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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Mar16

De volta

Maria do Rosário Pedreira

Está à venda desde ontem em todo o País o esperadíssimo segundo romance de João Ricardo Pedro, autor que foi premiado, aplaudido e traduzido em dez línguas quando publicou O Teu Rosto Será o Último, a sua obra de estreia, e que agora regressa com Um Postal de Detroit, um romance avassalador sobre a fronteira que existe entre sanidade e loucura e os laços perturbadores que unem a vida à arte. Em Setembro de 1985 deu-se um choque frontal de comboios em Alcafache. Algumas das vítimas mortais, presas nas carruagens a arder, nunca chegaram a ser identificadas. Nesta obra, a mãe de Marta recebe um inesperado telefonema informando que a mochila da filha – estudante de Belas-Artes – apareceu entre os destroços. Partindo então dos cadernos de desenho de Marta – uma espécie de diários visuais –, o narrador deste romance tenta recriar os passos da irmã nos tempos que antecederam o acidente. E, enquanto o faz, dá-nos a conhecer um leque de figuras absolutamente inesquecíveis, entre as quais se contam prostitutas, boxeurs, polícias e assassinos, mas também anjinhos de procissão, médicos e senhoras caridosas. E, claro, ele próprio – o mais ausente dos cadernos de Marta. Maravilhoso, é o que posso dizer.

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15
Mar16

Sem título

Maria do Rosário Pedreira

Em matéria de livros, diz-se que um bom título é meio caminho andado para atrair leitores e alcançar o sucesso, mesmo que frequentemente os atraídos possam sentir que foram ao engano. Há escritores que já têm título antes de começarem a escrever os seus romances – e quiçá os escrevam por causa daquele título fenomenal – e outros que, terminada a obra, ainda não têm a mais pálida ideia de como chamar-lhe. Às vezes, finda a leitura, ficamos perplexos com a escolha do título por parte do autor, de tal forma a achamos despropositada; e, em livros traduzidos, nem sempre conseguimos ser fiéis ao título original (lembro-me de que o romance A Child in time, de Ian McEwan, sofreu deste problema, pois «in time» é «no tempo» mas também «a tempo» e, em português, nenhuma expressão servia para traduzir ambas as coisas). Os títulos das canções, embora menos importantes do que os dos livros, porque é sobretudo pelo artista e o nome do álbum que o interessado compra música, também nos ficam na memória (nunca esqueço La Bohème, por exemplo, ou temas da minha juventude como Goodbye Yellow Brick Road). E, porém, misteriosamente, na pintura o título parece coisa de pouca monta e em muitos caso até dispensável. Se atentarmos ao número de obras de arte referidas como «sem título» ao longo dos tempos, chegaremos à conclusão de que é mesmo muito grande. Porque será?

14
Mar16

Imprevistos

Maria do Rosário Pedreira

No dia 23 do mês passado, saí de carro de Lisboa pela hora do almoço em direcção ao Porto, onde decorreria, na FNAC de Santa Catarina, a primeira apresentação pública do romance Rio do Esquecimento, de Isabel Rio Novo, finalista da última edição do Prémio LeYa. Fazia sentido: a autora mora a norte, e é lá que estão seguramente quase todos os seus familiares e amigos. Para dissertar sobre a obra – decerto exemplarmente – estaria o grande Mário Cláudio, o que, aliás, vinha também a propósito, já que conheci Isabel Rio Novo através dele e o romance deixa ver alguma influência da literatura do mestre, e também de Agustina, e também de Camilo. Mas – de forma imprevista e imprevisível – Mário Cláudio tinha nesse dia uma daquelas gripes que não deixam ninguém levantar-se da cama e ligou para mim e para a autora meia hora antes do lançamento com uma voz a condizer com a febre, explicando que não conseguiria mesmo estar presente, mas mandaria entregar as suas notas numa folha A4 na livraria. Eu, partindo delas e com a colaboração da Isabel Rio Novo, dei conta do recado o melhor que sabia e podia, mas, claro, não tenho a aura nem a inteligência do escritor e, como tal, a autora ficou a perder. Hoje, porém, vamos fazer a festa em Lisboa com a ajuda de Nuno Júdice, que terá certamente muito a dizer e espero não adoeça com gripe até lá. Se quiser juntar-se a nós, venha e será muito bem-vindo.

