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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

31
Out16

Futuro

Maria do Rosário Pedreira

Começa amanhã o Fórum do Futuro, um festival internacional dedicado ao pensamento, que se realiza anualmente com a organização do Pelouro da Cultura do Município do Porto e reúne convidados de variadíssimas proveniências e disciplinas para reflectirem sobre os problemas da sociedade contemporânea. Com eventos espalhados pela Casa da Música, o Museu de Serralves e o Teatro Rivoli, entre outros, este ano o tema será «Políticas e Humanidades» e as sessões prometem ser profundas e interessantes (além de gratuitas, bastando apenas levantar os bilhetes com antecedência). Teremos, por exemplo, a oportunidade de ouvir o cardeal Ravasi sobre Deus, o escritor Tahar Ben Jelloun sobre o estado do mundo e a ameaça terrorista, o cineasta Joshua Oppenheimer, autor de um documentário sobre os sobreviventes do genocídio indonésio dos anos 1960, sobre o dever de não esquecer. Falar-se-á ainda de clima, de guerra, de arquitectura, de refugiados, do papel dos negros na História e de muito mais. Richard Zimler vai entrevistar a escritora Ali Smith e todos os moderadores são gente de respeito. Aproveite, não é todos os dias que há um programa tão suculento! Programação completa aqui:

 

http://forumofthefuture.com/

28
Out16

Cinco séculos à mesa

Maria do Rosário Pedreira

Como vamos todos de fim-de-semana (grande, no meu caso), deixo-vos um livro para se deliciarem durante os próximos dias (em que há mais tempo para cozinhar), intitulado Cinco Séculos à mesa e assinado por uma especialista em História da Alimentação, Guida Cândido. A identidade da cozinha portuguesa, os pratos nacionais e regionais, são relativamente recentes em termos históricos. Mas, embora as práticas gastronómicas, os gostos culinários e as técnicas de confecção dos alimentos tenham evoluído ao longo dos tempos, muito do que comemos hoje é herança de um passado remoto, pelo que é possível, em pleno século XXI, preparar uma receita com quinhentos anos e saboreá-la em nossa casa. Este é o propósito da obra que vos trago; apresentando-nos o caminho traçado pela História da Alimentação, propõe que peguemos em cinco obras clássicas de culinária entre os séculos XV e XX e recriemos nas nossas modernas cozinhas uma bateria de cinquenta receitas deliciosas, incluindo entradas, pratos de peixe e carne, sobremesas, refrescos, e muito mais. O livro é prefaciado pelo chefe Hélio Loureiro. Tenham um saborosíssimo fim-de-semana!

 

capa do livro.png

 

27
Out16

Escada para um romance

Maria do Rosário Pedreira

Em Istambul, confluência de mundos, uma estranha escada desperta a atenção de Tiago Salazar, conhecido sobretudo como escritor de viagens; e ele decide ir atrás da sua história, que se confunde com a extraordinária saga dos seus construtores, presenteando-nos com o seu primeiro romance. Conhecidos como os «Rothschild do Oriente», os judeus Camondo erraram pela Europa até se instalarem em Istambul, onde viriam a tornar-se banqueiros do sultão e grandes filantropos. Abraham-Solomon, o patriarca, era o judeu mais rico do Império Otomano e combateu a maldição do judaísmo na Turquia fundando escolas que respeitavam todos os credos e legando ao filho e aos netos a importância da caridade e do mecenato. Já em Paris, o seu bisneto Isaac, amigo dos pintores impressionistas, doaria ao Museu do Louvre mais de cinquenta quadros de Monet, Manet e Degas; e o seu primo Moïse abriria um museu que ainda hoje pode ser admirado e visitado na capital francesa. E, porém, apesar do seu poder e da sua influência, poucos conhecem a história desta família magnânima... O mistério explica-se: sobre a dinastia Camondo abateu-se uma fatalidade – a sua fortuna e o seu sangue eclipsaram-se nos campos de Aushwitz. Em A Escada de Istambul, Tiago Salazar resgata do esquecimento várias gerações desta memorável família e compõe, a partir de factos e documentos reais, uma ficção na qual ele próprio deambula como personagem. (A foto abaixo é do grande Cartier Bresson.)

