Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

23
Dez16

Feliz Natal

Maria do Rosário Pedreira

Foi um ano maluco, cheio de trabalho e viagens com autores, e nem eu sei como consegui alimentar este blogue para que os Extraordinários tivessem um post novo quase todos os dias. Acreditem que não foi fácil – e que tive de tirar muitas vezes tempo e cabeça ao trabalho, à leitura e à família só para não desiludir os que aqui vêm todos os dias ler e, frequentemente, dizer de sua justiça. Mas amanhã é véspera de Natal e decidi tirar uma semanita para descansar, sabendo que nesta época muitos dos leitores do blogue andam de casa em casa e de terra em terra, vendo amigos e parentes, confraternizando, comendo e bebendo, gozando a vida e sem grande disponibilidade para perder tempo com as minhas opiniões. Por isso, desejo a todos um excelente Natal, com muita saúde e alegria, e umas belíssimas entradas no ano que aí vem – que, espera-se, há-de ser melhor do que este que agora termina. Divirtam-se muito, ofereçam livros a toda a gente e leiam-nos, mesmo que apenas uns minutinhos ao deitar depois das comezainas e das conversas. Eu prometo voltar no dia 2 de Janeiro, refeita e pronta para mais doze meses de Horas Extraordinárias. Convosco, claro.

22
Dez16

Há Fadistas!

Maria do Rosário Pedreira

Na semana passada anunciei aqui o lançamento de Há Fadistas!, de Pedro Teixeira Neves, um álbum fotográfico dedicado a fadistas e casas de fado por esse País fora, que revela como a nossa canção está viva e de boa saúde e continua a atrair artistas e público de todas as idades. Fui convidada pelo autor a produzir um texto sobre as suas fotografias, e saiu-me uma coisa bastante emotiva, que reflecte o papel que o fado desempenhou na minha vida desde pequena, já que comecei a ir aos fados andaria pelos cinco ou seis anos. Mas agora, com o livro na mão, pude apreciar igualmente o texto de Rui Vieira Nery que ao meu se segue, uma maravilha de prosa em que aprendi uma porção de coisas que não sabia, como, por exemplo, o facto de durante o Estado Novo os fadistas não poderem cantar nada que não tivesse passado no teste da censura e isso ter levado naturalmente a que diminuíssem as letras do fado operário, queixosas da situação, dando lugar a narrativas de amores feridos e abandono – que são, curiosamente, as que ainda se cantam hoje, mesmo sem haver lápis azul. Outra feliz notícia é que este livro, profusamente ilustrado e com muitas páginas, só custa 12 euros, pelo que aconselho todos os que se interessam por fado a comprá-lo e oferecê-lo.

21
Dez16

Penumbra

Maria do Rosário Pedreira

Desde que comecei a trabalhar na edição que vejo muitos jornalistas de qualidade desaparecerem de cena em levas sucessivas de despedimentos colectivos. E reparo que, frequentemente, os que saem são justamente aqueles que eu achava desempenharem melhor a sua função, substituídos por moleques e miúdas que têm quantas vezes ordenados de miséria mas dizem a tudo que sim. Desta feita, a injustiça tocou a alguém que está perto de mim – uma autora que, além de galardoada desde muito cedo como jornalista com quase todos os prémios de jeito que havia para ganhar, ainda arrecadou com o seu romance de estreia o prémio mais cobiçado atribuído anualmente a uma obra de ficção. Falo, evidentemente, de Ana Margarida de Carvalho (e de Que Importa a Fúria do Mar), que acaba de ser dispensada da revista Visão, para a qual trabalhava havia muitos anos, e que tinha seguramente mais bagagem, experiência e talento do que muitos dos seus confrades que lemos ou ouvimos actualmente nos meios de comunicação portugueses. Segundo um post que ela própria publicou no seu mural do Facebook, a terrível notícia foi-lhe dada por um membro dos Recursos Humanos da empresa, nem sequer por aqueles que chefiam a redacção ou dirigem a revista, como se as pessoas já nem fossem pessoas, mas meros números, e não merecessem respeito nem gratidão pelo trabalho que fizeram durante anos. Fico muito triste – não só por ela, mas pelo estado a que as coisas chegaram num país que teve de lutar pela liberdade de expressão durante tanto tempo e que, afinal, mais de 40 anos decorridos do estabelecimento da democracia, volta a comportar-se como se estivesse numa ditadura (a ditadura do dinheiro e das vendas): Pensas, logo não podes existir.

