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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

05
Jul16

O escritor-fazendeiro

Maria do Rosário Pedreira

Recentemente foi atribuído pela vigésima oitava vez o Prémio Camões, o mais prestigiado da língua portuguesa, e coube, pela décima segunda, a um escritor brasileiro. Chama-se Raduan Nassar e o júri sublinhou «a extraordinária qualidade da sua linguagem» e a «força poética da sua prosa» como argumentos para lhe conceder o galardão, comparando o seu génio literário a autores como Guimarães Rosa ou Clarice Lispector. Concordo com tudo isto, na medida em que li dois dos seus livros, Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera, aconselhada curiosamente por uma leitora mais nova do que eu, que estava maravilhada com este escritor descendente de libaneses (o nome diz tudo) e mo aconselhou aqui há uns anos (em Portugal só foi publicado depois dos anos 1990). Poderão pensar que dois livros não são suficientes para poder entender a escolha do júri, mas a verdade é que Raduan Nassar escreveu apenas três livros (sim, três) em toda a sua vida, os dois que mencionei na década de 1970, novelas, e mais um livro de contos, Menina a Caminho, em 1994. Nos anos 1980 retirou-se para uma fazenda e decidiu ser agricultor, não voltando praticamente à cidade nem ligando muito à escrita, tanto quanto se sabe. Para com três livrinhos apenas ter arrecadado o Prémio Camões, enfim, já podem ver o talento do mestre…