Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Abr16

Literatura em Chaves

Maria do Rosário Pedreira

A partir de amanhã e até dia 17, realiza-se em Chaves o Ponte Escrita – primeiro Encontro de Escritores Luso-Galaico, que resulta de um projecto apresentado por Altino Rio ao orçamento participativo de 2015 da Câmara Municipal daquela cidade. Amanhã, os escritores irão visitar as diversas escolas do concelho e à noite, pelas 20h00, realiza-se um jantar e serão cultural na Adega do Faustino, com a participação dos escritores e aberto ao público através de inscrição. No sábado, realiza-se uma visita guiada pela cidade de Chaves com o objectivo de os escritores conhecerem melhor a cidade e assim terem inspiração para depois desenvolverem um conto que será uma espécie de roteiro literário sobre a cidade. A colectânea será editada ainda este ano. O ilustrador Richard Câmara fará um diário gráfico de todo o encontro. Os escritores convidados são: Anton Cortizas Amado, Cristina Carvalho, Elena Gallego Abad, Francisco José Viegas, Herculano Pombo, Inma López, João Madureira, José Carlos Barros, Tiago Salazar, José Fanha, Manuel Araújo, Nuno Camarneiro, Olinda Beja, Paulo Moreiras, Rita Taborda Duarte, Richard Câmara e Rui Vieira. Se estiver por ali, não falte.

 

 

13
Abr16

Em Abril livros mil

Maria do Rosário Pedreira

Não há meses melhores nem piores para quem gosta de ler e lê naturalmente todo o ano; mesmo assim, dou comigo a sonhar com os dias compridos do Verão para neles caberem ainda mais leituras – e sobretudo as que nada tenham que ver com a profissão, já que, no resto do ano, são centenas as páginas lidas por obrigação e relativamente poucas, em comparação, as profundamente desejadas. E, no entanto, decerto porque Portugal não lê o suficiente, duas entidades – a Câmara Municipal de Lisboa e a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros – lançam neste mês de Abril a campanha «Ler em todo o lado». Vai ser, pois, na capital, um período cheio de actividades para todas as faixas etárias, com vista a incentivar os hábitos de leitura dos Portugueses: exposições, leituras públicas, sessões de autógrafos, feiras de rua ou horas dedicadas ao conto, tudo isto e muito mais preencherá os dias que faltam para chegar Maio. Vale a pena estar atento a este programa de promoção da leitura.

12
Abr16

Uma questão de idade

Maria do Rosário Pedreira

Nos últimos tempos, proliferaram na imprensa portuguesa entrevistas e artigos de opinião sobre como as gerações mais novas estão a ficar perigosamente infantilizadas e como os adultos, especialmente os pais e educadores, têm responsabilidade nesse facto. «Estamos a criar crianças totós, de uma imaturidade inacreditável» era o título de uma entrevista publicada no Observador, que aproveitava uma declaração do entrevistado, o professor Carlos Neto, especialista em motricidade humana. Carlos Neto trabalha com crianças há quase cinquenta anos e deixou de há uns anos para cá de ver joelhos esfolados – o que era muito saudável, sinónimo de que os miúdos brincavam –, passando, em vez disso, a encontrar meninos que cumprem agendas complicadíssimas (ele chama-lhes «superagendas») que não lhes permitem «estar em confronto com a natureza, em confronto com o risco e com o imprevisível, com a aventura». Quase ao mesmo tempo, leio que a Sociedade Estoril-Sol, promotora do Prémio Literário Agustina Bessa-Luís, decidiu retirar do regulamento do concurso o limite de idade de 35 anos, considerando que condiciona o aparecimento de novos valores (o prémio é para obras inéditas em língua portuguesa, de autores que nunca tenham publicado ficção). Estarão porventura as duas coisas ligadas?