20
Dez16

Música silenciosa

Maria do Rosário Pedreira

Li um livro maravilhoso de Vassili Grossman de que já aqui falei (Tudo Passa) e agora tenho em mãos uma outra preciosidade que me remeteu para esse romance, até porque o seu autor, o britânico Julian Barnes (também falei de outros romances dele aqui no blogue), parece adaptar-se ao assunto, a «Rússia soviética», e escrever um pouco à russa desta vez. Chama-se O Ruído do Tempo e trata de um tempo realmente maligno, o do estalinismo, em que as pessoas andavam caladas por causa do terror das purgas, mas o protagonista não podia manter-se silencioso pela simples razão de que fazia música. Estou a falar de Chostakovich, compositor aplaudido no mundo inteiro nesses anos 1930 e admirado pelo regime soviético até um belo dia em que uma ópera sua incomodou o líder e a sua comitiva no Teatro Bolshoi, em Moscovo, e o jornal do dia seguinte trazia na primeira página uma crítica terrível, acusando o compositor de fazer «chinfrim» em vez de música (crítica provavelmente escrita pelo próprio Estaline). O medo que a partir daí se apodera de Chostakovitch, o que ele faz para evitar os interrogatórios, a forma como se prepara para ser chamado a depor, vestido e de mala pronta para evitar a humilhação de ser levado de casa em pijama, são momentos inesquecíveis neste romance que retrata uma época em que os artistas não tinham liberdade e o poder colidia claramente com a arte. Não percam esta jóia.

19
Dez16

Um mês a felicitar

Maria do Rosário Pedreira

Dezembro dá sempre direito a festas, brindes e felicitações. Ele é o Natal, por norma reencontro de familiares, ele é o fim de ano e os desejos de Ano Novo expressos enquanto se mastigam passas com os amigos… Mas não só: e neste específico Dezembro de 2016 há dois autores que têm razões de sobra para festejar e partir para 2017 de cabeça erguida. Falo naturalmente de Frederico Lourenço, o escritor e tradutor que nos trouxe, por exemplo, as obras fundamentais de Homero e está agora a braços com a árdua tarefa de traduzir a Bíblia do grego (um dos volumes já saiu e, para quem esteja sem ideias, dará um excelente presente de Natal) e que ganhou a mais recente edição do Prémio Pessoa. Falo também de José Luís Peixoto, que arrecadou o Prémio Oceanos (o antigo Prémio PT) no Brasil com o seu romance Galveias, no qual retrata a sua terra-natal, que homenageia com uma prosa sublime e musical. É, pois, tempo de os felicitar e desejar que continuem a brindar-nos com a sua arte no ano que vem e por muitos e bons anos.

16
Dez16

Fotografar o fado

Maria do Rosário Pedreira

Conheci Pedro Teixeira Neves enquanto responsável por uma revista de arte e por causa de um conto infantil que me ele pediu que escrevesse sobre um quadro de Fernando Lanhas; mais tarde, reencontrámo-nos numa editora em que trabalhei porque ele tinha um romance para publicar, e que eu lhe publiquei, chamado Uma Visita a Bosch. Ficámos muitíssimo tempo sem nos ver depois disso (intermitentemente, cruzávamo-nos em festivais) e, quando surgiu o Facebook, comecei a prestar atenção ao seu trabalho fotográfico, de que gosto muito, e acabei por convidá-lo para ilustrar com as suas belas imagens alguns poemas meus durante uma sessão dedicada à minha poesia nas Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre. Passados anos, foi a vez de o Pedro propor que eu escrevesse um texto para um livro de fotografias suas. E eu aceitei imediatamente porquê? Bem, em primeiro lugar pelo que já disse: gosto das imagens do Pedro Teixeira Neves. Mas havia mais qualquer coisa: eram sobre fado, eram fotografias de fadistas cantando por esse País fora! E o lançamento é hoje, pelas 18h30, no Museu do Fado, com apresentação de Rui Vieira Nery. Não faltem!

15
Dez16

O gato na figueira

Maria do Rosário Pedreira

Dizem que os gatos gostam de subir às árvores (atrás dos pássaros) e que não gostam de viajar, sobretudo de carro; mas eu já tive de fazer uma longa viagem de avião ao lado de uma senhora americana muito gorda que, ainda por cima, trazia aos pés uma dessas caixas grandes de plástico com grades que tinha um bichano lá dentro. (Ele vinha confortável, suponho, porque nem o ouvi miar… Já à dona, transbordando do assento, foi difícil ignorá-la.) Agora, porém, vou ajudar a levar um gato até à Figueira da Foz, já que hoje à noite, pelas 21h30, na biblioteca daquela cidade, será a vez de Ana Margarida de Carvalho falar do seu muito aplaudido Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato nas 5.as de Leitura que ali acontecem uma vez por mês e são moderadas por António Tavares, também escritor e vice-presidente do município. Tenho a certeza de que o gato se portará bem pelo caminho e bem assim quando subir à Figueira, ou não fosse a sua autora excelente conversadora. Se estiver por perto, venha fazer-nos companhia.

