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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

26
Jul16

O que deixa saudades

Maria do Rosário Pedreira

O jornal digital Observador publicou recentemente um artigo sobre as velhinhas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, afirmando que nunca nada em Portugal conseguiu fazer tantos leitores como elas e perguntando-se simplesmente porque não voltam. Pois bem, a verdade é que conheci enquanto estudante e enquanto editora – portanto, em dois tempos muito distantes entre si – muita gente que começou a ler por causa destas carrinhas ambulantes cheias de livros que passavam nas terras mais insignificantes e punham a miudagem toda a ler. (Em 1959, já havia mais de 80 000 leitores espalhados pelo País à espera das bibliotecas em 118 concelhos! E, para quem não saiba, os poetas Alexandre O’Neill e Herberto Helder colaboraram com o projecto, orientando leitores e tirando-lhes dúvidas). O serviço foi, porém, extinto ao fim de 44 anos, em 2002, por falta de público, uma vez que o Estado criou uma rede de leitura pública e construiu bibliotecas fixas por todo o País que, tanto quanto sei, são bastante frequentadas por muita gente, dos miúdos aos mais velhos que ali vão ler muitas vezes os jornais. Mas não é a mesma coisa, claro: a carrinha dos livros tinha o mesmo apelo da carrinha dos gelados. Leio que a Fundação Calouste Gulbenkian não pondera o seu regresso, mesmo noutros moldes. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.