afecta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas recordações, ajudando o indivíduo a reflectir sobre elas e a entendê-las muito melhor do que nos livros de auto-ajuda. E esta, hein? Com café e poesia temos cabeça para dar e vender…

04
Dez15

Provar literatura

Maria do Rosário Pedreira

Já fez uma prova cega de vinhos? Não? Então faça. É divertido e gostoso e, além disso, mostra em que estado está o nosso olfacto e o nosso paladar. Mas provar vinho e literatura ao mesmo tempo pode ser melhor ainda. É disso que se trata no festival Tinto no Branco – A Literatura Posta à Prova, que hoje começa em Viseu e se prolonga até domingo. A iniciativa integra-se noutra maior e já na segunda edição – Vinhos de Inverno – que se realiza no Solar do Dão, uma sala-de-estar aberta a todos os viseenses e visitantes que queiram juntar-se-lhes neste fim-de-semana. Como dizem os organizadores, «há grandes nomes para ouvir e muito para aprender sobre os mundos das letras e dos vinhos e as suas ligações – culturais, simbólicas, espirituais e vivenciais.» Entre os convidados para a mesa, estão, por exemplo, Afonso Cruz, Rui Cardoso Martins, Fernando Dacosta, Francisco José Viegas e Paulo Moreiras (um dos meus autores que mais percebe de vinhos e que os sabe combinar muito bem com os condimentos da língua e da literatura). E, entre as mesas-redondas, não faltarão os habituais espaços de prova de vinhos e contacto com os produtores e enólogos da região e, além de «workshops vínicos», animação musical. Bom vinho e bons livros!

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03
Dez15

Questões de Língua

Maria do Rosário Pedreira

Começou ontem um congresso dedicado à Língua Portuguesa como língua de futuro e organizado pela Universidade de Coimbra, que faz 725 anos e os comemora justamente amanhã (parabéns!). É nesse âmbito que será apresentado hoje à tarde, pela professora Clara Almeida Santos, um livro que publiquei em finais de Outubro e de que já aqui falei – Biografia do Língua, de Mário Lúcio Sousa, Ministro da Cultura de Cabo Verde, de quem já tinha publicado há uns anos O Novíssimo Testamento, em que Jesus era do sexo feminino. O novo romance, que homenageia os contadores de histórias e foi galardoado com o Prémio Literário Miguel Torga – Câmara Municipal de Coimbra, decorre ao longo de um período de mais de cem anos e tem como protagonista um condenado à morte que, qual Xerazade, se vai salvando do fuzilamento contando a sua história e atraindo multidões. O anfitrião deste lançamento é o belo Convento de S. Francisco e vamos, claro, bater palmas à Universidade de Coimbra. Se puder, venha fazer-nos companhia e apagar uma das 725 velas.

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02
Dez15

Viva a Figueira!

Maria do Rosário Pedreira

Quando publiquei o primeiro romance de Nuno Camarneiro (No Meu Peito não Cabem Pássaros), era o meu primeiro autor da Figueira da Foz; pensava que não houvesse muitos mais, mas depressa descobri que Afonso Cruz também ali tinha nascido, bem como Maria Manuel Viana (e há mais, mas poupo-vos ao elenco). Com o segundo romance (Debaixo de Algum Céu), Nuno Camarneiro venceu o Prémio LeYa, que foi o primeiro para a Figueira da Foz; mas este ano o galardoado, António Tavares, é o vice-presidente da Câmara da Figueira, fazendo pensar que os figueirenses são especialmente dotados para a literatura e os prémios e que a Figueira está por isso de parabéns. É lá, de resto, que estarei hoje à tarde para ouvir o professor José Carlos Seabra Pereira, membro do júri, dissertar sobre O Coro dos Defuntos, um romance belíssimo que fala do nosso Portugal entre 1968 e 1974 e das milhas a que estávamos do mundo, que então fervilhava de novidade e convulsão – pronto-a-vestir, idas à Lua, guerra no Vietname, transplantes cardíacos, revolução estudantil em França, supermercados… Se estiver nas imediações, venha fazer-nos companhia. E leia o livro, claro.

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01
Dez15

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Nestes tempos obscuros, o religioso é muitas vezes um tema sensível; mas, ao mesmo tempo, falar das aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos na Cova da Iria pode parecer descabido, atrevido ou até fora do tempo, sobretudo se for numa ficção presumivelmente séria. Porém, é mesmo esse, curiosamente, o ponto de partida do último livro de José Luís Peixoto, uma novela intitulada Em Teu Ventre, que se divide pelos meses de Maio a Outubro de 1917, ano das supostas aparições da Virgem a três primos que pastoreavam. Lúcia, a mais velha, é a protagonista, e o autor trabalha sobre as memórias da verdadeira Lúcia (a dos segredos de Fátima) para lhe construir na infância o quotidiano, no qual há irmãs casadas e solteiras que se juntam aos domingos, um irmão que cuida dos animais, um pai bebedolas com tendência para o jogo e, mais importante do que todos, uma mãe ríspida e crente que repudia as visões da menina, menina que – o leitor sabe – ouve na sua cabeça respostas de árvores, flores e lenços com quem conversa. Concentremo-nos, porém, na mãe – Maria de seu nome – pois este é também um livro sobre a maternidade, já que, a par da história da relação de Lúcia com Maria, temos, entre parênteses, uma voz que fala e que é de outra mãe – a do escritor? – para acusar, lembrar, recriminar o filho pela indiferença, a falta de atenção e de reconhecimento. Para temperar estes dois textos, versículos como os da Bíblia, em duas colunas e numerados, que dão voz a um filho que fala com a sua mãe e que, não por acaso, é o próprio Deus. Dito isto, fica certamente quase tudo por dizer, mas é preciso voltar à leitura para o descobrir.

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