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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

07
Jun16

Pai a tempo inteiro

Maria do Rosário Pedreira

Mais dia menos dia, estará disponível no mercado um livro delicioso (não me fica bem dizê-lo, porque fui a editora, mas, pronto, não resisti): trata-se de Olhando por Mr. Bergman, de João Rebocho Pais, e não é, como os anteriores do autor, uma ficção, mas a mais poderosa e irresistível realidade. João Rebocho Pais teve, no ano passado, o seu terceiro filho rapaz, Filipe Bergman Pais, o Mr. Bergman de que este livro fala. E, como a mãe do bebé é investigadora e bolseira, não podia deixar o trabalho a meio no laboratório onde trabalha nem ficar em licença de maternidade tanto tempo como seria desejável. Vai daí, o pai, que trabalha há mais de trinta anos na TAP, pediu uma licença e tomou a decisão de a substituir, permanecendo a tempo inteiro em casa com o filho durante os primeiros seis meses. E são os relatos dessa vida a dois que aqui nos são oferecidos – incluindo as chuchas desaparecidas, os passeios, os espirros de papa, os sonos desencontrados, a terrível ida para a creche, os puns de pai e filho numa sinfonia que tem uma inegável cumplicidade e serve ao autor igualmente para rememorar os momentos semelhantes que viveu com os outros dois filhos. Divertidíssimo, cheio de ternura, Olhando por Mr. Bergman é uma homenagem à paternidade que mostra como, em matéria de família, os tempos estão mesmo a mudar. E para melhor, diria eu.

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06
Jun16

A decadência do Brasil

Maria do Rosário Pedreira

Independentemente de se gostar ou não de Dilma Roussef, o que se passou recentemente no Brasil foi escandaloso e patético, até porque recai em quem agora a substitui a mesmíssima suspeita de corrupção que a afastou da presidência. Mas este senhor Temer – não sei se concordam comigo – é muito pior do que a sua antecessora e já mostrou as suas inclinações antidemocráticas não só através de algumas nomeações (bispos de seitas religiosas e afins), mas sobretudo através do retrocesso que significa a extinção de alguns ministérios (das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos e, claro, da Cultura – que só recuperou porque percebeu que até em Cannes essa sua decisão estava a dar que falar), no desprezo total de categorias como género e raça, tão importantes no Brasil. A poetisa Ana Luísa Amaral, a este propósito, relembrou o texto em que a escritora e activista norte-americana Adrienne Rich explicava porque não podia aceitar a National Medal for the Arts que lhe fora atribuída. Deixo-o eu aqui também para vossa reflexão: «A arte é o nosso direito de nascença, o nosso mais poderoso meio de aceder à vida imaginativa e à experiência de nós próprios e dos outros. Porque redescobre e recupera continuamente a humanidade dos seres humanos, a arte é crucial para a visão democrática. Um governo, à medida que se vai afastando da democracia, verá como cada vez menos útil o encorajamento dos artistas, verá a arte como uma obscenidade ou uma fraude.» Tirem as vossas próprias conclusões.

03
Jun16

Prémio LeYa

Maria do Rosário Pedreira

O prazo para envio de candidaturas ao Prémio LeYa 2016 acabou há uns dias e, na verdade, ainda não sei quantas pessoas concorreram este ano. Desde as duas primeiras edições, a média de originais enviados tem subido muito – e no ano passado julgo que o número de romances de língua portuguesa oriundos de variados países (os emigrantes também concorrem) que se candidataram rondou os 350, mas há três anos tivemos uma verdadeira enchente: mais de 500... O Coro dos Defuntos, de António Tavares, uma obra aquiliniana, foi o vencedor do ano passado e, embora tenha sido publicado em Novembro, só domingo terá lugar na Feira do Livro, pelas 19h00, a sua entrega. Contamos, claro, com o presidente do júri, Manuel Alegre, entre outras individualidades, para fazer as honras da casa. A sessão é aberta ao público, pelo que, se quiser aparecer, considere-se desde já convidado. Até lá.

 

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02
Jun16

Recompensas

Maria do Rosário Pedreira

Os editores ingleses, como já aqui referi, compram pouca literatura estrangeira – mas, quando a compram, gostam do exótico. Em muitas reuniões com editores britânicos que tive no passado, no que toca aos romances de língua portuguesa, sempre estiveram mais atentos aos africanos e brasileiros do que aos portugueses. Isso explica, aliás, que a última edição do Man Booker International Prize tenha tido entre os seus candidatos ou finalistas Agualusa, Clarice Lispector ou Raduan Nassar, mas nenhum português, até porque são muito poucos os que estão traduzidos. Mas a verdade é que quem acabou por ganhar foi A Vegetariana, da sul-coreana Han Kang, outro livro bastante exótico. Eu, que raramente publico traduções, comprei esta pérola muito antes de saber que estaria entre os nomeados para o prémio e, mais tarde, entre os finalistas; mas correu-me bem, porque assim tenho a certeza de que o livro partirá com vantagem e chegará a um número maior de leitores. Uma recompensa, portanto, pela minha curiosidade (não sendo eu vegetariana nem nada que se parecesse, cheirou-me a coisa interessante quando li a sinopse e mandei vir o livro, e não me enganei, porque afinal um júri conceituado concordou comigo em que este livro é mesmo muito bom). Alegrias no trabalho que eu gostaria muito de replicar daqui a um ano ou dois com algum romancista português, que também já merecia uma tradução em língua inglesa e, porque não?, um prémio internacional. A Vegetariana sairá na rentrée com o selo das Publicações Dom Quixote e tradução de Maria do Carmo Figueira.

01
Jun16

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Se estavam à espera de que vos impingisse hoje o quarto volume da tetralogia A Amiga Genial, de Elena Ferrante, desenganem-se: fiz um interregno para ler outras coisas, embora continue interessada nos destinos de Lenù e Lila, sobretudo porque o volume anterior acabou com um balão a estourar; mas há vida além da febre Ferrante e, já que estamos a falar de mulheres, virei-me para um livro sobre a sua condição – feminista, sim –, assinado por Rebecca Solnit, de quem já vos falei no Verão passado a propósito de um outro livro (Esta Distante Proximidade, mais suculento do que este que ando a ler). Chama-se As Coisas Que os Homens Me Explicam – e o título aponta para um certo paternalismo vagamente parvo com que o sexo masculino trata o feminino, especialmente quando dá explicações desnecessárias, como se a mulher fosse estúpida ou não fosse suposto saber determinadas coisas. Se a autora não falasse tanto de si própria e da sua obra, pondo-se não raro em bicos de pés, talvez eu apreciasse mais esta espécie de manifesto que nos assusta com as estatísticas (sabia, por exemplo, que a cada seis minutos uma mulher apresenta queixa por violação nos Estados Unidos?); mas espero mesmo assim reconciliar-me com a metade de livro que me falta ler, até porque, mesmo que não sejamos feministas militantes, há aqui muita informação indispensável para nos fazer pensar no real papel das mulheres neste tempo em que nos calhou viver.

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