Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Out16

Estranheza

Maria do Rosário Pedreira

Consta que a decisão do Prémio Nobel da Literatura se atrasou uma semana em relação ao previsto por ter havido desacordo entre os membros do júri. Disse-se também que talvez tivessem escolhido alguém que se presumia iria recusar o galardão e não queriam repetir o episódio de Sartre; disse-se até que o escolhido morrera desde a primeira reunião e que tinham tido de buscar outro nome; disse-se que.. que.. que… Depois de saber quem arrecadou o prémio, imagino que não tenha sido fácil pôr os jurados todos a acreditar que Bob Dylan seria uma boa ideia. Quando Woody Allen escreveu o seu primeiro livro, um crítico literário americano desapontado referiu: «Could you stick to movies?» Talvez esse mesmo crítico concordasse, porém, que muitos dos scripts de Woody Allen são geniais, mas são geniais porque andam à boleia da imagem, lidos de per si não constituem decerto obra literária. E, porém, já me estou aqui a perguntar se um bom guionista de cinema ou televisão, um bom libretista de ópera ou da Broadway, não poderá no futuro ser agraciado com o Nobel da Literatura… Chamem-me bota-de-elástico. Não me importo. Eu, que por acaso até escrevo letras para canções e fados, não concordei com a escolha de Bob Dylan no passado dia 13. Por muito belas e profundas que sejam as suas canções, são isso mesmo, canções: texto + música (e ainda interpretação). Não creio que o texto sem a música se aguente e estou convencida de que, se Dylan nunca tivesse cantado os seus textos (poemas, para quem prefira), não teria ascendido à condição de poeta respeitável e nobelizável. A poesia de outros que foram anteriormente premiados – Seamus Heaney, Brodsky, Eliot, Quasimodo, Neruda, só para citar alguns – tem uma música intrínseca, diferente de caso para caso, que não precisa de nenhuma outra música para o texto brilhar. Ter a bengala de outra arte – a música, o cinema – para valorizar um texto é, de algum modo, diferente de se ser puramente escritor. Chamem-me chata. Não me importo.

14
Out16

Contra a violência doméstica

Maria do Rosário Pedreira

Dizemo-nos um país de brandos costumes, e é bem verdade que em Portugal ainda se respira com segurança e até se pode caminhar por muitos dos bairros da capital sem perigo nem sensação de ameaça. E, porém, todos os anos morrem cada vez mais mulheres, assassinadas por maridos, ex-maridos e namorados, sendo os números das que não morrem mas são igualmente vítimas de violência doméstica também cada vez maiores. Ana Cristina Silva, de quem publiquei vários livros nos últimos anos, o mais recente dos quais A Noite não É Eterna, escreveu em 2003 A Mulher Transparente, um romance que se encontrava esgotado havia muito e que relata justamente a vida de uma mulher marcada pela brutalidade de um homem que sobre ela exerce um poder absoluto. Agora, com prefácio da Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Catarina Marcelino, o livro, reescrito pela autora, foi oportunamente reeditado. Apresentado no ISPA no final do mês passado pela escritora e procuradora da República no Tribunal de Família e de Menores Julieta Monginho, os seus direitos revertem integralmente para a APAV. Vamos colaborar?

13
Out16

Húmus

Maria do Rosário Pedreira

Em Março do ano que vem – mais exactamente no dia 12 – comemoram-se 150 anos do nascimento do grande escritor Raul Brandão. A belíssima cidade de Guimarães prepara para esse mês um festival literário em torno da figura e da obra do autor de Húmus, mas já começou, na verdade, a festejar o escritor em Abril deste ano com sessões várias na Biblioteca Municipal Raul Brandão, na qual confrades e estudiosos se debruçam sobre o mestre, que também foi jornalista e morreu em Lisboa em 1930. Depois de Pedro Vieira, Bruno Vieira Amaral, Afonso Cruz, João Tordo ou José Luís Peixoto, é hoje a vez do poeta e crítico Pedro Mexia participar da actividade «Escritor no Concelho», durante a qual terá oportunidade de falar da sua leitura de Raul Brandão, mas também de conversar sobre o seu próprio percurso literário. Eu gostaria de ir, mas estarei no Porto para o lançamento na Invicta de Uma Parte Errada de Mim, de Paulo M. Morais, que desta feita contará com a apresentação do escritor João de Melo na FNAC de Santa Catarina. Até amanhã!

12
Out16

Adorável

Maria do Rosário Pedreira

Descrito pelo duque de Nottetempo, seu contemporâneo, como «um brigão, um arruaceiro», o pintor Caravaggio passou uma curta temporada na Sicília em 1609, aguardando o indulto papal para um crime de sangue que cometera em Roma. Nesse período, pintou uma tela que ficaria conhecida por A Adoração e que esteve no Oratório de S. Lourenço, em Palermo, até ser roubada em 1969, ano em que nasceria uma menina chamada Antonia Rei. É essa mesma Antonia que, em 1992, testemunha um homicídio perpetrado pela máfia numa praça da cidade, onde é interrogada pelo comissário Salvatore Amato, que acaba por contactar alguns dias mais tarde. Mas não é curiosamente sobre o assassínio que lhe quer falar, antes sobre o roubo do famoso quadro... Oscilando entre épocas afastadas no tempo, entre a história fascinante da pintura d’A Adoração e a da investigação de Salvatore Amato num dos mais violentos períodos da acção da máfia, este novo romance de Cristina Drios (finalista do Prémio LeYa com Os Olhos de Tirésias), intitulado Adoração, recorre aos jogos de espelhos que Caravaggio usava nas suas pinturas para atrair ao mesmo vórtice de luz e trevas as vidas de um leque de personagens cativantes, mortas ou vivas, mas todas misteriosamente condenadas ao desencontro. Adorável, em suma.

