Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Mai16

Eça em Paula Rego

Maria do Rosário Pedreira

No próximo dia 25, na Casa das Histórias de Cascais – o museu dedicado a Paula Rego, a pintora portuguesa que vive e trabalha em Londres há muitos anos –, vai inaugurar-se uma exposição a não perder, que tem por título Old Meets New e é comissariada por Catarina Alfaro, ficando aberta ao público até final de Outubro. As obras, produzidas pela artista entre 2013 e 2015, pertencem a três séries: D. Manuel, o Último Rei de Portugal (2014); A Relíquia (2013); e O Primo Basílio (2015), as duas últimas baseadas nos romances homónimos de Eça de Queirós. Parece que Paula Rego aprecia muito o romancista português, sobretudo pela crítica que sempre faz nos seus livros à sociedade, gostando de regressar à sua obra de vez em quando para criar, tendo, como se sabe, dedicado já no passado (entre 1997 e 1998) uma outra série de trabalhos a O Crime do Padre Amaro. Pintar partindo da literatura foi, aliás, o que fez com que, ainda jovem, Paula Rego desse nas vistas na londrina Slade School of the Arts com um trabalho sobre um poema de Dylan Thomas. Uma boa combinação de letras e arte.

13
Mai16

A vaquinha vai a Sintra

Maria do Rosário Pedreira

Eu sei que já passou algum tempo desde que publicámos este livro para crianças sobre uma vaca que anda cansada de ervas e está apostada em encontrar uma dieta diferente e mais saborosa – o que acaba por conseguir, pasme-se!, com um simples jornal… Mas uma das autoras, Gabriela Ruivo Trindade (a outra autora é Rute Reimão, a ilustradora), mora fora de Portugal e só agora foi possível contar com a sua presença para a sessão de apresentação de A Vaca Leitora, que acontece amanhã à tarde. A festa terá lugar na Casa dos Hipopómatos na Lua, em Sintra, de quem toma conta Nazaré de Sousa, que também dirá umas palavras avisadas sobre esta bonita história. Ao mesmo tempo, será inaugurada uma exposição com as ilustrações do livro. Se quiserem, passem por lá e, claro, levem as crianças, que serão as principais interessadas. Eu, evidentemente, não faltarei.

 

Convite (3).jpg

 

12
Mai16

Self-Service

Maria do Rosário Pedreira

No jardim da Quinta das Conchas, em Lisboa, há uma mini-biblioteca, em forma de casinha de madeira, à espera de quem passe e queira ler qualquer coisa. Foi construída por Joaquim Sequeira, médico, que por lá passa todos os dias para ver se está tudo em ordem e diz que «qualquer pessoa pode abrir a porta e escolher um livro para ler. Não há registos nem prazos de leitura.» A caixa de madeira, com um pequeno telhado e duas portas de vidro, contém livros para todas as faixas etárias, replicando um modelo que apareceu nos Estados Unidos e ficou conhecido por Little Free Library (pequena biblioteca livre ou gratuita?). Em todo mundo já existem cerca de 36 000 bibliotecas como esta, e em Portugal estão referenciadas três: em Angra do Heroísmo, no Porto e a de Joaquim Sequeira, em Lisboa, à qual ele foi doando cerca de 800 títulos da sua biblioteca pessoal (a ideia era os livros serem devolvidos pelos leitores que os levavam, mas isso não tem acontecido). Junto dos livros, há também um caderno onde os leitores podem deixar mensagens, opiniões e até fazer pedidos. Quando perguntam ao médico o que o leva a construir um projecto assim, ele responde que é um bom hobby, que, de vez em quando, se sente uma espécie de D. Quixote. «Talvez as pessoas não imaginem, mas dar um livro e ver alguém satisfeito por ter um livro é uma coisa que nos derrete, e contra isso não há argumentos», explica.

conchas1.png

 