 

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11
Mar16

Portugal-Brasil

Maria do Rosário Pedreira

Não é novidade que as literaturas portuguesa e brasileira andam há muito de costas voltadas; mas a notícia de que o Ministério da Educação do Brasil (MEB) iria eliminar o carácter obrigatório do estudo da literatura portuguesa chocou muita gente dos dois lados do Atlântico. O problema não está, note-se, em acompanhar o que se vai escrevendo por aqui na contemporaneidade, mas em riscar dos currículos do Secundário alguns nomes fulcrais da literatura lusófona como Camões, Pessoa, Camilo, Garrett, Eça (eu julguei que Eça fosse apreciadíssimo no país irmão, apesar de por lá terem o grande Machado de Assis) e até Saramago, a quem muitos leitores brasileiros faziam vénia cada vez que punha os pés no Brasil (e foi lá frequentemente). A decisão – que ainda não foi confirmada e só será posta em prática, se o for, em Junho – foi considerada por muitos educadores brasileiros política e populista num momento em que o MEB quer fazer mudanças profundas nos programas de História e Língua Portuguesa. E, no jornal Folha de S. Paulo, dois professores universitários afirmam que a proposta raia o absurdo e que Portugal, custe o que custar, não pode ser simplesmente apagado das origens do Brasil. A ver vamos.

10
Mar16

Uma questão de honra

Maria do Rosário Pedreira

Nas últimas Correntes d'Escritas, Javier Cercas, o romancista espanhol que venceu o prémio literário atribuído anualmente naquele certame com a sua obra As Leis da Fronteira, contou uma deliciosa história quando foi ao palco receber o galardão, tudo por causa das falsas modéstias. Ao que parece, o grande Miguel de Unamuno foi receptor de uma condecoração muito importante por parte de Sua Majestade o rei Afonso XIII. E, no momento em que fez o discurso de agradecimento, disse com todas as letras que se sentia honrado com aquela medalha que tanto merecia e ainda bem que lha estavam a dar. Parece que o rei conhecia razovalmente Unamuno e que, por isso, não estranhou por aí além as suas palavras; mesmo assim, não resistiu a perguntar-lhe porque reagia daquela forma um pouco sobranceira, afirmando que o prémio era merecido. Por ser verdade, explicou Unamuno. E, quando Afonso XIII lhe lembrou que os seus antecessores todos tinham dito sentirem-se profundamente honrados com a distinção justamente por não serem dela mercedores, o escritor retorquiu laconicamente: Claro, mas nesses casos era verdade.

09
Mar16

Politicamente correcto

Maria do Rosário Pedreira

Publiquei há muitos anos uma colectânea de artigos do historiador norte-americano Daniel Boorstin – então director da Biblioteca do Congresso – chamada O Nariz de Cleópatra, a maioria dos quais reflectia sobre a questão do politicamente correcto e, na verdade, a desmontava de modo inteligente. Devo dizer que, com o tempo, começo a achar que há bens que vêm por mal e que o politicamente correcto foi justamente um deles: onde já se viu, por exemplo, cobrir as esculturas de Miguel Ângelo só para não escandalizar o líder do Irão em visita a Florença? Ou excluir o porco dos livros escolares britânicos por causa de os alunos árabes e judeus não comerem carne de porco? Ou mesmo retirar o Holocausto dos currículos de alguns cursos para, enfim, não ferir susceptibilidades? Tudo quanto é demais é erro, já dizia a minha avó; e agora parece que até a criançada está viciada no jogo do politicamente correcto e que há queixas de racismo e discriminação porque um manual do 2º ano – para meninos de sete ou oito anos – inclui um exercício com lengalengas, entre as quais a conhecida: «Truz Truz / Quem é? / É o preto da Guiné / O que traz? / Café.» Eu bem sei que basta haver um aluno guineense na turma para a lengalenga virar insulto, mas não é caso único e tudo quanto é charada, história e poeminha com as palavras ciganos, gordas (no caso uma girafa), chineses, etc. é motivo de reclamação por parte de professores e encarregados de educação, mas também de miúdos. Os autores de livros infanto-juvenis, muitos deles grandes combatentes pela igualdade, andam a ser chateados por causa disso. Mas escrever com pinças não será também uma falta de liberdade?

08
Mar16

Como cinema

Maria do Rosário Pedreira

Logo teremos mais um lançamento na Livraria Buchholz, o do romance Os Dez Livros de Santiago Boccanegra, de Pedro Marta Santos, que em 2014 foi um dos finalistas do Prémio LeYa. Além de ter uma capa muitíssimo bonita, tem um «miolo» ainda melhor e, de certa forma, é como cinema em estado puro: profundamente visual, misterioso, alucinante, construído cena após cena. O autor escreveu-o talvez por não poder fazer um filme com este argumento (seria mesmo difícil e caríssimo), e o realizador António-Pedro Vasconcelos, com quem Pedro Marta Santos já trabalhou como guionista, vai apresentá-lo. Boxeurs, prostitutas de luxo, traficantes, poetas, apreciadores de arte e até uma gravidez por causa dos Beatles, tudo cabe neste romance onde também há pássaros e baleias. Veja se não falta.

