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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Jun16

Para que serve o inútil

Maria do Rosário Pedreira

À minha caixa de correio electrónico vêm parar milhentas mensagens todos os dias – mais ainda desde que alimento este blogue, já lá vão seis anos. Não tenho tempo para ler todas (embora as cheire sempre), mas nos últimos tempos recebi uma muito especial, vinda de um comerciante de livros antigos (Livraria Manuel Ferreira), de que gostei particularmente. Talvez este livreiro esteja cansado de pessoas que lhe perguntam porque se interessa tanta gente por livros antigos se pode ter exemplares novinhos em folha, ou porque muitos fazem questão de adquirir livros raros, fora de mercado, que custam provavelmente uma pipa de massa, só para os terem numa estante lá de casa, e talvez ele queira responder a todos de uma só vez para não ter realmente de explicar mais nenhuma vez a evidência. Mas a verdade é que a história que enviou por e-mail é deliciosa e esclarecedora. Reproduzo-a aqui, para que mais e mais gente a possa ler e partilhar:

 

«Para que servem livros antigos? Por que, para que colecionar livros raros? Essas perguntas lembram-me uma história que se conta.

Dizem que um poeta francês foi uma vez apresentado a um riquíssimo banqueiro. O apatacado personagem perguntou ao poeta: 

– Para que serve a poesia?

E o poeta respondeu-lhe:

– Para o senhor, não serve para nada.

Tinha razão o poeta. Para muita gente, tudo na vida deve ter uma utilidade. Para essa gente pretensiosa não adianta explicar certas coisas, elas não chegaram ainda a um desenvolvimento cultural suficiente para apreciar as coisas sem utilidade aparente.

Se nós examinarmos a evolução, o progresso do mundo, notaremos que só nos países mais adiantados se dá valor às coisas sem utilidade apreciável. É com o progresso material, com a riqueza, que surge a cultura, o amor e o respeito pelas coisas tidas como inúteis. É nos países adiantados que se encontram as mais belas bibliotecas, os museus, as coleções particulares de arte. Não quero dizer com isso que só nesses países há gente capaz de apreciar devidamente essas coisas, mas quero notar que esse fato é um índice de progresso. Não é somente a produção per capita que indica o adiantamento de uma região.

Quando se estuda a história das grandes bibliotecas do mundo, das grandes bibliotecas nacionais que fazem o orgulho de muito povo, vê-se logo que elas se formaram, tendo como base uma coleção particular e foram se enriquecendo com a aquisição ou doação de outras coleções particulares. Foram os Mazarin, os Grenville, os Barbosa Machado que, legando ou vendendo seus livros à nação, enriqueceram o patrimônio nacional. 

Se não fossem os amadores americanos que reuniram coleções, alguns à custa de paciência, conhecimento e gosto, outros a poder de milhões, o que seria das famosas bibliotecas e museus dos Estados Unidos? Ninguém pode hoje estudar seriamente Shakespeare e seu tempo, sem frequentar a Folger Library, em Washington e não em Londres, na biblioteca formada por H. C. Folger, no prédio que ele mandou construir.

Seria um não acabar mais o querer mostrar que, graças a colecionadores particulares, muito tesouro é salvo. (...)

A bibliofilia não é somente um passatempo de homens cultos, um hobby inocente, um emprego de capital para alguns espertos, um negócio para milhares de pessoas no mundo. É uma obra de benemerência. 

Se depois de todos esses argumentos ainda houver quem lhe pergunte: "Para que serve colecionar livros raros?” – então voltaremos à velha história que acima contei. Para aqueles que lhe fizeram pergunta, responda: "Para você, não serve para nada".»