11
Abr16

Escritores e dinheiro

Maria do Rosário Pedreira

Leio num artigo publicado no La Nación, jornal argentino de grande tiragem, que um estudo encomendado por várias associações de escritores na Europa confirmou que os escritores franceses nunca estiveram tão deprimidos como agora. O estado de coisas no nosso continente não é dos melhores, bem o sabemos, mas se pensavam que a razão para a neura era essa, desenganem-se, pois parece que o problema é, afinal, terem as contas bancárias completamente rapadas. Os escritores dizem que nunca ganharam tão pouco na sua vida, e metade deles declara inclusivamente que nem sequer consegue o equivalente a um salário mínimo com os seus livros (um salário mínimo em França deve ser, porém, três vezes o português). Assumindo-se claramente contra os apoios governamentais aos escritores, o articulista aconselha então os queixosos a trabalharem, segundo o exemplo de Rodolfo Fogwill, um autor argentino que ganhou vários prémios importantes e que não só nunca deixou a sua ocupação como consultor de marketing, como dizia que, se os escritores fossem subsidiados, então também o deveriam ser os canalizadores e as baby-sitters, uma vez que não via nada de excepcionalmente meritório em escrever livros. Citando Faulkner, o autor do artigo acrescenta que o escritor não precisa de liberdade económica, o que precisa é de lápis e papel; que nada de bom se escreve só por se ter recebido dinheiro para isso e que um bom escritor nunca recorre a fundações ou instituições para o apoiarem financeiramente pela simples razão de que estará a escrever, não tendo tempo para minudências. A época de Faulkner era diferente, bem entendido, e hoje está fora de questão um escritor viver como um indigente, como tantos artistas viveram no passado. Mas, na verdade, a conta bancária recheada não garante, só por si, a qualidade literária. Só que a pobreza também não. Além disso, na cadeia da edição, do paginador ao livreiro, passando pelo tipógrafo e o editor, todos são profissionais. Então, porque não é profissão escrever?

08
Abr16

Mini-bibliotecária

Maria do Rosário Pedreira

Nestes tempos tão escuros para o mundo, em que todos os dias nos chegam notícias de atrocidades, violência, atentados, desrespeito e intolerância, sabe bem ler que ainda há quem nos faça ter esperança no futuro, sobretudo em locais onde o bem-estar não é, de modo nenhum, evidente. Muskaan Ahirwar, uma menina indiana de nove anos a frequentar a terceira classe, decidiu criar uma biblioteca à sua porta, num bairro pobre, para os meninos que não têm livros. Todos os dias, depois das aulas, chega a casa e monta a sua biblioteca, colocando os livros – que já são mais de cem – numa espécie de estendal. Empresta-os aos que vêm dos bairros de lata ainda mais degradados do que o seu e já sabem ler, mas também lê alto para os mais pequeninos, a quem, de resto, explica com paciência como ler faz com que se viaje sem sair do sítio. A operação tem sido de tal modo bem-sucedida que o Estado da Índia resolveu certificá-la como bibliotecária, concedendo-lhe um diploma atestando as suas capacidades para a função e declarando que a sua biblioteca tem o apoio do sector oficial da educação. Nesse documento, lê-se ainda que ser amigo dos livros é ser amigo do mundo e que ler é também conhecer outros mundos. Um exemplo bonito de que deixo aqui uma imagem inspiradora.

biblit.jpg

07
Abr16

Dueto

Maria do Rosário Pedreira

Hoje à tarde há lançamento – e trata-se de um acontecimento muito especial para mim, pois é raro ter dois autores meus juntos à mesma mesa, e ainda mais raro duas autoras! O livro que as reúne – A Noite não É Eterna – foi escrito por uma delas, Ana Cristina Silva, que já publica há muitos anos (tem cerca de uma dezena de romances espalhados por diversas editoras) e, abreviando muito, gosta de associar a psicologia à história quando compõe as suas narrativas. Vai apresentá-lo a jornalista e escritora (talvez fosse escritora desde sempre dentro de si, e até por isso tenha escolhido o jornalismo como profissão) Ana Margarida de Carvalho, vencedora do Grande Prémio de Romance e Novela da APE com o seu romance de estreia – Que Importa a Fúria do Mar – e com novo livro a sair ainda este mês de Abril (oportunamente falaremos dele, claro). Se estiver em Lisboa, não falte!

A Noite Nao é Eterna_convite.jpg

 

 

 

06
Abr16

Chique e cool

Maria do Rosário Pedreira

Em matéria de livrarias, o Porto sempre ganhou a Lisboa: tem a Lello, uma das mais belas do mundo, e portanto parece-me justo que continue em primeiro. Mas, alargando um pouco o âmbito a espaços cool e chiques ao mesmo tempo, a capital pode oferecer de há alguns anos para cá uma livraria que também se tornou atracção turística – durante os lançamentos, há sempre um rostinho de sardas ou uma cabeleira impossivelmente loura deambulando entre os convidados portugueses e espreitando as prateleiras que se estendem até ao tecto numa sala de pé-direito altíssimo onde voa uma bicicleta. O lugar foi em tempos a tipografia Mirandela, sabiam? Falo, claro está, da Ler Devagar, na Lx Factory; um espaço magnífico que o jornal The Guardian inclui no seu Top Ten de espaços industriais atraentes e belos em todo o mundo, entre outros que foram garagens, parques de estacionamento, piscinas e armazéns e que, do Japão à Sérvia, se transformaram criativamente em restaurantes, ateliers, livrarias, centros de artes, lojas, galerias – enfim, espaços abertos à comunidade. Se não conhece anda a Ler Devagar, visite-a, porque vale mesmo a pena.

