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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

02
Mar16

Decidir um ofício

Maria do Rosário Pedreira

Talvez a maioria das pessoas que se queixam continuamente do trabalho não faça aquilo de que gosta e, mesmo realizando funções na sua área de formação, preferisse deitar a mão a uma coisa diferente. Escolher um ofício não é para todos, evidentemente; e, assim em termos abstractos, eu até poderia dizer que, se não trabalhasse com livros, me via a ser radialista ou actriz de teatro mas, provavelmente, não tenho o mais pequeno talento para representar, nem condições, porque tenho bastante medo do público; e, quanto à rádio, desconfio de que não me entenderia com as máquinas. Conheço, porém, artistas multifacetados que hoje são músicos mas sempre desenharam bem, ou que se tornaram escritores mais ou menos bem-sucedidos quando as famílias pensavam que acabariam a cantar num palco. O falecido cineasta João César Monteiro disse um dia numa entrevista que decidira na juventude ser poeta (e, claro, também o foi à sua maneira particular com os filmes que fez); mas que, percebendo que a poesia portuguesa estava «cheia como um ovo», teve de se virar para o cinema. Ele, pelo menos, decidiu o seu ofício.

01
Mar16

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Não ando a ler, já acabei, mas, para o efeito, tanto faz. Capa belíssima e título ainda mais belo fazem de qualquer livro irresistível e, por isso, este não é excepção. Chama-se Não Há tantos Homens Ricos como Mulheres Bonitas Que os Mereçam e assina-o Helena Vasconcelos, a crítica literária mais simpática da actualidade que, ainda por cima, tem a coragem e a humildade de se atrever à ficção. E fá-lo num romance com muito de ensaio e muito de biografia, que é também uma espécie de “Jane Austen para principiantes e devotos”. Contando a história de Ana Teresa – uma rapariga desfasada do seu tempo e com pais ausentes, que vai para Londres investigar tudo o que ainda não sabe sobre a sua escritora preferida –, a autora partilha simultaneamente com ela e connosco a vida e a obra de uma das mais interessantes e divertidas ficcionistas dos inícios de Oitocentos, herdeira de alguns dos bons tiques de Shakespeare e conhecida por livros como Orgulho e Preconceito, Ema ou Sensibilidade e Bom Senso (só para citar os mais populares). Parece, aliás, que o desejo de Helena Vasconcelos era escrever sobre Austen e que Ana Teresa, a avó, os pais, Rebeca, Mark e as outras personagens do romance saíram da sua cabeça para que pudesse levar a cabo a tarefa de uma forma menos académica do que num ensaio, menos exaustiva do que numa biografia e, sobretudo, mais agradável para o leitor, que acaba por andar a fazer companhia a Ana Teresa (e ela bem precisa), deliciando-se com o seu questionamento sobre o que faria a escritora britânica se se visse nos seus apuros. Um romance inesperado, que podia ter sido arquitectado pela mão de Austen, compõe esta narrativa que se lê de repente.

 

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