 

Foto Escada.jpg

 

26
Out16

Livros de estreia

Maria do Rosário Pedreira

Já me tinham convidado de outras vezes, é certo, mas as datas propostas nunca me davam jeito no meio de tantos trabalhos e de viagens que tenho de fazer para lançamentos e apresentações dos livros que publico. Ao fim de sei lá quantas tentativas, consegui, mesmo assim, arranjar uma abertazita. Trata-se de participar numa sessão na Casa da Escrita, em Coimbra, onde se realizam regularmente sessões sobre o primeiro livro – o princípio de uma carreira literária, portanto – de um dado escritor. E desta vez calhou-me a mim: ouvir, primeiro, Teresa Carvalho falar de A Casa e o Cheiro dos Livros, o meu primeiro livro de poesia, publicado quando já tinha 36 anos; e, depois, decerto dizer eu alguma coisa, ou ler, ou discordar, ou contar como foi. É logo mais, às 18h00, na Rua João Jacinto, n.º 8, em Coimbra. Se estiver por perto, apareça. Dizem que o lugar é bem bonito.

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25
Out16

As senhoras

Maria do Rosário Pedreira

Falei aqui ontem dos atributos das raparigas – e hoje o post, embora enviesadamente, também tem que ver com elas. Há cerca de um mês, li a notícia boa de que dois autores portugueses tinham sido seleccionados para o Prémio Femina em França (a primeira selecção incluía 14 romances traduzidos). Este é um prémio instituído há mais de cem anos, mas só contempla romance estrangeiro desde 1985, tendo sido ganho, por exemplo, em 1990, por Vergílio Ferreira com o romance Manhã Submersa. Os dois candidatos portugueses deste ano, Valério Romão e Gonçalo M. Tavares (que, por acaso, já foi finalista em 2010), concorrem, respectivamente, com as obras Autismo e Matteo Perdeu o Emprego. Na passada sexta-feira, chegou a segunda boa notícia: os dois passaram à final, ou seja, dos 14 romances seleccionados agora ficaram só 5, e 2 deles são de portugueses! Os concorrentes são romances de Rabih Alameddine, Petina Gappah e Edna O’Brien, e o prémio será anunciado hoje, pelo que peço que torçam todos pelos nossos para ver se funciona. E, afinal, que tem isto a ver com as senhoras? Ah, bom, é que – tal como o nome indica – no júri do Prémio Femina só há mulheres. Espero que elas gostem dos nossos rapazes.

24
Out16

Miúdas versus Rapazes

Maria do Rosário Pedreira

Um dia, num belíssimo filme de James Ivory, ouvi Vanessa Redgrave (já não recordo o nome da sua personagem) dizer que, se as mulheres mandassem no mundo, haveria muito menos guerras porque elas não quereriam que os seus filhos combatessem e fossem mortos. Serão as mulheres diferentes dos homens a esse ponto? Não fui mãe, mas tenho sete sobrinhos, cinco dos quais são raparigas. Observando-os aos sete ao longo do tempo, sou obrigada a concluir que elas foram sempre mais desembaraçadas, mais desenrascadas, mais auto-suficientes, menos dependentes. Souberam inventar formas de fazer dinheiro para poderem viajar, distribuindo panfletos e sentando convidados VIP em estádios de futebol durante o Euro ou estacionando carros em eventos internacionais como o Open de Ténis do Estoril. Eram (e as mais pequenas serão ainda possivelmente) mais senhoras de si, mais autónomas, mais fura-vidas. Li que actualmente há mais mulheres do que homens a entrarem nas nossas universidades; e, quando dão notícias sobre equipas de pesquisa médica e científica por esse mundo fora que descobrem curas e fazem outras conquistas notáveis, não raro estão nelas várias mulheres. Também as estatísticas confirmam que Elas lêem muito mais do que Eles. Um dia destes, li até a estranha notícia de que no Reino Unido os pais gastam menos 25% em livros para os filhos do que para as filhas, porque os rapazes preferem outros brinquedos. Ora, se os rapazes deixarem de ler, cuidem-se: as raparigas vão mesmo tomar conta do mundo…

21
Out16

Para variar

Maria do Rosário Pedreira

Este é um blog que fala sobretudo de livros e de edição, mas, para variar, vou hoje falar-vos de um filme, até porque sei que, ao fazê-lo, não estou a sair da minha zona de conforto. Na verdade, o filme trata de livros… e de edição, claro, e em várias passagens – salvaguardadas as distâncias, bem entendido – recordou-me o meu trabalho quotidiano e algumas das vicissitudes deste belo, mas às vezes tão duro, ofício. Trata-se de Um Editor de Génios, realizado por Michael Grandaje, que conta a história da relação entre Max Perkins (o grande editor da Scribner que deu à estampa autores tão grandes como Hemingway e Scott Fitzgerald) e o escritor Thomas Wolfe (não confundir com o autor de A Fogueira das Vaidades) desde o final dos anos 1920 até à morte deste, em 1938. As duas personagens (papéis desempenhados por grandes actores como Colin Firth e Jude Law) são quase antagónicas, mas criam-se entre ambas laços apertados e até uma certa dependência, uma vez que o escritor é demasiado prolixo e é preciso reduzir milhares de páginas adjectivadas e metaforizadas que escreveu a um volume mais conciso e legível, o que sem o editor não é tarefa fácil. Mas estes laços e estes cortes são apenas uma parte das cisões e das ligações desta história que interessará seguramente a todos os que gostam de livros. A ver, evidentemente.

