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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Set16

A Vegetariana

Maria do Rosário Pedreira

E pronto, A Vegetariana já está na rua! Vencedor do Man Booker International Prize há uns meses, eis o livro de Han Kang que destronou obras de Elena Ferrante, José Eduardo Agualusa e até o Nobel Pahmuk e desde então vendeu cerca de meio milhão de exemplares só na Coreia, país natal da autora. É a história de uma mulher que era absolutamente normal. Nem bonita nem feia. Fazia as coisas sem entusiasmo de maior, mas também nunca reclamava. Deixava o marido viver a sua vida sem sobressaltos, como ele sempre gostara. Até ao dia em que teve um sonho terrível e decidiu tornar-se vegetariana. E essa sua renúncia à carne – que, a princípio, ninguém aceitou ou compreendeu – acabou por desencadear reacções extremadas da sua família. Tão extremadas que mudaram radicalmente a vida a vários dos seus membros – o marido, o cunhado, a irmã e, claro, ela própria. A violência do sonho aliada à violência do real só tornou as coisas piores; e então, além de querer ser vegetariana, ela quis ser puramente vegetal e transformar-se numa árvore. Talvez uma árvore sofra menos do que um ser humano… Um romance mesmo bom, de que Ian McEwan disse merecer todo o  sucesso que alcançou. A tradução é de Maria do Carmo Figueira. Leiam, leiam.

 

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15
Set16

Livros de graça

Maria do Rosário Pedreira

Eu bem sei que venho um pouco tarde, porque hoje é o último dia para poderem aproveitar esta dádiva, mas pode ser que morem ou passem pela Freguesia de Arroios, em Lisboa, e ainda cheguem a tempo. (E, embora não seja o caso aqui no blogue, a verdade é que não deve haver assim tanta gente interessada, digo eu, sabendo o nível de hábitos de leitura dos portugueses.) A história é esta: uns quantos livros foram espalhados por vários locais de Arroios no âmbito de uma acção conjunta da Biblioteca de S. Lázaro (a mais antiga de Lisboa) e da Junta de Freguesia de Arroios; e podem ser sessenta só num dia! Aparecem nas piscinas, em bancos de jardim, em esplanadas de cafés, em quiosques, e no fundo o que querem é alguém que lhes deite a mão, os leve para casa e, evidentemente, os leia. Há de tudo, de policiais a poesia, de livros portugueses a literatura traduzida. E o que se pretende é que as pessoas percam o medo aos livros, lhes peguem e experimentem ler… De graça, ainda por cima! Em anos anteriores, a oferta de livros acontecia na própria biblioteca, mas, claro, aparecia pouca gente, iam sempre os mesmos – e esses eram quase todos leitores firmados. Assim, sempre pode surgir alguém que queira tentar … e goste. É sempre assim que começa.

 

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14
Set16

Quintas especiais

Maria do Rosário Pedreira

Falo muito neste blogue (e não só) das Quintas de Leitura, um espectáculo de poesia que costuma acontecer uma vez por mês no Teatro do Campo Alegre, no Porto. Mas, como a Feira do Livro está a decorrer naquela cidade, as Quintas deste mês serão amanhã no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, instalada nos jardins do Palácio de Cristal, no mesmo local onde tem lugar a feira. Esta sessão vai ser dedicada ao grande editor Vítor Silva Tavares, que morreu recentemente, tendo-nos brindado em vida com a sua belíssima &etc, uma editora de excepção que publicou numerosos poetas, entre os quais Herberto Helder, António Ramos Rosa, João César Monteiro, Adília Lopes, Rilke, Sade ou Salvador Dalí. A sessão chama-se A xapharika &etc, uma editora no subterrâno 3, inclui uma conversa entre Eduardo de Sousa, Cláudia Clemente e Isaque Ferreira, sendo este último também um dos diseurs que fará leituras, a par de Nuno Moura (poeta que foi publicado pela &etc.), e Sandra Salomé. A imagem está a cargo de Bárbara Assis Pacheco, que realizou muitas das capas da editora de Vítor Silva Tavares, e asseguram a parte musical J. P. Simões e Joana Bagulho, que toca cravo. Não se esqueçam: às 22h00 de amanhã, um certamente imperdível espectáculo!

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© Bárbara Assis Pacheco

 

13
Set16

Ir ao casino

Maria do Rosário Pedreira

Os casinos podem ser, claro, antros de perdição. Tive uma tia que, nesse particular, teve pouca sorte e se casou nada mais nada menos do que com dois jogadores… Livra! Mas o dinheiro do jogo também pode servir para coisas interessantes e, na Figueira da Foz, o casino tem uma programação cultural bastante boa para compensar as horas e horas de mau vício que lá se vivem todo o ano. Em parceria com a Sociedade Portuguesa de Autores, hoje, entre as 21h30 e as 23h30, um par improvável vai estar presente na actividade Casino das Artes; trata-se de Ana Margarida de Carvalho, a autora do premiado Que Importa a Fúria do Mar e do ainda mais aplaudido pela crítica Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, e do músico Rui Reininho que, para quem não saiba, além de figura-mestra dos GNR, também escreve poesia de vez em quando. A entrada é livre (ir ao casino sem gastar dinheiro é mesmo uma coisa invulgar) e a conversa promete ser rica e variada, pois os participantes trabalham ambos em áreas que dão muito que falar e a troca de experiências de ambos só pode ser frutífera. Se estiver por perto, ora aqui tem um bom programa.

