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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

23
Mar16

Um espaço nosso

Maria do Rosário Pedreira

Durante o último festival literário a que fui, reparei numa coisa que me causou uma certa inveja: no meio da balbúrdia que era o bar do hotel por aquelas noites, cheio de escritores e jornalistas à conversa, um romancista português sentou-se a um canto com o seu computador portátil e ali esteve a trabalhar toda a noite sem problemas. Eu não sou capaz de me concentrar e escrever ao pé de outras pessoas (embora consiga ler com o barulho de fundo dos jogos de futebol e dos aeroportos, é um facto). Preciso do meu espaço, do meu silêncio, dos meus dicionários, da minha secretária. Às vezes, em férias, levo o computador com boas intenções, mas raramente consigo criar com a calma com que o faço no meu escritório de casa. Ora, sobre este assunto da necessidade de um espaço nosso, escreveu maravilhosamente Virginia Woolf em Um Quarto Que Seja Seu, um texto que reproduz creio que duas palestras numa universidade feminina sob o tema "Mulheres e Ficção". Olhando para o vazio na publicação de textos de mulheres no seu passado, sobretudo mulheres da classe média (uma vez que algumas aristocratas ainda conseguiram publicar alguma coisa), Woolf analisa a circunstância de as mulheres nunca terem tido dinheiro, nem tempo (eram elas que faziam tudo em casa, incluindo educar as crianças) para se poderem dedicar à escrita – e, sobretudo, não terem tido um espaço próprio (e, como eu, ser-lhes-ia francamente difícil escrever no meio da família inteira na sala comum, até porque, para as mulheres, escrever não era nesses tempos coisa muito bem vista; e, além disso, deviam ser interrompidas a todo o instante). O texto foi originalmente publicado no final dos anos 1920 e revisto umas quantas vezes, mas em muita coisa permanece actual e merece leitura atenta. Sim, Mrs. Woolf, precisamos de um quarto que seja nosso!