11
Mai16

Detroit-Leiria

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui tenho falado da Livraria Arquivo, em Leiria, aonde tenho ido regularmente com autores que publico, tanto marinheiros de primeira viagem como reincidentes. Não é, de resto, a primeira vez que acompanho João Ricardo Pedro a essa livraria, pois, quando ele ganhou em 2011 o Prémio LeYa pelo romance O Teu Rosto Será o Último, que seria publicado uns meses mais tarde, também lá estivemos juntos. Mas é sempre uma alegria regressarmos a locais onde nos sentimos em casa e nos tratam bem, onde o público comparece e faz perguntas inteligentes, onde quem acolhe gosta de livros tanto como nós e faz absolutamente questão de promover a literatura. Por isso, se estiver em Leiria ou perto, hoje pelas 18h30 terá oportunidade de fazer parte de um grupo muito simpático de espectadores e ouvintes, muitos dos quais já trarão lido Um Postal de Detroit, o segundo romance de João Ricardo Pedro, no qual se fala da terrível dúvida que assola uma família quando, num acidente de comboios, é encontrada a mochila de uma rapariga chamada Marta, a filha mais velha do casal, embora o seu corpo e os seus documentos nunca apareçam. E, se não puder fazer-nos companhia, leia o livro, que só lhe fará bem.

10
Mai16

Livros proibidos

Maria do Rosário Pedreira

Comemorámos há pouco a revolução de Abril e isso recordou-me uma sessão na Biblioteca de Oeiras a que assisti há cerca de um mês, sobre livros proibidos no tempo da outra senhora, sessão que – creio – se repete mensalmente com outras obras e novos participantes (no dia em que fui, o livro era Podem Chamar-me Eurídice, de Orlando da Costa, e falavam sobre ele a escritora Hélia Correia e o Manel). Nessa noite, contou-se uma história extraordinária sobre a incultura e a cegueira dos agentes da censura. O livreiro José Ribeiro, do Espaço Ulmeiro, sofria rusgas periodicamente, porque tinha muitos livros na loja que estavam proibidos pelo regime. Certamente, os censores mandaram agentes à livraria confiscar tudo o que tivesse a ver com Estaline e Lenine; mas os agentes, que não deviam perceber patavina de coisa nenhuma, a Estaline e Lenine acrescentaram também Racine, decerto porque a rima lhes soou perigosa, e apreenderam as peças do dramaturgo francês, que nem nunca soube o que era a União Soviética; como se isso não bastasse, russo por russo, juntaram-lhes ainda um livro sobre Nijinsky, o bailarino e coreógrafo (quiçá pensando que se tratava de um «subversivo») e, mais engraçado ainda, um manual do betão armado (porque o que está «armado», já se sabe, pode ser um problema). Coisas para rir hoje que, na altura, tinham menos graça.  

09
Mai16

A dar cartas

Maria do Rosário Pedreira

Em muitas matérias estivemos sempre na cauda da Europa (pronto, a Grécia, uma vez por outra, ficava atrás de nós); mas, falando de livros, há – e ainda bem – uma categoria em que estamos, de alguns anos a esta parte, continuamente na vanguarda: a edição de livros infantis e juvenis. Na Feira do Livro de Bolonha, dedicada a este género específico – uma alegria visual, aposto! –, ano após ano, todos esperam que os livros portugueses ganhem os principais prémios de ilustração e texto, porque vai sendo hábito as nossas editoras encontrarem-se entre as finalistas; a Pato Lógico, de André Letria, a Planeta Tangerina, de Madalena Mattoso e Bernardo Carvalho, entre outros, e a Orfeu Negro são exemplos de que estamos muito à frente do resto da Europa – e todas elas já foram nomeadas ou vencedoras do prémio de Editora do Ano ou, pelo menos, publicaram os livros que venceram nas várias categorias a concurso (Ficção, Não-Ficção ou Primeira Obra). Catarina Sobral, Mafalda Milhões, André Letria, Afonso Cruz e muitos outros autores que trabalham este género são considerados a geração de ouro da literatura infantil e os seus livros estão traduzidos em muitos países. Tirando as palavras da boca do consultor editorial que vende os direitos de alguns destes génios, o facto de eles estarem na pole position só pode facilitar-lhe o trabalho... Parabéns! Os mais novos e os mais velhos agradecem.

06
Mai16

Vestir e despir

Maria do Rosário Pedreira

Recomenda a prudência não darmos confiança a quem não conhecemos, mas de vez em quando faço ouvidos de mercador e «amigo-me» no Facebook com algumas pessoas que me pedem amizade de forma delicada ou interessada. Há já um tempo que sou, por isso, amiga de um senhor chamado Marco Neves, que escreve amiúde sobre a língua portuguesa e é, de resto, autor de um livro chamado Doze Segredos da Língua Portuguesa, disponível desde finais de Abril (ainda não li). Foi talvez através de um dos seus links facebookianos (na verdade já não tenho a certeza) que fui dar a um blogue intitulado Certas Palavras (Línguas, Livros e Outras Viagens), que merece que os Extraordinários lhe prestem alguma atenção; e que pus os olhos num post especialmente giro – e, vá lá, algo polémico – que compara a língua portuguesa à roupa que vestimos, defendendo que é bom saber pôr uma gravata quando é preciso, claro, mas que por casa se anda melhor de pijaminha. Assim, deixo-vos hoje exactamente a ligação para esse texto leve mas profundo e espero que a partir de agora possam ir ao blogue de Marco Neves como vêm ao meu.