 

_9789724751108_adoracao.jpg

 

11
Out16

Clássicos com novo look

Maria do Rosário Pedreira

Com tanto livro a ser publicado todos os dias, e os autores disponíveis para conversas, debates e autógrafos, não é lá muito fácil aos escritores mortos sobreviverem (perdoem o paradoxo). Há, porém, maneiras felizes de os trazer de volta à leitura – e leio no Guardian que as vendas de alguns clássicos (David Copperfield, de Charles Dickens, ou Guerra e Paz, de Tolstoi, por exemplo) subiram 10% no último ano pela simples razão de terem sido objecto de novas adaptações televisivas, convocando leitores e também muitos «releitores» para as obras. Mas há inúmeros livros que não tiveram a sorte de chegar ao grande ou ao pequeno ecrã, pelo que os editores britânicos tiveram de recorrer a outros expedientes e gastar tempo e dinheiro a adivinhar o que a nova geração – que pode ler no ecrã do telemóvel o e-book, e frequentemente de graça – procura realmente num clássico em papel. Prefácios e apresentações dos textos por gente com gabarito? Formatos agradáveis, fáceis de folhear e transportar? Bonitas ilustrações no interior e na capa? Colecções de sonho que toda a gente quer ter nas estantes? Livros subdivididos em vários livros menores? Um editor da Penguin Classics diz que a edição das poesias completas de Emily Brontë vendia algumas centenas de exemplares por ano, mas desde que publicaram uma selecção dos poemas com 80 páginas já venderam 30 000... Por outro lado, o director de arte da Penguin acha que algumas capas podem intimidar certos leitores e, embora as antigas continuem em circulação, «refrescou» o ar clássico, esperando atrair um novo público. Parece que agora a competição não pára e que os mortos estão a regressar às estantes a toque de caixa...

10
Out16

Esperança na humanidade

Maria do Rosário Pedreira

Parece-me que o mundo se está a tornar um lugar onde não apetece lá muito viver e que a leitura se está a transformar numa actividade cada vez mais restrita quando, no fundo, deveria ser o contrário. E, no entanto, de vez em quando surge uma história milagrosa que me enche de esperança. Desta feita, foi a de uma menina de 11 anos num bairro pobre de São Paulo que descobriu muito cedo o gosto pela leitura e promoveu uma campanha para construir uma biblioteca no quintal da casa a fim de contagiar os vizinhos com a sua paixão. Publicou um vídeo na Internet, que foi visto por um grande empresário, através do qual recebeu uma doação de cerca de 5000 livros (dos quais – pasme-se – já leu mais de 500!). A sua casa está sempre cheia de crianças (que têm de passar pela cozinha para chegar à biblioteca), mas a família já se habituou ao rebuliço e sabe que é por uma boa causa, pelo que não refila. Kaciane – assim se chama a menina – diz que sempre gostou de brincar às escolas e que não vai ficar por aqui, planeando para breve uma biblioteca itinerante, que leve livros a outros bairros desfavorecidos, porque a leitura é fundamental e necessário que os livros cheguem a todos. Estamos precisando de mais Kacianes por esse mundo fora...

07
Out16

No Japão

Maria do Rosário Pedreira

Valter Hugo Mãe (Prémio Saramago com O Remorso de Baltazar Serapião) está de volta com um novo romance intitulado Homens Imprudentemente Poéticos. Passa-se num Japão com perfume antigo e conta a história de dois homens – o artesão Itaro, que faz leques maravilhosos, mas é um homem amargo que cuida de uma irmã cega que salvou da morte certa; e o oleiro Saburo, que está permanentemente apaixonado pela própria mulher e tem a felicidade das coisas pequenas, plantando fileiras de flores na orla da montanha e juntando cores vivas ao lamacento barro. A zanga entre ambos é, porém, muito grande – e a «poesia» de Saburo vista como uma imprudência pelo seu vizinho Itaro. O resto da história deixo para quem quiser ler para não me chamarem desmancha-prazeres, acrescentando apenas que José Tolentino Mendonça descreveu o livro como «uma luminosa parábola que fica a reverberar por muito tempo». Amanhã, o romance é lançado no Teatro S. Luiz, pelas 16h00, com a moderação da jornalista Teresa Sampaio, leituras por Pedro Lamares e a participação das cantoras Márcia e Ana Bacalhau. A entrada é livre, mas, porque existe um limite de lugares sentados, é preciso levantar bilhete antes da sessão. Seja, por isso, poético – se lhe apetecer – mas não imprudente.