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07
Mar16

Embrulho de luxo

Maria do Rosário Pedreira

O Manel contou-me que, quando era jovem, muitas editoras portuguesas encomendavam a realização das capas dos livros a artistas e pintores conhecidos e que isto não acontecia apenas com obras de autores importantes, mas também com livros que, à partida, tinham menos prestígio junto do público, como alguns romances policiais publicados na famosa colecção Vampiro, livros de bolso e vendidos a um preço módico. A mim não me ocorreria comprar hoje um livro só por causa da capa (talvez por ser uma insider do mundo editorial e saber que às vezes a capa não espelha exactamente o que é o livro); mas fui recentemente surpreendida por uma colecção de livros que está a ser vendida com o jornal Público a partir do final de Fevereiro chamada justamente Quem Vê Capas Vê Corações, que reúne doze volumes cujas capas originais foram uma obra-prima de inovação e arte, desenhadas por gente que sabia da poda muito antes da invenção do marketing. A série inclui romances de Erich Maria Remarque ou José Rodrigues Miguéis, a par de textos de teor mais ensaístico como Novo Mundo, Mundo Novo, de António Ferro (com capa do pintor modernista Bernardo Marques) ou mesmo literatura juvenil, como Histórias da Minha Rua, de Maria Cecília Correia, com capa e ilustrações de Maria Keil. Belas obras literárias com capas icónicas, em suma. Deixemo-nos tentar pelo embrulho para chegar ao miolo…

04
Mar16

Histórias da Batalha

Maria do Rosário Pedreira

O Mosteiro da Batalha é, sem dúvida, um dos mais belos monumentos portugueses (e do mundo inteiro), além de ser o mais visitado a seguir aos Jerónimos – e o seu director, Joaquim Ruivo, teve uma ideia de génio e convidou Paulo Kellerman e João Paulo Silva para a porem em prática: haveria, em suma, que escolher 20 escritores para passarem dois dias no mosteiro, acompanhados pelo director e por uma guia, que os levaram a conhecer todos os cantinhos à casa, mesmo aqueles que habitualmente estão vedados ao público. Depois, tinham de escrever um conto, que seria publicado numa antologia, Contos Imperfeitos, produzida e distribuída pela Livraria Arquivo, em Leiria, onde será apresentada amanhã, pelas 18h30. Participam na antologia, além dos já citados coordenadores, Afonso Cruz, Ana Cristina Silva, Andreia Monteiro, António Manuel Venda, Cláudia Clemente, Cristina Carvalho, Elsa Margarida Rodrigues, Fausta Cardoso Pereira, Fernando José Rodrigues, Inês Botelho, Inês Fonseca Santos João Eduardo Ferreira, Luís Mourão, Paulo Assim, Paulo Moreiras, Raquel Ochoa, Sara Monteiro e Sílvia Alves. Se estiver por perto, apareça por lá e vai de certeza apreciar.

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03
Mar16

Brincar aos Maias (sem cometer incesto)

Maria do Rosário Pedreira

Os Maias, Becoming an Expert diz-lhe alguma coisa? Pois bem, é um jogo com 448 perguntas de escolha múltipla, divididas por níveis – uma espécie de concurso desenvolvido por uma equipa multidisciplinar de investigadores da Universidade de Coimbra, com o apoio de profissionais de design e programação informática, para tornar a aprendizagem da obra de Eça de Queirós mais entusiasmante e interactiva. O jogo destina-se, ao que parece, a smartphones e tablets e já foi testado com alunos do 11.º ano em estabelecimentos de ensino do Centro e Norte do País com bastante sucesso: as reacções, tanto de alunos como professores, foram francamente positivas, razão para a coordenadora do estudo financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia concluir que é necessário alterar as práticas de ensino e ir além da aula tradicional de tipo expositivo. Se os alunos levam o telemóvel para a aula e não o conseguem ignorar, então o melhor é usá-lo para aprender a matéria (neste caso Os Maias, mas há outros temas, como a implantação da República, por exemplo). Os jogos – que inicialmente serão quatro – vão ser lançados em Maio e disponibilizados a todas as escolas que se mostrem interessadas em experimentá-los. Vamos lá ver quantos peritos em Eça vão nascer nas escolas.