Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

19
Jan16

Emoções e palavras

Maria do Rosário Pedreira

Leio uma entrevista bastante curiosa com a historiadora cultural Tiffany Watt Smith, autora de uma obra que quero ler: The Book of Human Emotions. Embora haja grandes dissensões a respeito da forma de definir as emoções, há, pelos vistos, também dois pontos consensuais: a de que uma emoção (tédio, raiva, angústia, etc.) é uma coisa puramente individual, mas a de que, por outro lado, as emoções são experimentadas colectivamente, partilhadas com os outros e, além disso, vividas de forma diferente se estivermos em Portugal (onde «saudade» é, segundo muitos, palavra intraduzível) ou na Coreia (onde «han» é um estado que representa tristeza e esperança simultaneamente, sem expressão noutras línguas). Mas os tempos também definem as emoções: no século XVIII ainda se morria de nostalgia (repare que «algia» quer dizer «dor»): as pessoas sentiam tanta saudade de casa que, além da melancolia, tinham febres, não eram capazes de comer e acabavam por definhar e morrer; há cem anos, porém, que nenhuma certidão de óbito regista esta causa de morte, talvez porque viajar (ir e voltar) se tornou muito mais fácil e, com telefone e computador à mão, podemos contactar aqueles que nos fazem falta. Nos dias de hoje, a obsessão com a felicidade, diz Tiffany Watt Smith, é quase a mesma que existia no século XVI com a tristeza que, na Renascença – pasme-se! –, chegou a estar associada ao génio e era talvez por isso procurada por muitos. Diz ainda a historiadora que ter palavras para o que sentimos é meio caminho andado para entendermos e resolvermos certas emoções – e dá o exemplo do jovem termo «homefulness» que quer dizer qualquer coisa como «virar a esquina e saber que se está perto de casa», ou seja, um misto de alívio e sentimento de pertença. Coisas interessantes que é bom saber.