lerdevagar.jpg

 

05
Abr16

BN

Maria do Rosário Pedreira

Falo muitas vezes neste blogue da minha «pequena» biblioteca, mas tenho-me esquecido de prestar a devida homenagem à grande biblioteca que tantos anos frequentei, sobretudo quando era estudante universitária. Sim, falo da Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, que este ano faz 220 anos! São só setenta e cinco quilómetros de prateleiras e quase cinco milhões de documentos em cerca de 66 000 metros quadrados. Tem salas em que as portas corta-fogo pesam três toneladas e que estão protegidas com sistemas anti-sismo e anti-incêndio; guardam os espólios valiosíssimos de escritores como Eça de Queirós ou Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner ou Almeida Garrett e, ao que leio, nem os funcionários da BN as podem visitar sozinhos. O livro mais antigo que ali está remonta ao século XII; mas é lá também que estão guardados a primeira edição d’Os Lusíadas e um dos 50 exemplares existentes no mundo da Bíblia de Gutenberg, entre outras preciosidades, como a carta em que Fernando Pessoa explica a origem dos seus heterónimos. Foi na sala de leitura da BN que passei muitas horas da minha vida e foi lá que comecei a ler Proust numas férias de Páscoa e me apaixonei por dicionários (uma coisa não tem nada a ver com a outra). Por isso, hoje felicito a BN pelos seus 220 anos!

04
Abr16

Leiteira e leitora

Maria do Rosário Pedreira

Todos os leitores deste blogue se lembram certamente do nome de Gabriela Ruivo Trindade, que venceu o Prémio LeYa em 2013 com um romance polifónico intitulado Uma Outra Voz. Pois ela regressa agora aos escaparates e, ainda por cima, não vem sozinha: acompanha-a brilhantemente Rute Reimão, uma ilustradora meticulosa e imaginativa que não faz nada ao acaso e gosta de trabalhar com tecidos, papéis antigos e colagens. A feliz dupla é, assim, responsável por um dos mais bonitos e interessantes livros infantis que publiquei. Chama-se A Vaca Leitora e, resumindo muito, conta a história de Felisberta, uma vaca com manias de gourmande que está fartinha do pasto que todos os dias lhe dão a comer e sonha com caviar, salmão fumado e outras iguarias. Nada feito… Porém, um belo dia, Felisberta encontra nas folhas de um jornal esquecido pelo dono requintes gastronómicos. Pois sim, mastiga-o: e uma vaca culta, leitora, é também seguramente uma vaca leiteira de maior gabarito. Este é um livro para crianças a partir dos 5 anos que mostra como a leitura é sempre vantajosa e, por isso mesmo, deve ser lido aos mais pequenos e oferecido aos que já dominam a faculdade de ler. Publicidade à parte, vale mesmo a pena.

9789722059459_a_vaca_leitora.jpg

 

01
Abr16

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Num bocadinho que tinha – só um dia, na verdade – fui a correr a uma estante e trouxe de lá um livro curto, que desse para começar e acabar num virote. O autor, Per Petterson, já o conhecia de Maldito Seja o Rio do Tempo (de que aqui falei); mas não chegara ainda a pôr o dente nestes Cavalos Roubados – um romance com uma relação próxima com a natureza, como, aliás, muita literatura nórdica (no caso, trata-se de um texto norueguês). Além dos cavalos roubados por dois adolescentes para uma passeata que não corre como esperado, temos nesta obra um rapaz de quinze anos que também é de certa forma roubado, pois, no fim de umas férias especiais com o progenitor, no ano de 1948, acaba por voltar a Oslo, onde estão a mãe e a irmã, e perder o contacto com esse homem tão importante na sua vida, que lutara contra o nazismo uns anos antes. Vemos agora o rapaz bastante mais velho, já viúvo, a isolar-se deliberadamente numa cabana no meio do nada, depois de isolado sem querer pela morte da mulher, e encontrando nesse nada um outro velho que conheceu em menino, justamente nesse verão antigo em que trabalhou, passeou, pensou, apaixonou-se, chorou e foi a cavalo com o pai até à Suécia numa viagem de grande cumplicidade. Com muito sol no passado e neve no presente (juventude e velhice), Cavalos Roubados é um romance a que o Daily Telegraph chamou com razão «profundamente atmosférico», uma obra de arte delicada sobre a nostalgia de uma vida mais pura e simples.

Pág. 2/2