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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

07
Jan16

Livros perdidos

Maria do Rosário Pedreira

Não imagino pior coisa para um autor do que perder um livro em que está a trabalhar – o ficheiro desaparecer do computador, o computador portátil ser roubado e não haver cópias, enfim, aquilo em que gastou meses ou anos de trabalho ser mera poeira na sua memória, incapaz de refazer inteiramente o escrito. Mas há livros que desaparecem de outra maneira – ou porque os seus autores nunca lhes deram grande atenção nem quiseram publicá-los, ou porque os originais (muitos deles escritos ainda à mão) foram entregues em revistas, publicados e, pouco tempo depois, esquecidos, até o autor, muitos anos mais tarde, se tornar célebre. O director da revista The Strand já encontrou, por exemplo, um conto de John Steinbeck que nunca fora publicado, e mais recentemente também um conto que Fitzgerald escreveu pouco antes de morrer – «Temperature» – e que fala de um escritor que bebe descontroladamente e sofre do coração (era o seu caso, de resto, e portanto provavelmente autobiográfico). Também foi encontrado um conto com o herói Sherlock Holmes no sótão de casa de um historiador (imagina-se que seja de Conan Doyle, mas não há a certeza); e, depois de desaparecido por 50 anos, um poema-ensaio contra as Invasões napoleónicas assinado por «um cavalheiro de Oxford» (mas que se sabe ter sido escrito por Shelley) foi achado no meio de uma data de outras coisas num leilão (e está hoje numa biblioteca em Oxford, onde Shelley o escreveu). Enfim, para os estudiosos, deve ter graça encontrar de vez em quando um livro perdido; para os autores, perder livros deve ser uma tristeza.