20
Out16

A rapariga e o pintor

Maria do Rosário Pedreira

Eu bem sei que já aqui falei de Adoração, de Cristina Drios (e não há muito tempo), mas há razões para que volte à carga. O livro sobre esse pintor maravilhoso que ficou conhecido por Caravaggio (na verdade o seu nome próprio era Miguel Ângelo, mas Miguel Ângelo já havia um) e um dos seus quadros (Natividade com S. Francisco e S. Lourenço, conhecido por Adoração) vai ser apresentado logo à tarde, pelas 18h30, na Livraria Buchholz por Luís Carmelo. Estão todos obviamente convidados para este lançamento, mas, não podendo ir, não falhem a leitura deste irresistível romance que cruza duas épocas e nos traz algumas personagens que ficam connosco até muito tempo depois de acabado o livro, como o agente Salvatore Amato (tentem traduzir este nome; surpreendente, não?), Antonia Rei, uma rapariga perdida, ou o duque de Nottetempo, figura que seria digna de um Fellini, mas também de um Visconti (perceberão se lerem Adoração). Então, aparecem? Ainda por cima há música!

 

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19
Out16

Desmancha-prazeres

Maria do Rosário Pedreira

Quando Elena Ferrante começou a escrever livros, pôs ao seu editor como condição para os publicar não ter de aparecer em lado nenhum, alegando que era a obra que importava, e não a pessoa que a escrevia. Deu, é bem certo, algumas entrevistas por e-mail ao longo dos anos, mas ninguém sabia quem era Elena Ferrante, embora houvesse dados que configuravam uma mãe, uma napolitana, uma professora com formação em Clássicas. O sucesso que obteve com a tetralogia A Amiga Genial (ainda não li o último, está em fila de espera) estragou, porém, os seus planos; atraído ele próprio pelo sucesso que representaria a descoberta da real identidade da famosa Ferrante, um jornalista decidiu ir atrás dos rastos da escritora e publicou um artigo em que revela que se trata de uma tradutora chamada Anita Raja, filha de uma alemã que foi para Itália a fugir do Holocausto, casada – isso, sim – com um escritor napolitano que algumas pessoas já tinham pensado ser o autor por detrás do pseudónimo. Para tanto, chegou ao ponto de investigar os dinheiros que saíam da editora para pagar trabalhos a Anita Raja (era demasiado dinheiro para uma simples tradutora) e inventariar bens e casas cada vez maiores e mais bem situadas pertencentes ao casal (um escritor e uma tradutora não costumam ter casas assim tão boas). Embora todos nos perguntássemos quem era a Ferrante, chego à conclusão de que o maior gozo era mesmo não o saber. Porque senti a revelação como um acto de um desmancha-prazeres, além, claro, de uma clara devassa da vida privada (mas sobre isso já muitos falaram). Há, porém, quem defenda que é obrigação do jornalista investigar – e que não devemos criticar, portanto, o autor da descoberta, que fez apenas o que lhe compete. Seja como for, eu preferia não ter sabido a verdade. Não há nada como um bom mistério.

18
Out16

Tristes reformas

Maria do Rosário Pedreira

Leio num jornal que os novos governantes do Brasil vão fazer reformas profundas no ensino médio. Infelizmente, pela voz do jornalista, parece-me que o país se vai virar para um ensino mais técnico e menos abrangente, privilegiando áreas ditas técnicas e científicas e suprimindo a obrigatoriedade do estudo da filosofia e das artes. Os alunos terão uma carga horária muitíssimo superior – passará das actuais 800 horas anuais para as 1400 (nem vão ter tempo para brincar os pobres) – justificada pelo facto de que, só estando na escola a tempo inteiro, com horário de profissional, o aluno terá possibilidade de aprofundar (e se especializar) em uma de cinco áreas: «linguagens [línguas?], matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica e profissional.» Pois, mas então porque é que, mesmo com tanto tempo passado dentro da escola, desaparecem dos programas a filosofia, a sociologia, as artes e a educação física, que passam a ser apenas disciplinas opcionais? Cá para mim, a mudança traz água no bico – e ensinar a pensar deixou de ser uma coisa boa, tal como dar largas à criatividade dos estudantes. Por todo o lado o mesmo, enfim. Tristes reformas.

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