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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

19
Set16

A melhor parte

Maria do Rosário Pedreira

 

Há histórias reais que davam mesmo bons romances – e, se forem histórias de romancistas, melhor. No ano passado, depois de anunciados os finalistas do Prémio LeYa, soube-se que dois deles eram namorados… Entre tantos originais a concurso, foi uma bela coincidência... Um desses escritores, o Paulo M. Morais, quis porém rever a sua novela e apresentar-me, em vez dela, um livro de não-ficção que tinha praticamente concluído. Era este Uma Parte Errada de Mim, de que hoje vos falo; e, quando iniciei a leitura, dei por mim, muitas horas depois, com mais de 150 páginas lidas sem ter feito uma pausa. Trata-de de um testemunho absolutamente notável (e nada lamechas nem sensacionalista, como às vezes acontece) sobre uma experiência terrível: no mesmo ano em que ficara sem emprego, se separara e tivera de voltar para casa de uma avó com quem vivera na infância, o Paulo descobriu de um dia para o outro que tinha um linfoma (a médica de família achava que era tudo uma depressão). Mas esta sua «parte errada», a cujo tratamento assistimos também neste livro, foi aquele desvio que o conduziu ao lugar certo e o ajudou não só a fazer um corajoso balanço de vida (o passado torna-se fulcral quando ignoramos se temos futuro) mas igualmente a corrigir muita coisa que lhe permitiu ir suportando os maus fantasmas e ir encontrando forças (e também alguém muito especial) para resistir. Uma Parte Errada de Mim, na tradição de livros como o de Rebecca Solnit de que aqui falei já (Esta Distante Proximidade), não é, pois, MAIS um livro sobre o cancro, mas uma reflexão magistral sobre a condição humana, que se lê com a fluência de um romance com final feliz. A não perder.

 

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