 

P. S. Já depois de escrever este post, reparei que Mario Vargas Llosa vai estar, igualmente amanhã, às 18h00, no CCB, para apresentar o seu romance Cinco Esquinas. Isto é tramado...

06
Out16

Recessão literária

Maria do Rosário Pedreira

Depois de um presidente como Obama, que representou seguramente uma mudança de paradigma na presidência dos EUA, é difícil aceitar que um dos candidatos seja agora alguém muito próximo de uma caricatura ou de um personagem de BD. Mas a explicação para a ascensão de Donald Trump à posição de poder assumir os destinos da nação mais importante do mundo pode talvez explicar-se por um certo grau de ignorância arrogante de quem o apoia (Richard Zimler contou-me que «intelectual» na América é para muitos um insulto), ignorância que quiçá  se prende com uma queda vertiginosa dos índices de leitura dos americanos. Leio num pequeno artigo que existe uma «recessão literária» (gosto deste termo) nos Estados Unidos (eu diria que não é só lá) e que os números de leitores de literatura (mesmo que na categoria se incluam livros como As Cinquenta Sombras de Grey), que tinham aumentado entre 2002 e 2008, têm vindo a cair desde esse ano até níveis bastante inesperados... Só 36% dos homens lêem contos, romances, poemas ou teatro, enquanto 50% das mulheres os consomem; os que têm formação superior compram duas vezes mais livros do que os que apenas acabaram o Secundário. Não há uma diferença significativa entre leitores jovens ou mais velhos, lendo todos mais ou menos o mesmo número de títulos. A principal razão apontada pelos autores da investigação para este decréscimo é o tempo gasto com as apps do iPhone e as séries de TV... Uma época demasiado rápida, na qual é difícil conseguir tempo e concentração para ler literatura.

04
Out16

Males invisíveis

Maria do Rosário Pedreira

Quando por vezes entrevistam os vizinhos de um homem que matou a mulher ou a namorada, esses dizem que não faziam ideia de que o assassino fosse uma pessoa violenta ou perturbada. Por outro lado, na sequência de um suicídio, amigos e famílias ficam frequentemente surpreendidos e à procura de razões. O desequilíbrio e a doença psíquica podem ser invisíveis e, mesmo quando o não são, representam um estigma que leva muita gente a não procurar uma saída enquanto é tempo. Uma Dor tão Desigual resultou de um desafio feito pela Ordem dos Psicólogos a oito autores para que explorassem as fronteiras múltiplas e ténues que definem a saúde psicológica e o que dela nos afasta. Em estilos muito diferentes, um leque extraordinário de escritores (Afonso Cruz, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M Tavares, Joel Neto, Maria Teresa Horta, Nuno Camarneiro, Patrícia Reis e Richard Zimler) brinda-nos com textos que mostram como qualquer um de nós pode viver momentos difíceis e precisar de ajuda. São histórias de perda, solidão, fraqueza e delírio, mas também de esperança e humanidade. Pretende-se com este livro combater preconceitos, despertar consciências e ajudar a encontrar uma saída. A capa é do magnífico André Letria.

UmaDorTaoDesigual_capa.jpg

 

 

03
Out16

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Confesso: às vezes, sou uma maria-vai-com-as outras… Antes de ir para férias, a minha amiga Aldina Duarte, fadista, pediu aos seus amigos facebookianos que lhe aconselhassem livros. Na altura, o escritor Mário de Carvalho recomendou-lhe a leitura de O Homem Que Via Passar os Comboios, de Georges Simenon, e eu, que estava a acompanhar as sugestões, fiquei logo com a pulga atrás da orelha porque nunca tinha lido o romance, quiçá porque raramente me vire para autores de policiais. O livro, ao que parece, está esgotado, mas tive sorte: o Manel tinha a velhinha edição da Dom Quixote nas suas estantes (embora eu creia que o tenha na colecção MilFolhas, do Público, mas já não tenho a certeza nem sei onde está). E não é um policial, embora inclua mortes e perseguições; é um romance psicológico surpreendente publicado no final dos anos 1930 (com a guerra à porta) que acompanha Kees Popinga, o protagonista, num périplo curioso, de Groninga (onde era apenas um bem-comportado e um contido funcionário de uma empresa naval) até Paris (onde, depois de assassinar a amante do patrão, deambula por bares e cabarés, mata mulheres a sangue-frio e desafia permanentemente a polícia e os jornalistas, oferecendo-lhes pistas sobre o seu próprio paradeiro e comentando com ironia as notícias que vão saindo sobre os seus crimes). Inesperadamente, achei o estilo algo reminiscente de autores da Europa Central, como Walser ou Marai (Simenon é belga), o que muito me agradou, e apreciei muitíssimo esta metamorfose que mostra como os homens são cheios de mistérios e recalcamentos e, não raro, por detrás de um choninhas está um tipo agressivo e violento. Se o encontrarem por aí, não fiquem a ver passar os comboios.

simenon_georges.gif

 

 

Pág. 2/2