 

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12
Set16

Vestir e despir

Maria do Rosário Pedreira

Os livros dão motivo para que, a seu propósito, se escreva sobre quase tudo, e apanhei há tempos um artigo bem divertido que os Booktailors divulgaram na sua newsletter sobre a importância de vestir personagens. Por mim, sempre embirrei com longas descrições de fatiotas, sobretudo em certa literatura americana que não consegue fugir ao número de botões de uma farda ou às camadas de tecidos que cobrem algumas damas. Mas, de facto, como referia a autora do texto de que vos falo, a descrição da roupa de uma personagem não serve apenas para encher linhas e fazer crescer a obra; ou seja, a roupa não é apenas uma coisa que se veste para que a personagem deixe simplesmente de andar nua. Se forem «vestidas» da maneira certa, as roupas podem ser quase tudo, a forma de descrever classes sociais, gosto, imagem, personalidade, enfim, um largo espectro de características e tiques, pertença a um grupo e muitas outras coisas. O que pode, assim, parecer inicialmente fútil e dispensável, pode também, na verdade, acabar por se revelar fundamental para que o leitor compreenda melhor certas acções das personagens. Porém, é preciso cuidado com as vestimentas na literatura – elas podem ser anacrónicas (e nos romances históricos vê-se muito anacronismo) ou simplesmente desadequadas para algumas criaturas (a autora do artigo cita um ridículo vestido de tule azul numa princesa de um romance de Edward St-Aubyn que já tem sessenta anos e certamente não se vestiria assim). Há sempre pessoas que estão atentas a certos pormenores e, por isso, todo o cuidado é pouco.

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09
Set16

FIC

Maria do Rosário Pedreira

Começa hoje a segunda edição do FIC – Festival Internacional de Cultura, que tem lugar em Cascais e se espalha por diversos sítios, da Casa das Histórias de Paula Rego às ruas da baía, do Museu dos Condes de Castro Guimarães ao Jardim Visconde da Luz, do Casino Estoril ao paredão da praia, desta vez coberto por citações de Shakespeare, uma vez que este ano se comemora o 400.º aniversário da morte do poeta. Há convidados de peso – Caetano Veloso, Andrew Morton, David Lodge, Mathias Énard e muitos outros; e, além de mesas-redondas sobre literatura (uma delas com Caetano Veloso e o poeta António Cícero), política, história, etc., a programação inclui exposições variadas (da própria Paula Rego na sua casa, mas também das capas maravilhosas da revista Egoísta, por exemplo), um ciclo de cinema ao ar livre, concertos, leituras de poesia, teatro, gastronomia, animação infantil e ainda artes de rua para surpreender os passantes. O festival termina no dia 18 e, por isso, havendo todos os dias coisas para todos os gostos, não há razão para não ir lá fazer uma visita. Até porque também há uma Feira do Livro, aberta a partir das 16h, na qual se podem encontrar bons livros e autores a autografarem. A programação dos debates com escritores está a cargo de Inês Pedrosa e pode ser consultada aqui: fic.leya.com.

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08
Set16

Ler em grupo

Maria do Rosário Pedreira

Às vezes fico estupefacta com o facto de duas pessoas jantarem juntas ao meu lado e não trocarem uma palavra durante toda a refeição, mas não pararem de fotografar os pratos e de os divulgar no Facebook para os «amigos» saberem onde e o quê estão a comer. Tenho a sensação de que nunca estivemos tão perto de toda a gente (a Internet ajudou) e tão – apesar disso – sozinhos. Leio, porém, uma notícia em sentido contrário, de que os clubes de leitura e as comunidades de leitores nunca foram tão numerosos em todo o mundo e que só nos Estados Unidos se estima em cinco milhões o número dos que fazem parte de uma ou mais destas «agremiações». Em Portugal elas também são bastante populares – cada vez mais – e algumas contam já com orientadores experimentados e participantes fiéis e têm até temas específicos que são tratados através de obras literárias ao longo de um ano ou de um semestre. Porque será então que as pessoas jantam sozinhas estando acompanhadas, mas gostam de ler em grupo quando a leitura é uma actividade que implica solidão, silêncio, concentração, recato? Pois não sei. Tenho ideia de que muita gente detesta ir ao cinema sozinha por não ter com quem comentar o filme no final; e, se calhar, também sente falta de ter com quem discutir os livros que adorou ler. Será?

