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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Jan16

Duplicidade

Maria do Rosário Pedreira

O escritor irlandês John Banville ganhou o prestigiado Prémio Príncipe das Astúrias e esteve recentemente em Espanha para o lançamento do seu último romance, tendo sido entrevistado pelo El Pais. Falei dele aqui no blogue não há muito tempo por escrever romances literários com o seu nome e policiais com um pseudónimo (Benjamin Black), mas não sabia que a sua vida era dupla noutros sentidos. Pois bem, na entrevista ao El Pais, Banville revela que tem duas mulheres, uma com quem se casou há mais de quarenta anos e com quem vive metade da semana, outra que é sua companheira há mais de vinte e com quem vive o resto do tempo. Tem dois filhos de cada uma, os dois primeiros já nos quarentas, os mais novos com vinte e seis e dezanove. Ama ambas as mulheres e não parece ver necessidade de prescindir de qualquer delas. Elas não se conhecem – nem querem conhecer-se, ao que parece… Quanto à pergunta sobre o que distingue a literatura inglesa da irlandesa, Banville diz que é a língua; mesmo que muitos escritores irlandeses não escrevam nem falem já gaélico, a verdade é que a gramática está interiorizada, e o irlandês é uma língua muito mais poética, na qual não existe, por exemplo, a palavra «não» (mas apenas, citando Banville, «it is not so»), o que torna a literatura irlandesa também mais ambígua; Banville diz que os ingleses – que gostam de ser claros e directos – não pescam nada dessa ambiguidade e acham que os irlandeses escrevem assim porque não os conseguem imitar… A respeito da Europa, o romancista diz que a crise a destruiu, mas que, ao contrário de muita gente, ele não se importa de que seja governada por burocratas, gente que trabalha das 9 às 5 e vai depois para casa comer, ver um filme ou ler um livro. Cito-o: «Sempre que alguém tem uma grande ideia, quer matar judeus, ou muçulmanos. Essa é que é a gente perigosa. Os burocratas são os que melhor governam, e a Europa estava perfeitamente burocratizada. Os burocratas não fazem guerras, é a gente com grandes ideias que faz as guerras.»