 

http://www.certaspalavras.net/lingua-portuguesa-roupa-vestimos/

05
Mai16

Encontradouro

Maria do Rosário Pedreira

Hoje parto para um encontro no Douro: o Encontradouro, está claro! No território de Miguel Torga, em Sabrosa, vou falar de fado e poesia com Aldina Duarte, Carlos do Carmo, Fernando Pinto do Amaral e a directora do Museu do Fado, Sara Pereira, que modera a conversa. Mas muito mais por lá se passará: a conferência sobre João Araújo Correia por Miguel Real; a conferência de abertura por José Marques; e, no sábado, a fechar, é a vez de Francisco Seixas da Costa nos brindar com as suas palavras (e ele costuma ser bom nisso). Pelo meio, muitas mesas-redondas com variadíssimos autores, de Afonso Cruz a Cristina Carvalho, de Cláudia Clemente a António Tavares, de José Manuel Fajardo ao mexicano Antonio Sarabia. A belíssima paisagem duriense dará ainda abrigo a uma feira do livro e uma exposição de fotografia de Georges Dussaut sobre Portugal. A coisa promete! Hoje e amanhã não verei os vossos comentários, mas na segunda estarei de volta.

04
Mai16

Um pícaro, para variar

Maria do Rosário Pedreira

Carlos Campaniço, alentejano de gema nascido em Safara, tem escrito quase sempre à roda do seu Alentejo. E o novo romance, à venda daqui por uns dias, também regressa à planície, tendo desta feita por protagonista um Don Juan de todo o tamanho, Firmino. A novidade está em que As Viúvas de Dom Rufia, recentemente publicado, chega em tom de comédia para contar as aventuras e sarilhos em que se mete este mulherengo incorrigível com o objectivo muito concreto de deixar de vez a pobreza franciscana com que sempre viveu. Conta a sua história um parente afastado, nascido muitos anos mais tarde na Argentina, que relembra passo a passo uma história que a família contava à volta da mesa na sua infância e que a todos arrancava bastas gargalhadas: a do funeral desse homem que parecia ter tantas vidas como os gatos, tão depressa armado de mala de médico a atender pacientes, como vendendo loiça, ouro e carvão Alentejo fora, ou até tentando convencer um incauto casal a comprar bocados de Angola para lhe ficar com o dinheiro; um funeral a que, sucessivamente, comparecem mulheres de várias idades supondo-se as suas viúvas, mas logo indignidades pela presença das concorrentes. A par desta louca conquista da independência financeira que tem como isco várias mulheres, é ainda relatada a surpreendente história de um velho chileno, coleccionador de fenómenos e proezas sobre-humanas, a quem Firmino chamará com toda a certeza a atenção. Muito divertido.

rufia.jpg

 

03
Mai16

A oeste tudo de novo

Maria do Rosário Pedreira

É hoje que começa o festival Livros a Oeste, que decorre até ao próximo dia 7 de Maio. Tendo como tema central «Livros sem fronteiras», a presente edição do evento, organizado anualmente pelo Município da Lourinhã, contará com a presença de muitos autores, entre os quais Afonso Cruz, Alice Vieira, Andréa Zamorano, António Tavares, Inês Pedrosa, João de Melo, João Morgado, Mário Zambujal, Patrícia Portela, Rita Ferro, Rita Taborda Duarte e Rui Zink (por ordem alfabética, para não beneficiar ninguém). Haverá mesas-redondas e debates, arruadas e espectáculos de música com a colaboração de alunos de várias escolas, apresentações de livros, performances, hora do conto para os mais novos, degustação de vinhos, teatro e até sessões de promoção da leitura levadas a cabo por quem sabe da poda, ou seja, bibliotecários. No dia 6, realizar-se-á também um recital de poesia por gente muito jovem, e até os bebés têm direito a actividades na manhã de domingo. João Morales é o curador. Vamos lá?