Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

21
Jan16

Inacabados

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes falei aqui de autores que perdem os ficheiros dos livros que estão a escrever. Como se viu pelos comentários, alguns deles conseguem, mesmo assim, reescrevê-los e publicá-los mais tarde, outros não. Hoje falo de livros que os autores não conseguiram terminar, a maior parte deles por razões óbvias – ou seja, a morte atravessou-se-lhes no caminho. Mas, se pensavam que estes livros nunca seriam publicados (por não terem fim), pois digo-vos que muitos o foram, ou tal como estavam, ou – o que é mais estranho – terminados (ou editados) por outros. De qualquer modo, há obras-primas mesmo entre romances inacabados, como Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, que é sempre citado como o melhor que o autor escreveu e um dos melhores da língua portuguesa (imaginem só se o tivesse acabado). Socorrendo-me de um artigo do Observador, avanço mais uns quantos: Amerika e O Desaparecido, ambos de Frank Kafka; Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas, de José Saramago; Answered Prayers, de Truman Capote; Billy Bud, o Marinheiro, de Melville; Bouvard e Pécuchet, de Flaubert (não sabia que não tinha sido terminado, e não dei por isso); O Primeiro Homem, de Camus – e muitos, muitos outros de vários autores como Jane Austen, Charles Dickens ou Scott Fitzgerald. O mais curioso é que, mesmo sem terem sido concluídos, muitos deles são extraordinários, melhores do que muita ficção acabadíssima que há por aí.