07
Set16

Regresso ao passado

Maria do Rosário Pedreira

No ano do centenário de Vergílio Ferreira, decidi levar para férias, entre muitos outros livros, Até ao Fim, um romance publicado no final dos anos 1980 que, sei lá porquê, nunca tinha chegado a ler. Mas este meu reencontro com o autor de Aparição ou Manhã Submersa foi bastante estranho e não creio que isso tenha que ver com o facto de só ter lido Vergílio até aos vinte e tal anos e ter agora outra experiência de leitura e outra maturidade. Não. Até ao Fim (uma «conversa» entre um pai e o seu filho morto sobre a vida, as mulheres, a família…) é, se quisermos, um romance que terá sido moderno na sua época – arrojado, até – mas que hoje não consigo deixar de ler como qualquer coisa que inequivocamente passou de moda. Não me interpretem mal (Vergílio é sempre Vergílio e li-o «até ao fim»), mas, talvez porque tantos o tenham copiado (ainda hoje consigo ver aonde certos jovens escritores foram buscar meia dúzia de maneirismos), fica difícil apreciar a frase quebrada, a falta de pontuação, os tiques que na altura em que o livro foi publicado certamente seriam uma invenção prodigiosa, uma inovação estilística, mas que agora simplesmente me parecem um tudo-nada datados. Já me preparo, de resto, para um dia destes voltar a Aparição, uma obra mais clássica, para provar que o mestre é o mestre e que muitas das suas obras são realmente eternas. Até porque posso estar enganada nesta minha apreciação.

06
Set16

Escrever sem erros

Maria do Rosário Pedreira

Há quem pense que os doutores (os que tiraram um curso universitário, enfim) ou mesmo os escritores não dão erros, mas a verdade é que muitos, mesmo tendo estudado, escrevem de forma incorrecta, sobretudo palavras que ouviram muitas vezes mas nunca viram escritas. Eu, por exemplo, escrevia «atarrachar» em vez de «atarraxar», que é a forma correcta, até ver a palavra escrita por alguém que respeitava e ter conferido no dicionário que andava enganada havia muitos anos. Acontece a muito boa gente e não é crime, mas devemos obviamente tentar evitar escrever com erros. Marco Neves, que se tem vindo a especializar na área da revisão, dá umas dicas no blogue Certas Palavras para nos ajudar a corrigir os erros ortográficos, entre elas, claro, ler muito, ler cada vez mais. Porém, aconselha também a que sejamos humildes e aceitemos que não sabemos tudo, o primeiro passo para desconfiarmos de nós próprios e irmos ver tudo aquilo de que não estamos 100% seguros, aprendendo assim a rever os nossos textos antes de os mostrarmos a alguém, embora possamos pedir a um amigo em quem tenhamos confiança nestas coisas que os leia também (quatro olhos vêem mais do que dois). Os dicionários são igualmente de grande ajuda, entre eles o do processador de texto, que sublinha habitualmente palavras mal escritas a vermelho no ecrã do computador; mas não chega – um bom dicionário online ou em papel faz muita falta e consegue tirar muitas dúvidas. Rever com cuidado é também meio caminho andado para limpar gralhas; e ter a noção dos erros que cometemos mais frequentemente para estarmos mais atentos a esses também se revela fundamental. Se quiserem espreitar o blogue de Marco Neves, façam-no, pois vale muito a pena.

05
Set16

Livrarias diferentes

Maria do Rosário Pedreira

Florentin Bosse, alemão, trabalhou anos num banco, de fatinho e gravata, sonhando com o dia em que tivesse ganho o suficiente para comprar uma vinha e gozar a reforma. Mas isto de bancos, já se sabe, não é lá muito seguro – e a vida dele deu uma reviravolta (suponho que tenha sido despedido, mas não tenho a certeza). Decidiu, pois, refugiar-se primeiro na Natureza, fazer a seguir uma «caminhada» de quase 4000 quilómetros em seis meses e, por gostar tanto de ler e querer fazer algo pelos outros e pela literatura, pediu finalmente a leitores vorazes espalhados pelo mundo que lhe dessem a lista dos seus dez livros favoritos para criar uma espécie de livraria «ideal» que combatesse as pressões do mercado. A livraria, que conta com mais de dois milhares de livros escolhidos por cerca de 500 leitores (Miguel Esteves Cardoso é um deles), chama-se Letters Matters e está situada em Lisboa, na Rua Rodrigo da Fonseca, n.º 21, contando com uma bonita decoração da qual fazem parte retratos de escritores como Oscar Wilde ou Virginia Woolf. No interior estão também os livros da vida de muita gente conhecida, tendo Florentin recolhido as listas de livros preferidos de Hemingway ou García Márquez da Internet, que acrescentou à dos «curadores» ainda vivos. Vale a pena entrar numa livraria que praticamente não tem best sellers e ver quem aconselha o quê. Literatura para quem gosta de literatura.