 

CARTAZ ANA MARGARIDA CARVALHO.jpg

 

14
Dez16

Lembram-se dela?

Maria do Rosário Pedreira

Neste blogue sempre houve comentadores residentes, como António Luiz Pacheco, que comenta quase todos os dias. Outros comentam de forma mais esporádica, mas tenho a certeza de que os frequentadores assíduos deste espaço se lembram de Carla Pais, que aqui vem com alguma frequência deixar as suas opiniões. Pois foi uma grande felicidade – para mim, pelo menos, que a conheci por causa do Horas Extraordinárias há já três anos – saber que esta nossa Extraordinária cometeu o também extraordinário acto de vencer, com obra inédita, o prémio Agustina Bessa Luís! O romance, intitulado Mea Culpa, será publicado em breve e fala de um homem – Amadeu Jesus – que «nasceu do lado torto da sociedade» e de uma mulher – Briosa – que «é criada no seio das montanhas, onde desenvolve o instinto de sobrevivência através dos sinais que o corpo lhe envia». Digo eu que a coisa promete e que prometo à Carla ler este seu livro que lhe provou que, quando se acredita na literatura, respeitar os grandes e tentar alcançá-los é sempre compensador. Cá ficamos à espera, Carla. E, claro, muitos, muitos parabéns!

13
Dez16

Recomendações

Maria do Rosário Pedreira

Eu, que publico actualmente muito poucos livros estrangeiros, fico contente por ter acertado na escolha de A Vegetariana, pois, quando comprei os direitos deste pequeno romance para Portugal, ele ainda não tinha tido nenhum prémio internacional de monta nem fora publicado senão em dois ou três países. Foi, como dizem os franceses, um simples coup de foudre. A sorte acompanhou Han Kang, a sua autora, que arrecadou o Man Booker International Prize pouco depois, e acompanhou-me também a mim, que acreditei no seu talento. De resto, não fui só eu – e os elogios têm-se multiplicado nas últimas semanas; nas listas que muitos jornais e revistas publicam habitualmente quando o Natal se aproxima e as pessoas estão mais receptivas a sugestões porque têm de comprar presentes, seja na Publishers Weekly, no New York Times, na Economist ou no Guardian, A Vegetariana (e, no jornal britânico, também Human Acts, um outro livro da coreana com que brindarei os leitores em 2017) apareceu destacado e foi considerado uma das melhores leituras do ano 2016. A mesma sorte não teve, infelizmente, um romance de uma autora chilena, Andrea Jeftanovic, que me pareceu igualmente fascinante – Amar numa Língua Estrangeira – e que mereceria mais atenção.  Pode ser que os editores de língua inglesa a descubram e façam também dela um sucesso.

12
Dez16

Talento desperdiçado

Maria do Rosário Pedreira

O meu amigo escritor e editor Adolfo García Ortega, residente em Madrid, manda-me regularmente coisas que publica na imprensa espanhola ou em sites dedicados ao nosso ofício. E começou de há dois meses a esta parte a fazer um Abecedário do Leitor realmente fascinante; chegada há uns dias a letra «B», fiquei deliciada com o que me contou sobre as irmãs Brontë. Ora vejam: Charlotte, autora do famosíssimo Jane Eyre e, segundo o meu amigo, a mais inteligente da família, morreu aos 39 anos. Emily, que escreveu o por tantos adorado Monte dos Vendavais – adaptado, de resto, ao cinema numa versão muito teatral –, morreu com 30 anos, deixando apenas esse romance de que ainda hoje se fala. A mais nova das três, Anne, morreu ainda mais cedo, com uns meros 29 anos, tendo escrito dois romances considerados bastante modernos para a época: Agnes Grey e The Tenant of Wildfell Hall. As Brontë constituem um raro exemplo de talento familiar (seria dos genes ou coincidência?) – e as suas obras passaram todas no teste do tempo. Agora imaginem: se todas tivessem vivido mais anos, que livros não poderiam ter-nos deixado?…

Pág. 1/2