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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

07
Nov16

Dialogar com o corpo

Maria do Rosário Pedreira

Há muitos anos, em conversa com um psiquiatra sobre as razões que levam tantos jovens ao suicídio, ele explicou-me que, em muitos casos, longe de se tratar de amores mal resolvidos – ideia um tanto romântica essa de morrer de ou por amor –, eram situações em que os implicados tinham uma má relação com o próprio corpo, alguma coisa nele que não conseguiam aceitar (e a verdade é que conheço pelo menos dois casos em que isso era verdade). Disse-me ainda que, quando uma mulher muito magra se acha gorda e não pára de falar nisso, é preciso estar atento, porque pode ser um sintoma de que está desencontrada do seu corpo, e nunca se sabe aonde isso pode levar. Li recentemente um pequeno livro de poesia de uma jovem autora espanhola,  Elisa Levi, que é, a este título, magistral. Chama-se Perdida en un bol de cereales e reflecte sobre o desencontro entre a cabeça e o corpo (os seus, presumo) de uma forma em que ambos dialogam (ou o corpo escuta e a cabeça fala) e, por isso, o tu nunca deixa completamente de ser o eu. É uma recolha de poemas breve, mas intensa,  em que alguém mostra que consegue fazer as pazes com o corpo desavindo e segue em frente. Sei que não será fácil encontrar essa colectânea nas nossas livrarias, mas a rede global apanha tudo e acredito que ajude todos aqueles que em algum momento andaram por aí desencontrados do corpo e da identidade, especialmente os mais jovens. Recomendo vivamente.