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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

09
Dez16

Esclarecido? Não

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui disse mais de uma vez que gosto de dicionários – e o mesmo é dizer que as palavras me fascinam, o que não é de estranhar em alguém que passa o dia à volta delas. Consulto muitos dicionários – online e em papel – e, normalmente, basta-me abrir na página certa para ficar esclarecida. Mas um dia destes não aconteceu… Por causa de um ensaio sobre o pecado, da autoria de Miguel Real, que publicarei em 2017, precisei de me informar melhor sobre o conceito de «heteronomia» (e tudo vinha a propósito de Kant, claro). Algo precipitada, resolvi consultar um simples dicionário de língua portuguesa, mas a primeira definição de «heteronomia» pareceu-me mesmo estranha (digam-me se sou só eu a pensá-lo): «Conjunto de leis da natureza cuja violência se exerce nas necessidades e paixões.» Esclarecidos? Pois eu cá senti-me muito estúpida, acabando por desistir do dicionário e por ir àquela enciclopédia que, mesmo que nem sempre fiável, é uma boa bengala. Aí, li: «Heteronomia (do grego heteros, “diversos” + nomos, “regras”) é um conceito criado por Kant para denominar a sujeição do indivíduo à vontade de terceiros ou de uma colectividade.» Esclarecida? Agora, sim. Mas continuo a ler a definição do dicionário sem perceber patavina...

07
Dez16

Contar uma história

Maria do Rosário Pedreira

Se me pedirem um exemplo sobre alguém que sabe contar mesmo bem uma história, a primeira pessoa que me vem à cabeça é Alfred Hitchcock – que nem escritor é. Escrever, no sentido de escrever um romance, é, aliás, muitíssimo mais do que contar uma história, como todos sabemos; mas, se temos uma história para contar por escrito temos também de saber como encadear os episódios, manter algumas coisas em suspenso, surpreender aqui e ali, guardar para o final algo de suculento. Contar uma história num livro é como construir um edifício com palavras, ideias, imaginação – a estrutura tem de ser cuidada a todo o instante sob o risco de o edifício ruir a qualquer momento. E é isso que nos propõe o escritor João Tordo, um excelente contador de histórias, num curso chamado exactamente assim: Escrever – A Arte de Contar Uma História. As aulas vão decorrer de 13 a 16 de Dezembro em horário pós-laboral, entre as 19h00 e as 22h00 (leve uma sanduíche se não quer desfalecer de fome, não vá um dos autores lidos descrever um lauto jantar) e as pré-inscrições estão já abertas. Se conhece uma boa história, gosta de escrever e quer aprender como pode passá-la ao papel, pode aprender com o mestre João Tordo e os mestres da literatura que ele trará para as suas sessões: Hemingway, Carver, Bolaño e muitos outros. Todas as informações no link abaixo.

 

http://palavrasditas.pt/portfolio/escrever-a-arte-de-contar-uma-historia/

 

06
Dez16

Para casais

Maria do Rosário Pedreira

Não, não pensem já em malandrices, pois falo de assuntos muito sérios – de poesia, para ser mais concreta. Tal como acontece anualmente desde 2005, a Câmara Municipal de Matosinhos organiza mais uma Festa da Poesia entre amanhã e dia 9, celebrando pelo meio o aniversário de Florbela Espanca, que dá, aliás, nome à bonita biblioteca do município onde decorrerão várias das actividades do festival, desde conversas (Nuno Júdice é certamente a maior estrela deste firmamento) até leituras públicas (como a Poesia no Quarto Escuro – e não pensem de novo em malandrices – com vários diseurs e poetas, entre eles  Jaime Rocha). Além de uma bateria de sessões em escolas com o rapper Mundo Segundo e alguns declamadores profissionais para familiarizar as crianças com o ritmo da poesia, as ruas encher-se-ão de poemas, que poderão ser lidos junto às passadeiras do centro da cidade, onde o tráfego é mais intenso e o sinal vermelho para os peões fica mais tempo aceso. E, sim, chegou a altura de revelar a surpresa: é que o casal-maravilha – o Manel e eu, bem entendido – estará dia 8, depois de almoço, a cumprir uma troca viva de poemas de amor durante meia hora, a que a organização chama Poemas Que Te Direi. E diremos. Venham, se puderem.

05
Dez16

Baobá

Maria do Rosário Pedreira

No tempo em que andei na escola, os cadernos eram todos feios e as borrachas não cheiravam a nada. Os lápis ou eram vermelhos ou brancos com a tabuada. Mochilas? Estavam a uma enorme distância temporal: usávamos pastas de couro com umas alças (mas também não andávamos carregados como os miúdos de agora). Até os livros infantis eram desengraçados ao pé do que hoje vemos nas nossas livrarias. E, embora as coisas tenham mudado muito e as obrigações estejam agora mais ligadas ao consumismo e ao prazer, a verdade é que não tínhamos ainda uma boa livraria dedicada especialmente aos livros ilustrados. Vai daí a editora da Orfeu Negro, que tem excelente catálogo de literatura infantil, saiu da sua zona de conforto e abriu recentemente a Baobá - numa referência a uma árvore originária de África, "sólida, ligada à memória e a lendas africanas e brasileiras. Inspira a muitas coisas fantásticas, tem um tronco enorme onde podia existir uma porta. No fundo, os livros são como a raiz", disse a fundadora do projecto. Este é um lugar aonde apetece entrar no bairro de Campo d’Ourique, em Lisboa, nem que seja para folhear formosuras e ouvir histórias bonitas. Mas não só: vem aí um serviço educativo que vai servir as escolas e as crianças do bairro. Só é pena eu ter crescido entretanto...

02
Dez16

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Para ser completamente sincera, ainda não deixei de ler poemas que foram cantados no fado, pois estou a preparar um trabalho sobre a matéria. Mas, entre essas leituras e as do trabalho, ando agora a espreitar um livro para o qual a minha curiosidade foi despertada por uma reportagem de fim-de-semana publicada num dos nossos jornais. Trata-se de uma história que poderia chamar-se com propriedade Da Síria, com Coragem, mas se intitula apenas Nujeen, que é o nome de uma autêntica heroína: uma rapariga com paralisia cerebral que atravessou a Síria arrasada pela guerra de cadeira-de-rodas, na companhia da irmã, e juntas, usando o inglês que tinham aprendido nas séries de TV (a televisão às vezes faz milagres) fizeram mais de 5000 quilómetros até alcançarem a Hungria, com a esperança de conseguir asilo na Alemanha. Nujeen tem hoje 16 anos e conta-nos o seu êxodo e como é ser refugiada, narrativa em que foi ajudada por Christina Lamb, a escritora que já fora co-autora de um livro sobre outra menina-coragem: Malala Yousafzai. Se gosta de testemunhos empolgantes e lhe interessa o que se está a passar no mundo sob a indiferença de muitos poderosos, este é um livro importante para se pôr em dia, contado por alguém que esteve do lado de dentro da história.

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